20 de mar de 2006

The Act of Seeing with One’s Own Eyes

Stan Brakhage

É quando a idéia de pós-modernidade como uma hiper-modernidade, um moderno mais moderno que sempre, dá as caras ao cinema. As vanguardas ficam mais absurdas, os artistas mais sem sentido, os filmes mais tateantes. Vejamos Epstein, um moderno ainda, e nós vamos perceber a natureza como algo que nos conduz mais que nossas vontades. O frenético do moderno, francês, o instante fluido, a fragmentação aparece abrindo a porta para toda a Nouvelle Vague algumas décadas depois de Epstein e Dullac.

Nos Estados Unidos um nome da loucura contestadora, Keneth Anger, diz aos vanguardistas e aos próprios franceses da Nouvelle Vague que a burguesia merece vômitos na cara, no mínimo cuspidas, e não uma subversãozinha em preto e branco. O satanismo mentiroso de Aliester Crowley junto às pedras jogadas na tradição dos Rolling Stones - o material para a produção de filmes podia sim ser o homossexualismo mais insano, as masturbações nojentas e os pensamentos mais fedidos. É com Anger que os EUA denunciam-se como uma nação doentia – o símbolo do que chamam de Pós Moderno.

Jack Smith chega dizendo então que a carne, o carnaval e suas fantasias que alegorizavam apenas o tosco e o podre, a carne era o mais importante nos filmes do Underground. Normal Love ( Jack Smith, 1964) retira-nos da instituição cinematográfica, e avança a léguas o olhar piscante, o olhar flanêur, o olhar ainda contemplativo. Agora, no mundo mais moderno que o antigo, o olhar é ansioso e tremido – treme tanto de fome quanto de medo, tanto de loucura quanto de vontade de morte. Brackhage pensa o cinema em seus frames, era a vanguarda além da vanguarda, eram folhas e flores na película, era a textura da visão de um modo impositivo como sempre o cinema foi e quis esconder em seu bolso.

Gene Youngblood, um astronauta, postula a visão do caos e do infinito que antes pesava nas costas da incompreensão dos modernos. Como o ser humano percebe o infinito? Com que visão? Brakhage diz: com uma revolta, advinda daquele medo anterior. Uma revolta nunca antes sentida. O “documentário” The Act of Seeing with One’s Own Eyes ( Brakhage, 1971) mostra o trabalho no seu nível mais alienante, e o ser humano em sua mais abstrata condição.

O lugar é um necrotério. Vemos autópsias de corpos desconhecidos sendo desfigurados até perdermos de vista o corpo tão conhecido por nós. Somos levados ao mais antiético olhar estético da carne humana, um olhar que há muito tempo não se quer ver – e médicos limpos, alvos, os dignos cientistas que damos toda a credibilidade do mundo trabalham para nos mostrar tudo no filme. Ele é sem som, como Brakhage costuma fazer, é a imagem que não quer somente chocar, mas nos tirar de nossa normalidade, nos levar para o fim sem finalidade, sentido – o mundo atual.

Brakhage não mostra caos, ele mostra, neste filme, como o caos começa. Ele vai do humano, as proporções conhecidas e por muitos consideradas como a medida das coisas, até o inumano, o fim de tudo. A arte de Brakhage impõe as peles vermelhas, brancas, até mesmo esverdeadas pela putrefação em seu filme. Exibições são esvaziadas, ninguém quer ver esse tipo de coisa. É isso, o fim, o pós moderno, o equívoco dos vanguardistas calmos ou revoltados como Brakhage – fazer filmes para não serem vistos, e os comentários serão: "não consegui assistir".

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