"Tinha estado em Espanha até uns dias antes do golpe de Estado do 23-F; voltei a Argentina com a imagem de um país que trabalhosamente se ia inserindo em inovadores caminhos democráticos. As complexisimas idas e vindas entre as diferentes forças políticas pareciam afirmar-se e dar frutos concretos".
"Em meu país, a ditadura não dava sinais de desgaste e Espanha aparecia como um modelo esperançoso para ser imitado no momento oportuno. A notícia do Tejerazo paralisou nosso espírito e nos invadiram um lamentar e uma pena dificilmente descrevível. A história parecia empenhar-se em amargurar Espanha que tentava deixar atrás um cru período de invalidez e quietismo".
"Aos poucos dias renascia a política, e a Coroa e as instituições retomavam seu caminho com vigor e decisão. Sentia-me fazendo parte desse futuro que Espanha procurava com tanta afeição e cada passo positivo repercutia em mim como se fosse um esforço próprio".
"Quando anos mais tarde Susana Fornos me mostrou o material que dramatizava esse dia e o ano subsequente, senti que falava de minhas próprias expectativas, já que tão proximamente o tinha vivido".
"Esses três casais que tinham nascido e crescido sob o franquismo e que recusam abertamente a aventura militar se assomam, conjurado o golpe, a esta Espanha que, agora sim, via livre o caminho para uma estreita integração com Europa e o mundo".
"O horizonte da convivência se povoava de tentadoras possibilidades e as vontades de crescer e viver plenamente esse futuro que já se instalava e que se exibia através de posteriores conquistas: divórcio, possibilidades trabalhistas junto com outros direitos civis para as mulheres, justiça independente, negócios novos, criatividade e imaginação, ausência de censura, tudo isso, afastada já a crispação da militância, ressoa em cada um dos personagens com diferentes diapasões".
"Cada um deles se permite escutar sua própria voz interior e, para bem ou para mau, começam a percorrer caminhos que não sempre coincidem com os sonhos juvenis".
"Por que Passos? Porque, segundo a autora, a despeito de explicações ideológicas ou sociopolíticas, os passos com que se transita na vida são a intransferível responsabilidade de quem os dá. As dores e alegrias das mudanças excedem, sempre, o estreito marco do pensamento seitário, coincidindo com o entranhável Machado: Caminhante não há caminho...".
Federico Luppi