20 de mar de 2007

Novas ditaduras

A memória histórico-política - sobretudo a da ditadura militar brasileira - tem sido frequentemente abordada pelos filmes por meio de temas paralelos como o ponto de vista infantil (O ano em que meus pais saíram de férias) ou o amoroso (Cabra Cega).

Tentando fugir de uma memória que reconstituiria o conflito passado com todo o seu calor político e ideológico, esses filmes buscam uma suposta permanência humanitária a ser resgatada. Para além de qualquer paixão política, supostamente já superada (será?), existiria elementos humanos universais a serem resgatados, entre eles a infância, o amor, a família.

O foco do filme de Cao Hamburger é o abandono do filho, a fragmentação da família, a reação da colônia judaica frente ao menino abandonado. A política, a origem do abandono é obscurecida e inexistente. Não é só a criança que não sabe onde os pais estão, mas também o espectador do filme não sabe e nem vai saber. Com isso, o propósito do abandono é oculta
do, negado e torna-se secundário, criando uma leitura dicotômica do conflito histórico, na qual ou se está no jogo de violência mútua entre a ditadura e seus inimigos ou se está na vida normal, fora do conflito, indiferente a ele, tentando ao máximo não se misturar.

Mas desde
Para Frante Brasil, temos uma representação ficcional menos ingênua, pouco crente nessa divisão entre a "vida normal" e a "vida política". E foi mesmo no calor da hora, no momento de redemocratização(será?), que surgiu o filme mais lúcido sobre o período militar brasileiro.

O distanciamento do "fato histórico" e o apelo popular da infância e do culto da vida fora da política geram uma complacência pueril com a história da repressão no Brasil. E rodeado de pipocas e salas com menos público do que se esperava, o filme de Cao Hamburger destilou a violência para "toda a família".

Seria isso uma forma de violentar a memória?

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