21 de nov de 2008

"ROMA" de Federico Fellini

E já era fim de filme, penúltima cena. O narrador nos fala de uma senhora que passa rente ao muro de velhos palácios.

É Anna Magnani. Ela que já fora Mamma Roma na película de Pasolini - um dia talvez fale mais dele. O post, hoje, é de Federico, o Fellini. Ou, melhor dizendo, da Roma que ele viu, talvez absorvendo ludicamente um tanto a obra do colega de atividades - a conferir!

Menos divagações que atrapalham o texto e vamos ao fato. Ou à quimera felliniana que é a cena. O narrador, que é o próprio diretor, questiona se Anna poderia ser a encarnação da cidade: uma vestal, loba, aristocrata, vagabunda. A Magnani manda Federico às picas e bate-lhe a porta na cara.

Ali, naquele instante, naquela Roma, havia os professores sem didática. Os hippies com seu amor livre. Os puteiros de alta e baixa classe. Os cabarés da época da guerra com suas atrações absurdas lotados de pederastas e agitadores. Um povo que se cagava pra tudo e apenas tentava existir.

Também havia o caos das vias, durante a tempestade, enquanto a equipe filmava - e lá estava o diretor dando suas ordens, questionando, fazendo existir a sua Loba particular e essencial. A passeata de motoqueiros como moscas pela cidade e no cenário clássico de A Doce Vida, a Fontana de Trevi. E um absurdo e surreal desfile de "moda eclesiástica" - sarcástica crítica.

Fellini colocou seus olhos sobre a absoluta Loba que recebeu tantos Rômulos e Remos, de tantas partes do mundo. Roma teve Gore Vidal também, a dar seu depoimento de americano que então ali vivia.

Mas aquela cidade estava morrendo, ou tentando existir apesar de lhe faltar fôlego já há 36 anos. A película data de 1972, levemos em conta. Roma cedia à modernidade. As escavações do Metrô revelam obras do período glorioso do império que, ao contato com o ar de nossos tempos, rapidamente se deterioram.

E, como se não bastasse, Anna Magnani morreu no ano seguinte. A batida de porta foi sua última cena.

Perdido o passado, que resta para o presente e o futuro? Se não sobra muito da sede imperial de dois mil anos atrás, o que sobrou da Roma de Fellini, uma vez que os tempos avançam e já não há mais hippies, os velhos cabarés e puteiros não guardam o mesmo espírito?

Não sei. Ao menos, há o exercício deste mestre, um exercício documental delirante, quase sério, um tanto crítico e de certa forma saudosista, mas também um tanto lascivo e moleque, enfim... um exercício tão Fellini.

Tento guardá-lo em minhas pupilas de forma a não esquecer tão cedo - a despeito da péssima qualidade de imagem e de legendagem da cópia que tenho em mãos - tais cenas que me levam a uma série final de questionamentos deste mal-começado e mal-acabado texto:

Que sobra da cultura, esta herança adquirida de qualquer lugar onde haja gente, seja Roma, São Paulo, Joanesburgo ou Bagdá?

E como aqueles que nos sucederão vão lidar com os temas nossos, que serão um dia apenas arquivos acessáveis em qualquer maquininha sobre a história antiga em que seremos nós os personagens mais ou menos desimportantes?

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