17 de jun de 2008

Trama e Fábula

Uma das distinções mais importantes para a Narratologia (ramo da semiótica) é entre fábula e trama[1]. Essa distinção, já apresentada por Aristóteles, e, mais detalhadamente, pelos Formalistas Russos, pode ser feita nos seguintes termos: a história que é representada (fábula); e o modo de representação, de construção, dessa história (trama). (BORDWELL, 1985. p. 49)

A fábula é


O construto imaginário que nós criamos, progressivamente e retroativamente... (...) Mais especificamente, a fábula incorpora a ação como uma cadeia de eventos cronológica, de causa e efeito, ocorrendo numa duração e num campo espacial estabelecidos.[2]

Já a trama (ou syuzhet) é


o arranjo propriamente dito e a apresentação da fábula no filme. (...) É um construto mais abstrato, o padrão da história reproduzido como uma recontagem minuciosa do filme.[3]


Um ponto muito importante dessa distinção é a questão de que a trama (e também a fábula) é independente do meio, podendo ser usada a mesma em um romance e em um filme, por exemplo.

Como comprova Bordwell:


Logicamente, o padrão da trama é independente do meio; os mesmos padrões da trama podem ser incorporados em um romance, em uma peça, ou em um filme.[4]


A trama se diferencia também do estilo. Enquanto a trama diz respeito às ações, às cenas, às mudanças na história (no enredo), o estilo diz respeito ao movimento das figuras, ao cenário, ao som, à iluminação, à fotografia, à edição. (BORDWELL, 1985. p. 50)


...em um filme narrativo esses dois sistemas coexistem. Eles podem coexistir porque trama e estilo tratam aspectos diferentes do processo fenomenal. A trama materializa o filme como um processo “dramático”; o estilo materializa o filme como um processo “técnico”.[5]


Ou seja, a trama, sendo responsável pelo modo de organização das ações, situa-se no plano textual, enquanto o estilo materializa a história e o discurso através dos recursos tecnicamente cinemáticos. O estilo, sendo dependente do meio, situa-se fora do texto, embora produza ressonâncias significativas sobre o mesmo. É necessário, no entanto, perceber que trama e estilo possuem uma dependência muito forte entre si, tornando praticamente impossível reconhecer apenas uma individualmente em determinado filme. Essa distinção entre trama e estilo se torna tênue quando colocada em prática, quando procurada em filmes.

Para Bordwell, a trama se relaciona com a fábula em três princípios básicos: lógica narrativa, tempo, e espaço.

A lógica narrativa diz respeito à relação entre os eventos (principalmente uma relação causal). A trama pode facilitar ou dificultar o arranjo lógico.

Quanto ao tempo, a trama pode organizar os eventos em qualquer seqüência (ordem), pode sugerir qualquer espaço de tempo (duração) para os eventos, e também assinalar um número de vezes em que determinado evento ocorre (freqüência). Da mesma forma que a lógica narrativa, o tempo pode ajudar ou “bloquear” o entendimento da fábula.

O espaço da fábula também é afetado pela trama. Quando o espaço é bem delimitado, a trama contribui para um entendimento maior da fábula. No caso oposto, a trama dificulta o reconhecimento do espaço em que ocorrem os eventos.

Através desse breve estudo sobre trama e fábula, podemos chegar, junto a Bordwell, a uma definição do que é narrativa (Para Bordwell, narração):


No filme de ficção, a narração é o processo através do qual a trama e o estilo interagem dando pistas e canalizando a construção da fábula pelo espectador. Portanto, é apenas quando a trama organiza as informações da fábula que o filme narra. A narração também inclui processos estilísticos. Seria possível, claro, tratar a narração somente como uma questão da relação trama/fábula...[6]


A narrativa é, realmente, um problema da relação entre trama e fábula.


Referências:

BORDWELL, David. Narration in the fiction film. Madison: University of Wisconsin Press, 1985.



[1] Bordwell usa o termo “syuzhet”; preferimos utilizar o termo “trama”, que é usado por Umberto Eco no sentido aqui referido.

[2] “The imaginary construct we create, progressively and retroactively... (...) More specifically, the fabula embodies the action as a chronological, cause-and-effect chain of events occurring within a given duration and a spatial field.” (BORDWELL, 1985. p. 49)

[3] “the actual arrangement and presentation of the fabula in the film. (...) It is a more abstract construct, the patterning of the story as a blow-by-blow recounting of the film could render it.” (BORDWELL, 1985. p. 50)

[4] “Logically, syuzhet patterning is independent of the medium; the same syuzhet patterns could be embodied in a novel, a play, or a film.” (BORDWELL, 1985. p. 50)

[5] “...in a narrative film these two systems coexist. They can do this because suyzhet and style each treat different aspects of the phenomenal process. The syuzhet embodies the film as a ‘dramaturgical’ process; style embodies it as a ‘technical’ one.” (BORDWELL, 1985. p. 50)

[6] “In the fiction film, narration is the process whereby the film’s syuzhet and style interact in the course of cueing and channeling the spectator’s contruction of the fabula. Thus it is only when the syuzhet arranges fabula information that the film narrates. Narration also includes stylistic processes. It would of course be possible to treat narration solely as a matter of syuzhet/fabula relations...” (BORDWELL, 1985. p. 53)

3 comentários:

Santiago disse...

o texto ficou muito bom e informativo, respeitando bem a letra de Bordwell.

Alessandro disse...

Ei, muito bom o texto! Muito bom mesmo! :-)

Di Carlo disse...

Gostei!

 
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