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8 de set. de 2008

"ESTAMIRA" de Marcos Prado


Quem carrega nas costas a missão de revelar a verdade? Uma missão dolorosa e sem fim cabe a Estamira, e a Marcos Prado, coube a missão de revelar a jornada dessa profetisa.

No lixão do Jardim Gramacho trabalhava orgulhosamente Estamira, do descartado pela sociedade ela tirava seu sustento, orgulho e reflexões. Tida como louca, em um mundo onde tudo está ao contrário, encontrou respostas para todas as dúvidas existencialistas que passam pela mente do ser contemporâneo.

Em meio a tanta violência, violação, pobreza e descaso, a fé deixa de ser suficiente e assim Deus é questionado, ele não deixou de existir mas sua presença como um salvador piedoso não tem mais credibilidade, passa existir apenas a sua ausência. Então Estamira preenche esse vazio, não como piedosa digna de pedidos de salvação, apenas como reveladora da verdade e do real funcionamento das coisas, os homens existem por si e para si.

Na câmera do exímio fotógrafo Marcos Prado, sua personagem em super 8, preto e branco, granula a ponto de se misturar ao ambiente, ela tem o poder de enfrentar tempestades e o mar violento. Na câmera colorida de imagem limpa, profetiza e se mistura ao fogo, acompanhada da música que grita em agonia essa mulher quer ser escutada.

Seu passado é rastreado e estruturado ao longo da fita. Sofredora desde criança, prostituída na infância, traída pelo primeiro marido, espancada pelo segundo, estuprada duas vezes e obrigada a manter a mãe no hospício por vários anos, depois de tantas provações, uma mulher religiosa, não conseguiu mais encarar tais acontecimentos com teste vindos de Deus, em certo momento concluiu sua ausência, descobriu a verdade e tendo a necessidade de espalhar seus pensamentos, teve a maior revelação de todas, a de que é esse ser especial presente em tudo e em todos.

A auto-afirmação tem que ser repetida até que tudo faça sentido para quem a escuta, talvez para Marcos Prado e até para ela mesma. Ao menos parece levar ao entendimento das filhas, mas a seu filho evangélico e crente em Deus, a possessão por um ser demoníaco é a única explicação plausível . Percebemos consciência ao falar dos acontecimentos de sua vida, a tristeza e a raiva em seus olhos são expressivos, nada disso aparece como justificativa para um surto de loucura.

Teremos tanto medo da verdade que preferimos tachá-la de louca a prestar atenção?! Não digo que a intenção do diretor está em provocar um questionamento da fé divina, ou em fazer um filme profético, claramente ela é encarada como um interessante personagem a ser registrado, mas Estamira é forte, e acaba por transcender o meio audiovisual e permanecer incrustada em algum lugar da nossa mente, sempre nos fazendo pensar se estamos sendo “espertos ao contrário”.

8 de jul. de 2008

31º Festival Guarnicê de Cinema

Depois da decepcionante seleção de longas-metragens em um dos principias festivais de cinema do Brasil, o Cine-PE (Recife - PE), voltar a atenção a curtas- metragens no 31° Festival Guarnicê de Cinema (São Luis - MA), realizado entre os dias 15 e 21 de junho, foi um suspiro aliviado quando se fala na qualidade da produção nacional.

Com uma longa seleção de vídeos e filmes de curta duração, o festival não deixou a desejar em organização e qualidade de selecionados. É claro que, em meio a tantos filmes e vídeos, nem todos são de agrado geral, e convenhamos que a seleção de vídeos maranhenses foi muito forçada, salvo o vídeo-documentário Canoa de um Pau Roxo, de Gabriela Morchel Piccolo e Alberto Graciano (vencedor do troféu de Melhor Vídeo Maranhense pelo Júri Técnico) e o maravilhoso Pelo Ouvido , do diretor Joaquim Haikel, o qual infelizmente não saiu da esfera local quanto aos prêmios que recebeu (vencedor do prêmio de Melhor Atriz e Melhor Vídeo Maranhense pelo Júri Popular); poderia facilmente ter ganho, no mínimo, Melhor Ficção (recebido pelo vídeo O Filme do Filme Roubado do Roubo da Loja de Filmes, de Marcelo Yuka, Paulo Silva e Júlio Pecly); sem falar da sensível película O Incompreendido, de Francisco Colombo.

Vale salientar a aparição de uma abordagem que vem sendo recorrente na nova produção audiovisual brasileira. Depois de uma onda de roteiros complexos, pesados e até deprimentes, observa-se a tendência da execução de peças divertidas, com leveza e sem perder sensibilidade, temas antes difíceis se tornam fáceis na visão desses novos realizadores. Bons exemplos são os vídeos Amanda e Monick, de André Costa (Melhor Vídeo pelo Júri Técnico), Suzi Brasil – a Deusa da Penha Circular, de Renata Than (prêmios de Melhor Montagem, Direção e Melhor Vídeo pelo Júri Popular) e Muito Além do Chuveiro de Poliana Paiva.

Entre as películas, Dez Centavos, de Cesar Fernando de Oliveira, mereceu, sem dúvida alguma, os prêmios recebidos (Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Ficção, Melhor filme Nacional pelo Júri Técnico e Popular). Humano, simples, atual e muito bem executado, promete sucesso no circuito de festivais. Nesta mostra ainda é bom destacar Câmera Viajante, de Joel Pimentel (prêmios de Fotografia, Melhor Documentário), Enciclopédia do Inusitado e do Irracional, de Cibele Amaral e Café com Leite, dirigido por Daniel Ribeiro.

As animações, em vídeo e filme, merecem atenção especial. Tanto em técnica como em roteiro, o nível deste segmento se mostrou alto e cheio de potencial para uma próxima safra brasileira de longas animados. Ícarus, Victor-Hugo Borges (prêmio de Direção de Arte), caprichou na arte e fotografia, além de manter um roteiro bonito e consistente. O divertidíssimo, bem estruturado e executado Até o Sol Raiá, de Fernando Jorge e Leandro Amorim, poderia ter saído com mais reconhecimento (vencedor do troféu de Melhor Roteiro). Quanto às animações em vídeo, o grande destaque foi Lumén, de William Salvador (troféus de Melhor Roteiro, Direção de Arte e Melhor Animação), realizado em stop motion, é um curta muito bem resolvido, esteticamente e em seu roteiro. Com bom ritmo, é direto sem cair no óbvio, tem fotografia e arte bem trabalhadas, merecidamente Lúmen terá grande e longa carreira.

Depois desse panorama em um dos mais antigos festivais de cinema do país, que acontece em uma cidade tão rica culturalmente, um detalhe importantíssimo não pode deixar de ser citado: em meio ao esforço para o desenvolvimento e aumento qualitativo nas produções brasileiras, cada vez mais caprichadas em todos os aspectos audiovisuais, foi vergonhoso e, às vezes, até desrespeitoso presenciar exibições com som horroroso, o que acabou por prejudicar vários competidores. Um festival tradicional como o Guarnicê não precisa deste detalhe em seu currículo. Por isso, espera-se que uma falha tão gritante não aconteça novamente.


Todos os vencedores do Festival Guarnicê 2008:
35 mm:
Menção Honrosa: Ronyel Sales, pela canção-tema do filme Juca Pé de Bode
Melhor Argumento: Camilo Cavalcante (O Presidente dos Estados Unidos)
Melhor Roteiro: Eduardo Felipe, Fernando Jorge e Leandro Amorim (Até o Sol Raiá)
Melhor Fotografia: Eusélio Gadelha (Câmera Viajante)
Melhor Montagem: Rosária e Erica Valle (Ele)
Melhor Trilha Sonora Original: Ruggero Ruscchioni (Pajerama)
Melhor Trilha Sonora Adaptada: Ele
Melhor Direção de Arte: Victor Hugo Borges (Ícarus)
Melhor Ator: Jorge Junior (Dez Centavos)
Melhor Atriz: Adriana Ferreira Coelho Lodi (Entre Cores e Navalhas)
Melhor Direção: César Fernando de Oliveira (Dez Centavos)
Melhor Filme Maranhense (Júri Popular): Ódio, de Breno Ferreira
Melhor Filme Maranhense (Júri Técnico): O Incompreendido, de Francisco Colombo
Melhor Documentário: Câmara Viajante, de Joel Pimentel
Melhor Ficção: Dez Centavos, de Cesar Fernando de Oliveira
Melhor Animação: Ele, dos Alunos da Rede Municipal de Ensino de Vitória
Melhor Filme Nacional (Júri Popular): Dez Centavos, de Cesar Fernando de Oliveira
Melhor Filme Nacional (Júri Técnico): Dez Centavos, de Cesar Fernando de Oliveira

Vídeo:
Melhor Argumento: Amaro Filho (Ligações)
Melhor Roteiro: Willian Salvador (Lúmen)
Melhor Fotografia: Breno César (Banzo Analítico)
Melhor Edição: Christian Caselli (Suzi Brasil - a Deusa da Penha Circular)
Melhor Trilha Sonora Original: Charles Torres (Rua das Tulipas)
Melhor Trilha Sonora Adaptada: Júlio Conde (Desenhando Cultura)
Melhor Direção de Arte: Willian Salvador (Lúmen)
Melhor Ator: Juliano Barros (Bem Intocado)
Melhor Atriz: Amanda Acosta (Pelo Ouvido)
Melhor Direção: Renata Than (Suzi Brasil - a Deusa da Penha Circular)
Melhor Vídeo Maranhense (Júri Popular): Pelo Ouvido, de Joaquim Haickel
Melhor Vídeo Maranhense (Júri Técnico): Canoa de um Pau Roxo, de Gabriela Morchel Piccolo e Alberto Graciano
Melhor Documentário: Loucos de Futebol, de Halder Gomes
Melhor Ficção: O Filme do Filme Roubado do Roubo da Loja de Filmes, de Marcelo Yuka, Paulo Silva e Júlio Pecly
Melhor Animação: Lúmen, de Willian Salvador
Melhor Vídeo Nacional (Júri Popular): Suzi Brasil - a Rainha da Penha Circular, de Renata Than
Melhor Vídeo Nacional (Júri Técnico): Amanda e Monick, de André da Costa Pinto

4 de jul. de 2008

Em Cartaz: "ACROSS THE UNIVERSE"

Julie Taymor foi a talentosa diretora que trouxe às telas do cinema Across the Universe. Sem medo de cair no óbvio, o público pode assistir a um musical inteligente e audacioso completamente composto por músicas dos Beatles.

O roteiro, muito bem estruturado, conta uma história de amor entre um jovem inglês, Jude, e uma jovem suburbana dos Estados Unidos, Lucy. Como pano de fundo, as desilusões e esperanças americanas em meio a Guerra do Vietnã e a luta pela igualdade racial no país.

Jude, um estivador natural de Liverpool, decide começar uma longa viagem aos Estados Unidos em busca do pai que nunca conheceu. Chegando à prestigiosa universidade de Princeton, encontra o objetivo de sua busca, mas não vê muito interesse por parte de seu pai em conhecê-lo. Ao encontrar Max, um aluno da universidade, Jude começa a verdadeira busca por sua identidade, real motivo que o fez cruzar o oceano. No meio do caminho conhece Lucy, irmã caçula de Max, que perde o namorado na Guerra do Vietnã.

Ao largar a faculdade, Max decide se aventurar em Nova York e leva seu novo amigo junto. Na metrópole americana, alugam um quarto no apartamento de Saide, uma cantora de soul, total referência a Janis Joplin, que namora com Jojo, guitarrista de sua banda e escancaradamente uma alusão a Jimi Hendrix. Para completar o grupo, Prudence, uma ex-cheerleader bissexual, entra pela janela do apartamento de Saide fugindo do namorado violento. Todos, é claro, sendo apresentados individualmente com uma performance solo de suas músicas tema, como pede todo musical que se preze.

Com maturidade, a interessante experimentação estética, já ensaiada pela diretora em Frida, dá um tom psicodélico a partes do filme, as quais paradoxalmente aparecem ao lado de naturais atuações e performances musicais (o fato da maioria das músicas terem sido gravadas in loco, sem dublagem posterior, contribuiu muito para isso), a realidade da guerra do Vietnã se camuflando no universo musical dos Beatles.

É verdade que o filme tem suas falhas: as mais de duas horas cansam um pouco o espectador e algumas cenas poderiam ser cortadas sem mudar em nada a linha narrativa. Talvez tenham sido músicas visualmente construídas na cabeça de Taymor que, por apego pessoal, teriam de entrar na história. Além disso, a personagem Prudence não precisaria de tanta atenção. Elementos assim não precisam aparecer tão escancaradamente, ficariam mais interessantes junto a tantos outros que surgem como referências: o trabalhador em Liverpool que comenta como imaginava sua vida aos 64 anos, a maçã partida ao meio por Jude, sem falar da excelente participação de Bono Vox (U2) como Dr. Roberts (ótima escolha para o papel) cantando I Am the Walrus, e conduz o filme naturalmente pela Magical Mystery Tour.

Entre o grande catálogo de músicas do grupo, a dificuldade de reduzir o número de músicas a 33 deve ter sido grande. O interessante é que, durante toda a história, tem-se a impressão de que as músicas foram compostas para aquele roteiro. Em uma manobra de grande audácia, as canções ganharam novos arranjos. Se para alguns não há erro em usar canções dos Beatles, para vários destruí-las é muito fácil, mas as novas versões não deixam nada a desejar. A gospel Let It Be e a simples e naturalista Blackbird estão em completa harmonia com todo o resto.

Apontando questões muito em voga atualmente, diante do confuso cenário construído pelo governo americano no Iraque, o grande mérito do filme é de simplesmente nos fazer escutar as músicas e vê-las muito além do que estamos acostumados.

 
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