4 de jul de 2008

Em Cartaz: "ACROSS THE UNIVERSE"

Julie Taymor foi a talentosa diretora que trouxe às telas do cinema Across the Universe. Sem medo de cair no óbvio, o público pode assistir a um musical inteligente e audacioso completamente composto por músicas dos Beatles.

O roteiro, muito bem estruturado, conta uma história de amor entre um jovem inglês, Jude, e uma jovem suburbana dos Estados Unidos, Lucy. Como pano de fundo, as desilusões e esperanças americanas em meio a Guerra do Vietnã e a luta pela igualdade racial no país.

Jude, um estivador natural de Liverpool, decide começar uma longa viagem aos Estados Unidos em busca do pai que nunca conheceu. Chegando à prestigiosa universidade de Princeton, encontra o objetivo de sua busca, mas não vê muito interesse por parte de seu pai em conhecê-lo. Ao encontrar Max, um aluno da universidade, Jude começa a verdadeira busca por sua identidade, real motivo que o fez cruzar o oceano. No meio do caminho conhece Lucy, irmã caçula de Max, que perde o namorado na Guerra do Vietnã.

Ao largar a faculdade, Max decide se aventurar em Nova York e leva seu novo amigo junto. Na metrópole americana, alugam um quarto no apartamento de Saide, uma cantora de soul, total referência a Janis Joplin, que namora com Jojo, guitarrista de sua banda e escancaradamente uma alusão a Jimi Hendrix. Para completar o grupo, Prudence, uma ex-cheerleader bissexual, entra pela janela do apartamento de Saide fugindo do namorado violento. Todos, é claro, sendo apresentados individualmente com uma performance solo de suas músicas tema, como pede todo musical que se preze.

Com maturidade, a interessante experimentação estética, já ensaiada pela diretora em Frida, dá um tom psicodélico a partes do filme, as quais paradoxalmente aparecem ao lado de naturais atuações e performances musicais (o fato da maioria das músicas terem sido gravadas in loco, sem dublagem posterior, contribuiu muito para isso), a realidade da guerra do Vietnã se camuflando no universo musical dos Beatles.

É verdade que o filme tem suas falhas: as mais de duas horas cansam um pouco o espectador e algumas cenas poderiam ser cortadas sem mudar em nada a linha narrativa. Talvez tenham sido músicas visualmente construídas na cabeça de Taymor que, por apego pessoal, teriam de entrar na história. Além disso, a personagem Prudence não precisaria de tanta atenção. Elementos assim não precisam aparecer tão escancaradamente, ficariam mais interessantes junto a tantos outros que surgem como referências: o trabalhador em Liverpool que comenta como imaginava sua vida aos 64 anos, a maçã partida ao meio por Jude, sem falar da excelente participação de Bono Vox (U2) como Dr. Roberts (ótima escolha para o papel) cantando I Am the Walrus, e conduz o filme naturalmente pela Magical Mystery Tour.

Entre o grande catálogo de músicas do grupo, a dificuldade de reduzir o número de músicas a 33 deve ter sido grande. O interessante é que, durante toda a história, tem-se a impressão de que as músicas foram compostas para aquele roteiro. Em uma manobra de grande audácia, as canções ganharam novos arranjos. Se para alguns não há erro em usar canções dos Beatles, para vários destruí-las é muito fácil, mas as novas versões não deixam nada a desejar. A gospel Let It Be e a simples e naturalista Blackbird estão em completa harmonia com todo o resto.

Apontando questões muito em voga atualmente, diante do confuso cenário construído pelo governo americano no Iraque, o grande mérito do filme é de simplesmente nos fazer escutar as músicas e vê-las muito além do que estamos acostumados.

2 comentários:

Alessandro de Paula disse...

Humm... acho que é uma Sessão da Tarde um pouco melhorada, sabe?

E eu realmente achei que Bono Vox é dispensável neste filme. Ele destruiu I Am the Walrus. Uma vez, peguei um CDzinho em que o Jim Carrey (!) canta a música. Ficou beeeem mais interessante...

Roberto Vagner disse...

Penso eu que os musicais nasceram para ser clássicos e, em tempos de pos-modernidade, filmes como esses não passará de maratonas da MTV.

Musical é o gênero cinematográfico mais difícil de ser feito, grandes diretores já tentaram e não conseguiram. Tentam modernizar, mas a evolução definitiva foi decretada em West Side Story, que foi bem utilizada até a morte de Bob Fosse

 
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