10 de jun de 2008

Há um narrador no cinema?

Sempre que se ouve uma história de alguém, quem a conta é seu narrador. Se a história é oral, o narrador se confunde com o próprio autor, mas se o relato é escrito, a coisa muda um pouco, uma vez que quem escreve a narrativa é o autor, todavia, este não se confunde com o narrador do texto escrito. Num romance, por exemplo, quem realmente conta a história é o texto e este possui um narrador textual, a pessoa verbal que conta ao leitor. Sabemos que muitos filmes contam histórias, mas não sendo nem relato oral, nem escrito, o cinema possui um narrador?

Primeiramente devemos pensar o que é uma narrativa. Na conceituação famosa de Christian Metz, um relato é um discurso com início, meio e fim, no qual um mundo imaginário é criado por meio de eventos ligados temporalmente. Essa concepção vale para os filmes, os quais constroem um discurso narrativo por meio de cadeias de causa e efeito em um desenrolar de eventos relacionados a um ou mais personagens.
No relato oral, o narrador se confunde com quem produz o relato, mas na narrativa escrita, essa “confusão” não existe em si mesma (exceto em alguns textos, como os auto-biográficos), pois o narrador está inserido no próprio texto através da enunciação verbal. Ou seja, geralmente em textos escritos existem narradores em primeira pessoa (o defunto-autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis) ou em terceira pessoa (o narrador de A Montanha Mágica, de Thomas Mann), sendo que em ambas, as modalidades de narrador são variadas: narrador-personagem, narrador-onisciente, narrador-testemunha, etc.

No caso do cinema é tudo um pouco mais complexo: primeiro porque o filme não conta nada no sentido literal, ele mostra; segundo, porque existem, muitas vezes, narradores nos filmes, mas dificilmente este fica preso ao personagem ou voz over que nos conta a história. Vejamos alguns exemplos. Beleza Americana (American Beauty, Sam Mendes, EUA, 1999) tem sua história contada por Lester, um “defunto-autor”, mas o filme nos mostra vários eventos que Lester não poderia ter presenciado nem teria como nos contar. Isso nos faz pensar que num filme narrativo há divergências entre o que nos relata um personagem e o que vemos na fita. Noutros casos existem narradores que não são personagens, não sabem tudo sobre uma história e não são mais do que uma voz over que nos conta ou comenta detalhes do enredo mostrado, como é o caso do irônico e sarcástico narrador de Barry Lyndon (Stanley Kubrick, EUA/ Inglaterra, 1975).
Em outros casos, não há narrador algum e somos apresentados à trama por alguma “entidade” invisível que parece provir de lugar algum. É o que acontece tanto em filmes recentes (Um Beijo Roubado; My Blueberry Nights Wong Kar Wai, EUA, 2006), quanto antigos (Rio Vermelho, Red River, Howard Hawks, EUA, 1948), sejam de vanguarda (Andrey Rublev, Andrei Tarkovsky, Rússia, 1966) ou clássicos (...E O Vento Levou, Gone With The Wind, EUA, 1939). Freqüentemente acontece de haver alguma narração explícita que introduz a história, mas logo esta é esquecida, como ocorre no início de todos os episódios de Star Wars que se iniciam com frases do tipo “Numa galáxia distante...”.
Para organizar essa aparente bagunça, o estudioso André Gaudreault propôs o seguinte: um filme possui um nível de tomada, o qual é constituído pelas cenas mostradas que ocorrem independentes de qualquer narração num dado plano; e um nível de montagem, no qual a articulação de plano a plano constrói um sentido com a associação das cenas mostradas. A narração ocorre na sequencialização das cenas na montagem pelas quais se constroem unidades mais ou menos coerentes de espaço, tempo e informação através das quais o espectador constrói uma história. E onde ficaria o narrador neste quadro todo? Se há algum consenso quanto ao fato de que muitos filmes narram fatos, o mesmo não vale para o narrador.
Existem duas tendências gerais na tentativa de resolver a questão. Um grande grupo de pensadores, entre os quais estão André Gaudreault, François Jost e Mauro Bastita tomam o narrador como uma necessidade implícita de qualquer discurso narrativo. Em sua opinião, se há narrativa, o espectador pressupõe um narrador. Assim, num certo sentido, a montagem cinematográfica articula a mostração fílmica (as cenas dos planos individuais), as quais são ambas organizadas por uma entidade imaginária chamada de mega-narrador, ou de o grande imaginador da história que o filme conta. O narrador é um princípio de organização da película, não uma figura em si mesma. Neste sentido, personagens como o Lester, de Beleza Americana ou a voz over de Barry Lyndon seriam narradores-delegados, responsáveis por esclarecer alguns aspectos da história contada-mostrada. Nessa perspectiva, sempre há um narrador no cinema, como uma entidade implícita.
Outros pensadores preferem descartar a figura. É o caso de David Bordwell, o qual afirma que qualquer espectador que vê uma película sabe diferenciar que está sendo apresentado a uma história, sem precisar pressupor que alguém a esteja contando. O narrador seria mera formalidade desnecessária, mais teórica do que prática, uma vez que os espectadores não ligam para “quem” está contando um filme, mas sim para como devem fazer para compreender a história. Neste sentido, os narradores-delegados são invenções da própria película para facilitar a compreensão e não recebem poderes de qualquer outra instância invisível.
Como se vê, a figura do narrador é mais complexa do que parece a primeira vista. Não há um acordo sobre o assunto no mundo das discussões das idéias sobre a imagem cinematográfica. Ainda assim é uma forma instigante de pensar o cinema, permitindo compreender melhor seus aspectos narrativos.

5 comentários:

Alessandro disse...

Gostei do texto, Junim (eh eh eh!)! Poxa vida, mas não gostei muito do que o Mr. Bordwell diz, não.

Implicita ou explicitamente, ao meu ver, o narrador está lá. Ao menos, grosso modo, é nisso que eu acredito.

Abraço! :-)

Hudson disse...

Belo texto!

Passarei a observar e analisar melhor os filmes, tendo esse dualismo como referência. Além disso, penso que podemos ter como base esse texto para debater as idéias sobre a imagem e suas formas de compreensão.

Di disse...

O didatismo do texto é fora de série.

Quando pensamos na Internet, nem se fala. Pois nela a urgência nos leva a opinar sobre tudo.

Claro, é bom. Mas é perigoso por formarmos opinião sem termos clareza com o que estamos lidando.

Na Internet nos iludimos com nosso gigantismo e esquecemos que os ombros dos gigantes estão disponíveis.

Nesse texto você subiu e mostrou que se tivermos boa vontade também podemos subir e ver que o cinema não tá apenas um palmo do nariz.

Lari Fernandes disse...

ótimo texto, me ajudou num trabalho da faculdade. <3

Mr. Malta disse...

Caraca. Que reflexão. Curti demais.

 
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