23 de ago de 2008

Os Vários Instantes de John Cassavetes - Parte III: "HUSBANDS"

“Desde o começo fizemos um pacto de que tentaríamos achar qualquer que fosse a verdade dentro de nós mesmos e falar sobre ela. Algumas vezes as cenas poderiam refletir coisas que não gostaríamos de descobrir: Quão idiotas somos, quão pouco temos em comum, quão irritados éramos. Sentimos que era importante... Ter a coragem de falar isso seja lá para quem fosse, mesmo que o filme não ficasse interessante... Você tem de ter a coragem de ser mau e realmente dizer o que você quer expressar.”

Mesmo para o fã mais exaltado do diretor norte-americano, Husbands incomoda. A primeira impressão que se tem é a de que alguma coisa está errada. Cassavetes anuncia a película como uma comédia sobre vida, morte e liberdade, mas o que se vê durante grande parte da projeção é a busca trágica de três amigos em superar a perda de um companheiro. Sem espaço para tantas lamentações, tentarão viver a vida, passar algumas várias horas longe das obrigações de sempre – trabalho, família – e serem eles mesmos: “Be cool, stay cool”, um diz ao outro.

O detalhe é que, no universo em que os personagens cassavetianos habitam, é difícil continuar a ser cool, e o diretor faz de tudo para deixar isso claro para o espectador: Não há espaço para planos bonitos, cuja posição da câmera engrandeça um dos amigos, crie uma atmosfera mítica, cinematográfica; também não existe uma habilidade específica, que resuma o caráter das personas (Não vemos “O piadista” ou “O jogador de poker”, por exemplo) e muito menos iremos presenciar uma construção simplista das figuras dramáticas, que facilite o entendimento. Pelo contrário. O diretor nos mostra um filme lento, sem a montagem “jazzística” de "Shadows" e "Faces", com uma câmera muitas vezes estática, agora no tripé, buscando o ângulo possível sem malabarismos, que mostra três pessoas antipáticas, falhas e amargas, difíceis de conviver para aqueles que não as conhecem tão bem.

O pormenor principal do filme – e é isso que me faz ter tanto apreço por essa obra – é que, à medida que os amigos vão tentando, ao seu estranho modo, acostumar-se com as dificuldades presentes e superá-las, passam por um caminho de auto-conhecimento, e é durante esse processo que o espectador vai adquirindo um novo olhar perante os tais maridos do titulo, como alguém que passou muito tempo em companhia dos mesmos, começando a identificar suas similaridades, disparidades e características. Ao final do longa, já entendemos várias das ações cometidas (e não exercidas) em determinados momentos da trama e percebemos que a maior dificuldade dos personagens não era o luto, mas sim como agir de forma sincera, pessoal, dentro de um meio que os via apenas como maridos fortes (assim mostram as fotos do início), detentores de obrigações que começam a parecer vazias a partir do momento em que um deles morre. Pra onde vai a vida depois dos quarenta, com mulheres, crianças, emprego, casa para alugar, dinheiro? É preciso esbravejar, ficar bêbado, libertar-se de alguma forma, agir feito uma criança para finalmente descobrir uma resposta menos complicada para tudo isso.

Não é um caminho fácil e os três atores principais (John Cassavetes, Ben Gazzara e Peter Falk) conseguem demonstrar isso perfeitamente, seja nos diálogos em meio a vômitos, festas e prostitutas, ou simplesmente correndo a esmo na rua. A facilidade com que dialogam e interagem entre si deixa tangível o nível de aproximação dos personagens – e da equipe – e tudo soa, de fato, mais verdadeiro. São pessoas normais fazendo, na maioria das vezes, coisas estranhas e estúpidas, mas nota-se, pela forma como se olham, conversam e tentam animar uns aos outros, que existe uma crença de que tudo aquilo vá servir para algo.

Um aspecto técnico interessante a ser observado é o já citado trabalho de câmera, que destoa dos filmes anteriores do diretor. Os planos estão mais sóbrios, um pouco mais distantes e, finalmente, o homem teve dinheiro suficiente para comprar um tripé bom. Isso quer dizer que ele pôde trabalhar com outras ferramentas – profundidade de campo, zoom-out – de forma mais contemplativa e menos brusca do que fazia até então. Como o ritmo era outro, ficou bem menos complicado para o primeiro assistente de fotografia trabalhar o foco. Já explico: Era típico do Cassavetes não usar marcação nenhuma para o ator, já que, para ele, o corpo precisava de liberdade para se expressar. O problema é que sem as tais marcações fica difícil para o diretor de fotografia – e seu assistente – saber onde o personagem vai parar, para que lado vai andar e onde focar. Com este estilo “mais calmo” de filmar, as coisas melhoraram para o lado da equipe técnica, que pôde pegar melhor o tom dos atores e do próprio realizador. De qualquer forma, acredito que o responsável por fazer o foco dos filmes do John deveria ganhar um Oscar por dia, pois fazer o que ele fez, usando só os olhos, uma mão e um calculo de distância, não é pra qualquer mortal.

Husbands é um filme difícil, perdendo apenas para “Love Streams” nesse quesito, mas extremamente recompensador. Acompanhar a excentricidade dos personagens – e do diretor – é uma tarefa que pode mudar a vida de muitos, por mais dolorosa que pareça. De repente, vai que é melhor esquecer a comédia e refletir um pouco sobre certos detalhes que, com outros olhos, poderiam passar invisíveis.

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