1 de set de 2008

"SOLDADOS DE SALAMINA" de David Trueba

Soldados de Salamina filme espanhol de David Trueba possui um caráter especial no que se refere a uma abordagem histórica por intermédio do cinema, onde muitas produções cinematográficas deixam a desejar em diversos quesitos, ao passo que acabam fugindo do factual e da veracidade dos fatos, muitas até ignorando o pensamento da época retratada. O filme veio a calhar como um ótimo exemplo para análise e discussão, nas suas mais variadas vertentes, como a reprodução histórica de um fato ocorrido e a busca por informações, investigação, narrativa e construção da memória.

O filme discorre sobre um fato que até hoje soa como um fantasma que deixou seqüelas permanentes na história da Espanha, a Guerra Civil Espanhola (um trauma histórico). A trama é construída a partir da encomenda de uma publicação sobre o tema para uma escritora e professora de História, Lola, que por sua vez já estava saturada do assunto. Contudo, a personagem inicia um minucioso trabalho de pesquisa e reconstrução dos acontecimentos, munida de uma vasta produção literária sobre o tema “Guerra Civil Espanhola”, o material histórico que será o fio condutor da trama, é o livro de um personagem que sobreviveu a um fuzilamento no final da Guerra.

A publicação do personagem Rafael Sanchez Mazas, chama-se “O dia em que morri fuzilado”. Rafael Mazas foi um dos fundadores da Falange Vermelha, facção que apoiava o governo totalitário do General Franco na Espanha, durante o final da década 30. Capturado por soldados Republicanos (contrários a Franco), Mazas foi enclausurado e contava os dias que lhe restavam até a hora da sua execução e de outros falangistas. A escritora passa a montar e unir as peças de um quebra-cabeça a partir de suas fontes históricas, que variam de um vasto conteúdo bibliográfico, passando por depoimentos de moradores locais que vivenciaram o período até chegar a um personagem que participou do acontecimento, trabalhando dessa forma a narratividade e a relação entre passado, memória e futuro.

A memória é trabalhada em todo o filme, tendo como premissa básica que ela é a interação entre o esquecimento e a conservação, tornado-a dessa forma seletiva. O tratamento do trauma histórico é passa a ser veemente quando a escritora parte em busca de um soldado que teve a oportunidade de matar Rafael Maza, que veio a escapar do fuzilamento. A busca incessante pelo personagem que buscou exílio na França, leva a escritora a reunir as mais variadas fontes históricas, retratando a formação de identidade nacional e patrimônio cultural por meio da música Suspiros de España. O encontro de Lola com o soldado é clímax da trama, onde as reconstituições do fato, imaginadas pela personagem através das leituras e depoimentos passam a ganhar mais realidade na sua intenção de esclarecer com o já idoso e pouco receptivo personagem vital da trama.

Nesse encontro, notamos o trauma histórico por intermédio do soldado, que ao tangenciar as questões da escritora deixa claro a sua negação ao trauma, de forma que seus argumentos eram baseados na construção de um imaginário histórico, que se transformaria por ele não ter executado Mazas e entrando para a história como um herói, fato rechaçado e desprezado pelo soldado.

Retornando a um outro ponto fundamental para compreendermos a trama, Lola após captar depoimentos, vai ao local onde ocorreu o fuzilamento e lá e trabalha para reconstituir a ação através do seu imaginário, fazendo um possível caminho que Mazas percorreu para fugir e tentar sobreviver. A partir daí podemos fazer uma associação com a questão do patrimônio histórico, de maneira que tal reconstituição foi construída a partir da narrativa de fatos que foram preservados pela memória, aspectos que se tornam não só fontes históricas, como também preservação de um patrimônio cultural em seus diversos aspectos.

Pois sem essas fontes históricas e narrativas, não seria possível estudar, analisar a importância de um fato, seja ele de tristeza para uma nação como foi a Guerra Civil Espanhola, que causou um trauma histórico em alguns personagens, gerando a negação ao fato, ou de glória como a derrota imposta aos falangistas de Franco na batalha. Um dos grandes méritos do filme de DavidTrueba além de aspectos técnicos como a bela fotografia, dando um tom sombrio sobre o ambiente, além da montagem do roteiro trabalhando com flashbacks a fim de enriquecer a narrativa histórica, esse aspecto foi a maior virtude do diretor ao apresentar um belo trabalho de reconstituição histórica e reconstrução da memória.


Composição: A. Alvarez Alonso (música, 1902), J.A. Alvarez Quintero (letra, 1938). A melodia ganhou letra em 1938, por obra do maestro Álvarez Quintero, em plena fase de Guerra Civil Espanhola. Com as marchas forçadas para cruzar a fronteira com a França, a música se relacionou fortemente com os espanhóis que tiveram que deixar o país, para longe de suas raízes, devido ao regime ditatorial franquista.

4 comentários:

Di Carlo disse...

Só uma dica, no Orkut tem a comunidade Canções Revolucionárias, cujos membros compartilham arquivos e letras de canções de protesto, de resistência, etc. Vale a pena dar uma olhada, talvez você encontre algumas da época da Guerra Civil Espanhola.

Hudson disse...

Ta anotada a dica meu velho. Valeu!

Abs.

Lidia Maria de Melo disse...

Esse filme é um dos meus favoritos.

Tércio Rigolin disse...

O filme é muito bom!!!!!!

 
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