28 de jul de 2008

Em Cartaz: "A VIDA DOS OUTROS"


O filme A vida dos outros (Das Leben der anderen, Florian Henckel von Donnersmarck) pode ser compreendido em paralelo ao Do outro lado ( Auf der anderen Seite, Fatih Akin).

No enredo de Florian Henckel, preconceitos são minuciosamente desfeitos e os personagens são jogados de um lado a outro. Esses dois filmes abordam as contradições da vida, contradições no sentido hegeliano, em que o que é; não é e o que não é; é – no clássico exemplo do senhor/escravo: o senhor não é escravo, mas também é (porque do escravo depende) e o escravo não é senhor, mas também é.

“É possível que um homem que realmente ouça essa música, possa ser uma pessoa ruim?” Essa pergunta é feita ao som de Beethoven e a cena seguinte é o oficial “HGW” (interpretado por Ulrich Mühe) da Stasi (abreviação de Staatssicherheit, “Ministério de Segurança”) com uma lágrima discreta no rosto. A discussão que o diretor propõe não é humanizar os clássicos soldados carrascos e desalmados da Alemanha Oriental, mas sim propor que o que está aparentemente de um lado, pode, na verdade, estar de outro.

Se não é possível que um homem que verdadeiramente ouça Beethoven seja uma má pessoa, é possível que um oficial da Stasi, ao espionar um artista com o intuito de desmoralizá-lo, acabe por protegê-lo?

É na vida desse outro, do escritor, que HGW encontra o sentido para a sua. Nesse outro, nesse outro lado, HGW preenche e dá sentido a sua existência – tão diferente e aparentemente oposta àquela.

Ao personagem do escritor Georg Dreyman (interpretado por Sebastian Koch) há uma trajetória semelhante. Ele é condenado por seus pares por continuar escrevendo durante o regime comunista; o que, naquele momento, significava ser aceito pela censura, ser bem visto pela burocracia e não representar uma ameaça à ordem vigente. Mas se olharmos com atenção essa situação, poderíamos nos lembrar dos atores e escritores envolvidos com o CPC da UNE na década de 1960. Muitos deles, como o Ferreira Gullar e Oduvaldo Viana Filho, foram trabalhar na Rede Globo, sofrendo (alguns até hoje) forte recriminação. Mas estar na Globo, naquele momento, era uma maneira de encontrar uma brecha para fazer política e mesmo resistência. Para além da obviedade de que pessoas no século XX precisam de trabalho-dinheiro-comer-pagar-aluguel, estar na Globo – ou publicar sob a DDR – era uma forma de ser visto, ouvido e falar.

O escritor pôde perceber seu espaço, o oficial perceber seu poder e dessa maneira mostrarem de que lado efetivamente estão, apesar das aparências.

Retomando a definição da contradição hegeliana, o oficial da Stasi é e não é um oficial; porque não age completamente como tal e o artista autorizado pela censura é e não é um mero pau-mandado dos políticos. Simples mesmo, só a vida da novela das 20hs de hoje.

Um comentário:

Alessandro de Paula disse...

Eis aí o grande filme do ano passado. Eis aí uma belo ângulo a partir do qual não havia pensado o filme.

 
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