24 de jun de 2008

Rambo neles!

Sob o domínio militar desde 1962 - uma das ditaduras mais severas desses últimos dois séculos, a Birmânia é localizada no sudeste asiático. Em outros tempos, era considerada um dos países de maior riqueza natural (abundante em gás natural, petróleo e arroz) e de grande futuro educacional. No entanto, agora se encontra entre os 10 países mais pobres do mundo. Com um 90% da população vivendo em um nível de miséria absoluta (menos de 1 dólar por dia), grande parte desses 10% que restam é de militares. O setor militar é o de maior investimento no país, que não se encontra ameaçado por nação alguma.

O país mais corrupto do mundo enriquece de todas as formas possíveis e imagináveis a cada dia, abusando de uma população sem meios e forças para reagir - como se deve imaginar, a educação é precária e o sistema sanitário ainda pior - inclusive os hospitais públicos são pagos. Tudo isso gera uma grande necessidade de sobrevivência a essa maioria, que não se vê em condições de lutar contra os mais de 450.000 soldados devidamente armados.

As várias organizações contrárias ao regime perderam seu pouco domínio em algumas regiões do país nessa última década. Agora apenas atuam como autênticos guerrilheiros em zonas limitadas e devidamente isoladas. Quase todos os grandes revolucionários se encontram presos ou já foram mortos, restam poucos sindicatos, sem força alguma. O governo se encontra preparado para qualquer revolta e não hesita em atirar em civis revolucionários, armados ou desarmados, como aconteceu durante a manifestação estudantil em 1988, com milhares de mortos, e na chamada “Revolução do Açafrão”, em setembro do ano passado.

Há mais de um mês, a Birmânia voltou a ser notícia. As cidades mais populosas, localizadas na costa do país, foram devastadas por um ciclone, matando mais de 100.000 pessoas e deixando outros milhares sem nada.

Apesar da situação mais que crítica, o governo impediu, durante alguns dias, qualquer ajuda exterior. Logo, pressionado pela ONU, abriu algumas portas, mas não deixou de confiscar dinheiro e produtos básicos. A ONU declarou, assim, perdida ante tamanha crueldade, que não sabia mais que medidas tomar.

O que falta à ONU ou o que falta ao mundo é “alguém” como John Rambo - apesar de o mesmo crer ainda menos no mundo do que a gente nele. Um alguém com coragem, dignidade e, mais que nada, seriedade (ao final, todos e qualquer organização política, seja direta ou indiretamente, priorizam seus interesses) para enfrentar “líderes” como os da Birmânia. Não sou comunista, mas sou a favor das guerras progressistas e contra as injustiças humanas.

O povo birmanês, sempre esquecido pelo mundo, anseia que notícias como essas tornem o país visível e sirvam para motivar as demais nações a tomar medidas radicais, na esperança de que esqueçamos um pouco George Bush e comecemos a ser conscientes de que, apesar das atitudes e decisões do presidente americano nos afetar de forma tão direta, o regime ditatorial de Than Shwe também influencia toda a população mundial, com o desperdício de produtos básicos como o arroz, gás natural e petróleo, além de exportar de forma ilegal o ópio e a heroína. Espera que enxerguemos toda a selvageria ordenada por Bush no Iraque e Afeganistão e que percebamos que isto ainda não equivale há um quarto do que já foi provocado em 40 anos de genocídio birmanês.

Mas isto nunca acontecerá enquanto a Birmânia for um grande pólo de investimento industrial. Por conta dos baixíssimos salários, grandes empresas se instalaram no país, chinesas em sua maioria. A China, também principal abastecedora militar do país, vive disfarçada em seu neo-socialismo, onde age injustamente, de forma bipolitizada, diferenciando acentuadamente as grandes cidades como Xangai e Pequim (cidades exageradamente capitalizadas) das pequenas cidades e regiões mais pobres, que ainda vivem na miséria e sob um regime déspota.

Com os EUA não é diferente, sempre argumentam sua invasão iraquiana a favor do povo, que durante décadas foi governado pela ditadura de Saddam Hussein. Mas nunca se moveu de forma direta contra a ditadura de Than Shwe e seus antecessores. Naturalmente, porque não há interesse algum nisso.

Hoje, a Birmânia volta a ser esquecida pelo mundo. A tragédia em sua costa foi eclipsada pelos terremotos na China. Sua população seguirá vários anos mais trabalhando 12 horas por dia em troca de 3 dólares mensais, lutando não por seu país e, sim, por sua vida.

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