10 de jul de 2008

"CHELSEA GIRLS" por Ricardo Obregón

Não importa se Chelsea Girls (1966), de Andy Warhol, é considerado documentário ou ficção: é um evento, uma ruptura na história do cinema e um ataque à moralidade implícita da imagem. Chelsea Girls é um monstro nascido de um “João-ninguém” que põe o extremismo técnico de Godard ao serviço da metafísica moral de Sade. Acende-se o ecran como um inferno e com um universo que só obedece a si mesmo.

Uma conveniente e tradicional forma de definir o cinema é: "algo que nos leva para fora do mundo onde vivemos, em um lugar diferente, o do filme". Chelsea Girls é, neste contexto, muito simples à primeira vista e, ao mesmo tempo, muito, muito complexo. É, em si, um perfeito e autossuficiente homogêneo mundo. De todos os modos, radicalmente não é como outros filmes, porque começa de uma posição onde o princípio funcional é CÂMERA = DEUS. Enquanto para Spinoza todas as proposições éticas são desenvolvimento da posição, DEUS = SUBSTÂNCIA, para Warhol todas as imagens fluem do axioma CÂMERA = DEUS. Mas que significa isso? A câmera não é mais um pedaço de equipe técnica; é a norma. No universo formal do cinema, significa que "a câmera não é determinada por nada, só por si mesma". A câmera é o equivalente à substância no sistema de Spinoza, desde que é o permanente no filme. A gente e objetos no filme não são mais do que atributos ou modos de substância, passando por deformações, ondulações num caminho imperturbável. Esta é a visão cinematográfica essencial em Chelsea Girls.

Prova disso é a quase completa ausência de edição na película. Um plano dura 20 minutos, conteúdo para arrumar e construir um discurso cinematográfico puramente com o ritmo da fita. Isto só é matéria suficiente para a reflexão de passados e futuros diretores de cinema. Enquanto Hitchcock faz uso dos tesouros de sua imaginação e de habilidade técnica para construir um plano, Warhol elimina todas estas sofisticações técnicas. Sua primitiva técnica consiste em simplesmente posicionar a câmera em algum lugar vagamente central, abrindo em vez de ajustar o diagrama, enfocando, aproximando-se e deixando o filme correr. Ninguém que leu Spinoza, encontrasse algo extraordinário em isto, por sua idéia de que "a liberdade é a necessidade bem entendida". Warhol aplica esta idéia à necessidade interior da imagem.


A técnica se converte em estética pelos planos seguidos, que duram ao longo do filme, aceita a própria lógica da câmera. Em ordem, para seguir respeitando esta lógica, a imagem não deve ser uma construção a priori pelo diretor. Assim, à câmera deve dar o trabalho de atualizar a imagem da mesma maneira em que o piano atualiza a idéia do pianista.

O diretor não pode interferir na estrutura essencial da imagem, já que, se o faz, arrisca-se a alterar a pureza da linguagem cinematográfica introduzindo outra linguagem. Este é, no entanto, o aspecto mais monstruoso da película. Warhol não usa a câmera como um instrumento. Ele é, ao contrário, seu servente, contente por obter seus objetos de devoração. Não pode nem dar-se o fato de que seja acusado por realismo, uma vez que sua obra não pretende apresentar objetos ou aspectos significantes de uma realidade particular. É esta característica a que faz de Chelsea Girls uma película experimental e não-experimental, até onde se pode crer, já que é um sensacional documentário. Warhol trata de liberar-se de um modo de representação do qual o cinema deve ser considerado para ser próprio, bem como qualquer outra forma de representação.

O filme assim se revela como uma grande negação ao realismo, ou ao realismo documentário. Oferece uma sucessão de estruturas autônomas, o que só lhe oferece ao olho da câmera é de importância secundária. Um filme sempre é a respeito de si mesmo; faz uso de outras coisas como personagens, objetos etc.

Andy Warhol é um gênio pelo fato de que deixa ao filme correr em ordem para ver que passa. Mas sem importar que diga o mesmo, sei que esta película de 210 minutos e de tela partida por dois projetores independentes nunca será igual quando vista centenas de vezes. Diretor de cinema e pintor, entendeu que o poder do retrato é tanto psicológico como técnico; para a história ficará, pois, suas estratégias para obter uma "atuação" tão insuportável como potente.


Texto escrito por Ricardo Obregón, traduzido de http://blogdelcinematografo.blogspot.com/2006/11/chelsea-girls-de-andy-warhol-por.html

2 comentários:

Alessandro disse...

Lendo o texto, dá até vontade de ver. Mas é preciso estar preparado. Deve ser difícil ceder 3 horas e meia de uma vida aos caprichos do deus-câmera...

De qualquer forma, texto muito bem-vindo!

Di Carlo disse...

Por várias vezes ameacei ver um filme do Andy Warhol. Nunca passou da ameaça. Talvez por esses pequenos detalhes "técnicos" de seus filmes.

 
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