22 de ago de 2008

Em Cartaz/Entrevista: "ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO"

Entrevista de Zé do Caixão a Cristian Verardi, do site "Qual É a Boa".

Cineasta maldito, mítico e controverso, José Mojica Marins invadiu de tal forma o inconsciente coletivo do povo brasileiro que se tornou uma figura indissociável de sua maior criação, Zé do Caixão! Ícone absoluto do horror brasileiro, José Mojica Marins deixou sua marca no cinema nacional através de uma filmografia vasta e singular, composta por obras como "À Meia-Noite Levarei Sua Alma", "Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver" e "O Despertar da Besta". Sobrevivendo à margem da indústria cinematográfica brasileira, Mojica resistiu bravamente à falta de apoio estatal, ao descaso da crítica e ao preconceito com o gênero horror, e após uma inexplicável gestação de 40 anos consegue produzir "Encarnação do Demônio", o desfecho da trilogia iniciada em 1963 com "À Meia-Noite Levarei Sua Alma". "Encarnação do Demônio" foi o grande vencedor do Festival de Paulínia - levando inclusive o prêmio da crítica - e participará como convidado do próximo Festival de Veneza. Mojica esteve em Porto Alegre, no último dia 02, para o pré-lançamento de "Encarnação do Demônio", no 4° Fantaspoa.

QUAL É A BOA - O personagem Zé do Caixão nasceu de um pesadelo. Os pesadelos continuam sendo uma fonte de inspiração?

ZÉ DO CAIXÃO - Pra mim é! Em 1963, em outubro exatamente, os padres me desiludiram, disseram que eu não servia para fazer cinema. Eu estava fazendo uma fita em 1961 (Meu Destino em Tuas Mãos), pra crianças, um filme feliz, legal, os padres e as freiras aplaudiram de pé, mas quando eu fui lançar ninguém quis a fita. Eu vinha de “A Sina do Aventureiro”, um bang bang meio nosso, bem brasileiro, e eu faço de repente um filme bem água com açúcar. E aí eu fui falar com o padre, falei: “Vocês aplaudiram de pé, pediram que eu fizesse, e o cinema não quer exibir a fita porque é muito água com açúcar”. Aí o padre virou pra mim e disse: “Olha meu filho, eu sinto ter de falar, você não nasceu pra fazer cinema.” E eu: “Eu só sei fazer isso, minha religião é o cinema!” E o padre: ”Você não nasceu pra isso, as pessoas têm de nascer. Você podia vender uva passa, engraxar sapatos que é mais fácil, pega uma outra profissão, mas esqueça o cinema”. Pô, aí eu fiquei meio revoltado. Então tinha James Dean com “Juventude Transviada”, “Vidas Amargas” e eu pensei: "o negócio é tentar fazer uma fita sobre a mudança dos jovens no Brasil, já que tavam mudando no mundo todo". E aí eu estava com “Geração Maldita” pra fazer. Consegui juntar uns associados pra fazer o “Geração Maldita”. Estava com barba porque tive um problema intestinal e invés de fazerem promessa pros meus cunhados deixarem a barba, fizeram pra mim. Eu por respeito deixei a barba, né. E aí, saio um dia cansado, chego em casa, tô jantando, e o cansaço era muito. Eu já tinha tomado comprimidos pra dormir, eu sou dependente de comprimidos, sofro muito de insônia. Acabei adormecendo na mesa e devo ter me retorcido, me agitado. Ao adormecer veio esse pesadelo com a figura de preto, que eu retratei no “Esta Noite levarei Sua Alma”, que me levava pra uma gruta onde tinha uma lápide com data do meu nascimento e da morte! Era uma espécie de um prenúncio pra eu entrar naquilo que gostava: o horror, o terror, que eu já tinha feito umas fitas experimentais, aos 10, 12 anos. Trouxeram um pai de santo, acharam que eu estava com algum espírito maligno dentro. O pai de santo falou: “Pronto, tirei o diabo do corpo dele”! Eu disse que não estava com diabo nenhum, pô! Eu tive uma premonição, eu vou fazer outro negócio! Não quis saber mais de dormir, então fui buscar minha secretária, bati na casa e ela ficou toda apavorada: “Aconteceu alguma coisa?” Eu disse: “Não! Preciso de você pra fazer um resumo, eu não vou mais fazer “Geração Maldita”, eu vou fazer “A Meia Noite Levarei Sua Alma”! (...) Ficou um negócio bem cabalístico, 13 latas e 13 dias, era o material e o tempo que eu tinha pra filmar e pra pagar a equipe, porque a produção já tinha sido levantada. E aí começou a minha procura do Zé do Caixão. (...) Eu tinha achado uma capa de Exu. O zelador do prédio do meu estúdio praticava macumba e esqueceu a capa. E tinha um maço de cigarros com uma cartolinha. Pô, já era a roupa do personagem.

QUEB - “Encarnação do Demônio” levou 40 anos para ser realizado. O roteiro foi reescrito pelo cineasta gaúcho Dennison Ramalho. O quanto foi mantido da trama original?

ZÉ - No original, o Zé tinha uma pequena passagem por São Paulo. Agora tudo se passa na grande metrópole. Só aí já foi uma mudança muito grande. Com a violência, a vaidade de uma cidade grande, ficou um prato muito saboroso. A superstição continua a mesma, mas sentimos que tínhamos de partir pra mais violência, porque estávamos numa cidade violenta. Queira ou não São Paulo já está chegando na altura do Rio. Em violência já estão se igualando. Então, acho que aí já foi uma modificação muito grande. Eu vejo uma outra modificação: aqui nós temos os espectros perseguindo o Zé em pleno centro da cidade. Espectros em preto e branco junto com o colorido. A outra fita era preto e branco, só o inferno colorido, e agora se inverteu. Mas a grande vingança é a seguinte: quando eu fiz o “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, nos 30 segundos finais a censura me obrigou a fazer o Zé do Caixão se converter. Ele teve de pedir a cruz quando ele tava morrendo. No original dizia “Não acredito!”, mas daí teve de dizer “Acredito!”, e de repente a cruz. Eu tinha um problema grave, eu não podia falar pra ninguém, só os amigos sabiam o que aconteceu, então o público não sabia, e era uma incoerência, o Zé afundando e dizendo: “Eu creio! A cruz padre! A Cruz!” E aqui nós demos o troco, filmamos como tinha de ser. No lugar de pedir a cruz, o Zé afunda no lago, mas levanta e pega a cruz, renegando cristo, pra crucificá-lo outra vez. Então é a resposta ao passado, a essa censura violenta dessa ditadura, tivemos algo bem violento, bem forte. Ah, também temos baratas, ratos, aranhas no próprio Zé do Caixão. Antes ele punhas nas mulheres, agora as mulheres botam as aranhas nele. Temos tudo pra deixar o público contente. E sempre tem alguém que fala, reclama sobre o lance da sexualidade. A sexualidade caminha com o terror.

QUEB - Fome, miséria, violência, injustiça. A realidade brasileira tem fornecido uma vasta matéria-prima pra gerar o horror. “Encarnação do Demônio” incorpora em sua trama elementos da violência urbana. O que é mais assustador, o medo do desconhecido, o sobrenatural ou a realidade brasileira?

ZÉ - A realidade brasileira. A realidade brasileira na verdade assusta uma determinada camada social, da média para cima, agora, da baixa à baixíssima ainda existe uma superstição, um medo danado. Você roga uma praga, o cara tem medo, todo mundo usa patuá, medalhão, mascote, pra realmente tirar "as maldição". Então, a classe baixa mesmo, tem medo do sobrenatural. De ter castigo, de ter uma perseguição de Satanás. Na minha concepção, Deus criou o homem e o homem criou o Diabo. Para os elementos com maior escolaridade, mais vividosa, o medo é o da violência, aquela em que você sai e não sabe se volta pra casa. Esse é o grande problema!


Entrevista realizada por Cristian Verardi, crítico do "Qual é a Boa" e convidado especial do DDF.

Disponível em
http://www.queb.com.br/entrevista.php?id=286
Cristian Verardi - zumbieletrico@gmail.com

Um comentário:

Di Carlo disse...

A história inicial da entrevista é ótima. A parte final minha experiência me leva a discordar do José Mojica Marins, pois, ao conviver com pessoas "da média para cima", a superstição também é muito presente. Só que se dá de outro modo, importada, por assim dizer, do esoterismo. Não está ligada ao folclore brasileiro, tão rico. Passei minha infância em Rondônia e as superstições eram reais, orientavam algumas dos meus atos, porque quase sempre elas estabeleciam meus limites.

Uma dúvida, a entrevista é com o personagem Zé do Caixão ou com a pessoa José Mojica Marins? He he he!

 
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