20 de fev de 2006

"Sem essa Aranha" e atualidade do Cinema Marginal

O filme Sem essa Aranha exibido na Mostra A Montagem no Cinema, realizada pelo CCBB-SP, revive um passado de ousadia e força do cinema nacional. Sganzerla, Glauber Rocha, Bressane e outros do Cinema Novo e do Cinema Marginal consolidaram, entre outras tantas rupturas, um cinema de marca "não-industrial" ou um cinema artesanal como Glauber gostava de ressaltar.
Curioso é notar o efeito que tal cinema provoca se comparado ao atual estágio da indústria cinematográfica brasileira. Cada vez mais industrial e organizado, o dito Cinema da Retomada se assemelha, em termos de produção, muito mais com os filmes da Vera Cruz e das malgradas tentativas de consolidar uma indústria cinematográfica no Brasil. Nesse aspecto, o Cinema Novo e o Cinema Marginal sempre estiveram na contramão da superação de um estágio pré-industrial do cinema no Brasil e por isso muito mais afinados com um cinema menos técnico, mais sensível aos problemas nacionais e mais crítico, sendo por vezes, devastadoramente lúcido. O problema central para eles não era a consolidação comercial do cinema como arte da técnica, mas como caminho para resolver as demandas humanas de um país marcado pelas idéias "fora do lugar", onde modernidade e miséria, cultura e analfabetismo eram - e são - pilares obrigatórios e urgentes para se entender o Brasil.
Hoje em dia, filmes como Sem essa Aranha, ainda que permaneçam afastados do grande público e do gosto cultivado pela influência hollywoodana, não deixam de manifestar certa sinceridade de olhar, certa franqueza na sua exposição da situação brasileira, que é ao mesmo tempo econômica, social, política e cultural. Aranha não é só um empresário, só brasileiro ou só um boêmio. Ele só pode ser tudo ao mesmo tempo, numa conjunção de crise e elitismo ou de riso e tragédia.
Por mais complexa que seja a depuração das imagens de Sganzerla, quase sempre alegóricas, e afinadas com uma visão crítica e desiludida com o futuro que a elite brasileira dos anos 70 almejava, na atualidade a indentificação diretas de suas imagens é inegável. Na terra arrasada(ou em transe) que vive o Brasil atualmente, o experimentalismo, a loucura e o sarcasmo de Sganzerla tornam-se cada vez mais verossíveis na medida em que as nossas elites não se cansam em reforçar e comprovar, nas suas práticas cotidianas, o delírio crítico de Sganzerla.
O filme, portanto, reintera a necessidade de um cinema brasileiro alinhado com suas demandas sociais. E se ele assusta, choca, desconstrói mitos e expõe feridas com doses muito cuidadosas de riso e pesar é porque Sganzerla é talvez o mais brasileiro dos cineastas, pois seus filmes não haveriam de mudar durante toda a sua vida, simplesmente porque não mudou o Brasil. Mesmo assim seus filmes ceifam terreno para a superação da tragédia. Porém, os Aranhas teimam em multiplicar-se com o passar das décadas, enquanto Sganzerla se torna sarcasticamente atual e estimulante.


Montagem no CinemaCCBB São Paulo – Cinema (69 lugares)De 14 de fevereiro a 5 de marçoIngressos avulsos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada)Cinepasse: R$ 8 e R$ 4 (meia-entrada) – válido para todas as sessões da mostra.Debate, dia 21, às 19h30. Entrada franca.Rua Álvares Penteado 112. Centro Tel.: (11) 3113-3651

Um comentário:

Mauro de Araújo disse...

meu deus.. eu sou doido pra ver esse filme.. tenho que ir pra SP logo..

legal , thiago.

 
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