22 de jul de 2007

A vida secreta das
palavras

"Articular o passado historicamente não significa
conhecê-lo 'tal como ele propriamente foi'. Significa
apoderar-se de uma lembrança tal como ela
relampeja num momento de perigo."
W. Benjamin


A Vida Secreta das Palavras não é apenas um filme bonito e comovente. Ele nos pergunta mais, nos contorce com uma doce e - ao mesmo tempo - trágica fragilidade. Capaz de deixar o espectador tomado pelas imagens, o filme conta uma história de maneira tão detalhada e cuidadosa que nos deixa com a impressão de que qualquer coisa fora do filme está aquém da importância do que está sendo dito. Só assim a memória silenciada pode falar e os homens podem parar para refletir sobre as catástrofes do século XX, despossuídos da sua cotidiana anestesia shopping center.

Depois da Segunda Guerra, do Holocausto, da guerra nos Balcãs e, mais recentemente, Afeganistão e Iraque, não podemos contar uma história - como no século XIX - sem explicar porque estamos contamos, ou melhor, porque e em que situação precisamos contá-la. Se é possível contar uma história hoje (e parece urgente contar), o filme demonstra a necessitade de se concentrar no preciso, no presente frágil que convoca a rememoração daquilo que ficou submerso, esquecido.

Demora muito para o filme se transformar em um "filme de memória". Inicialmente, há um acidentado numa plataforma de petróleo e a sua enfermeira, o que seria uma estrutura narrativa até óbvia e já muito explorada, se essa relação não estivesse apontada para o passado e para o futuro. O passado da enfermeira a transforma em registro vivo, marcado nas suas cicatrizes do conflito nos Balcãs. O passado do acidentado o transforma em participante ativo dos descompassos existentes nas relações humanas, já que se descobre que ele não se acidentou, mas pulou no fogo para salvar o amigo que se suicidava por causa um triângulo amoroso formado por ele.

A urgência da superação do trauma, seja ele público ou privado, aponta a memória do filme do presente para o futuro. Mas, o futuro não é uma tábua em branco, pois os corpos dele e dela estão marcados pelo passado traumático. Mesmo assim, o presente relampeia na busca de uma ação - não reparadora, nos moldes happy-end - mas resistente, articulando o passado, o presente e o futuro não só no sentido de esquecer, mas no sentido de não repetir, de construir o diferente, o novo, de aprender a nadar em meio ao oceano de eventos traumáticos e catastróficos do século XX. É nesse sentido que caminha - ou nada - esse belo filme.

Um comentário:

Ana Carla disse...

Sarah Polley assm como em Minha vida sem mim mais uma vez protagoniza a história que não é só uma história de amor maravilhosa, é um filme sobre a solidão, sobrevivência, sobre a (in)capacidade de seguir em frente, porque afinal a vida continua. Continua, mas continua como?filme maravilhoso.
Isabel Coixet é a diretora dos detalhes das cenas cotidianas da vida.

adorei o blog,já tá nos meus favoritos^^

 
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