13 de abr de 2006

A sedução do inócuo


No filme de Costa-Gravas somos convidados a uma aula de história bem comportada. A dor da guerra é a voz, o cheiro e o olhar do inócuo. Encontramos a compaixão com o criador do gás Zyklon B e com um jovem jesuíta, ambos possuidores de um voluntarismo inverossímil.

Um crítico apontou no jornal Folha de São Paulo que “até a última cena não sabemos em que nível Costa-Gravas quer tratar as coisas: história ou ficção; coletividade ou individuo; consciência ou culpa”. Essa suposta indefinição parece carregar sentido nela mesma, na medida em que é a raiz da imagem mistificada e preconceituosa que denota o fracasso de Costa-Gravas em produzir algo novo sobre o holocausto. Ele disse, em entrevista ao CineWeb, que não era seu objetivo mostrar as vítimas do nazismo, mas o outro lado: seus agentes e como eles viviam e dormiam.

O horror, cujo ponto crítico é a revolta de Gerstein ao ver o uso de seu gás nas câmaras, baliza o aceitável na guerra. A resistência que vai se desenrolar ao longo do filme parte desse ponto de viragem do que seria ou não “humano” fazer com os prisioneiros. Desenrola-se assim um enredo baseado, antes de qualquer coisa, num ponto insolúvel.

Em primeiro lugar, nos perguntamos onde se encontra a Segunda Guerra nesse enredo. Ao que parece, ela aparece como evento natural ou aceitável, pois o eixo crucial dessa aventura cinematográfica é a revolta de um oficial da SS que, em última instância, é nazista. Portanto, não passa de inócua a sua revolta ou até mesmo desprezível se passarmos a ver o holocausto não como mito da crueldade humana, e sim como desdobramento circunstancial da ideologia nazista que o mesmo oficial glorifica e sustenta.

Também vale dizer que a “descrição” da família de Gerstein é conduzida dentro de um clamor à honra das nações. É a confiança nas “crenças humanitárias” e no amor ao país de um oficial da SS que seduziram Gravas a chamar sua ação dentro das instituições de resistência em condições adversas. A sedução chega a tal ponto que o diretor conclui a grande importância que teve o relatório, só não sabemos se é baseado na realidade ou no seu personagem, ao que parece, a segunda opção é a mais provável.

A busca pelo jesuíta por uma declaração de Pio XII contrária ao holocausto ou a empreitada de Gerstein para avisar os desavisados do massacre que ocorria, além de confirmarem uma visão isolada do holocausto das demais atividades da guerra, parecem estar contaminadas da confusão entre o indivíduo e o seu poder de ação dentro uma instituição. Essas instituições por sua vez, pela visão do filme, figuram como anteparos à resistência exercida por esses dois indivíduos que, apesar de estarrecidos com o holocausto, não questionam a guerra.

É necessário elucidar a maneira mistificada com que Gravas olha a Segunda Guerra e o holocausto, fazendo uma abordagem do outro lado digna dos filmes que movimentaram a indústria do holocausto com o trivial apelo às vítimas, isento de causas e contexto. Amém de Costa-Gravas, entretanto, parte do ousado, apela ao inócuo e resulta no fracasso.

Um comentário:

Cantinho da Sónia disse...

É de salientar que este filme é um dos poucos filmes que conta um pouco a resistência invisível e pouco conhecida dentro do regime nazi pelos próprios atores do partido. Além do plano de de assassinato de Hitler com o nome de código "Valquíria", também fracassado, houve alguns herois ou corajosos que tentaram de serta forma, dentro dos seus próprios meios impedir que a máquina destruidora do regime continuasse a assassinar pessoas.

 
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