23 de set de 2008

Em Cartaz: "AINDA ORANGOTANGOS"

Algumas pessoas comentam que Porto Alegre é uma pequena cidade grande ou uma grande cidade pequena, quiçá a maior cidade de interior do mundo, muito pelo fato de encontrar pessoas conhecidas dos mais variados círculos de contato ou amizade, mas essa conotação não é depreciativa e sim espirituosa. É nesse ambiente, de uma cidade efervescente, que o diretor gaúcho Gustavo Spolidoro assina a direção de seu primeiro longa metragem de ficção (além da premiada carreira como diretor de curtas, o diretor dirigiu o documentário Gigante - Como o Inter Conquistou o Mundo, 2007, sobre a conquista do Mundial de Clubes da FIFA pelo S.C. Internacional).

Ainda Orangotangos é a adaptação de contos extraídos do livro homônimo do escritor gaúcho Paulo Scott. A trama se passa ao longo de 14 horas num dia quente do verão porto-alegrense, mostrando algumas situações de 15 personagens em um dia normal na cidade. O diferencial do filme está na sua proposta estética, um ousado (e bem sucedido) plano sequência de 81 minutos (uma tomada única, sem cortes), algo até então inédito no cinema brasileiro, feito realizado anteriormente pela bela obra-prima Arca Russa, 2002, de Alexandr Sokurov. Vale lembrar que Spolidoro já utilizara essa técnica no curta Outros.

O ambiente urbano é o meio em que os personagens transitam aleatoreamente sem maiores comprometimentos ou ações conectadas entre eles, o filme inicia mostrando a viagem de um casal de japoneses no metrô da cidade, onde ocorre algo inesperado, de uma forma “natural”, como senão tivesse ocorrido, e a cena ao som de Amigo Punk (música do grupo Graforréia Xilarmônica) executada por um pequeno conjunto de músicos que tocam talvez o “hino não-oficial de Porto Alegre”, em versão tango-gaudério. Terminada a viagem pelo metrô, os personagens começam a transitar entre a realidade e a fantasia.

No transcorrer do filme, esse amálgama entre a realidade e a fantasia pode cansar um pouco o expectador, principalmente nas cenas dentro do prédio, onde uma mulher vive um pesadelo num ambiente surreal (nesse ponto, é notada a referência ao cinema de David Lynch, onde o normal e o absurdo caminham juntos). No mesmo prédio, porém em outro apartamento, um casal chega de uma festa, prontos para outra empreitada, dessa vez voluptuosa, cometendo exageros como beber perfume e provar desodorantes.

O fato é que mesmo com essa sensação de estranhamento, o filme não perde o ritmo, pelo contrário. Em uma passagem anterior à chegada de uma personagem ao prédio, durante o trajeto percorrido na viagem de ônibus, ela e uma amiga discutem a origem da típica expressão porto-alegrense do “tri”, além de um dos pontos mais altos e cômicos do filme: a teoria do Papa Gremista. Uma ode a um dos principais aspectos de identidade do povo gaúcho (num plano geral), a rivalidade da dupla Gre-Nal. E esses encontros (e desencontros) dos personagens por meio da realidade e da fantasia fluem até o final da trama.

Analisar Ainda Orangotangos por um viés mais crítico no sentido existencial é perda de tempo, pois a proposta não é essa, e isso fica claro desde o começo do filme. O filme deve ser encarado como uma forma de entretenimento, sob o aspecto de um dia normal onde alguns habitantes e passageiros transitam por uma pequena grande cidade (ou grande cidade pequena) expondo suas ações por meio de situações cômicas e bizarras, através de seus instintos e impulsos humanos, levando a crer que estes homo sapiens ainda são orangotangos.

Um comentário:

Alessandro de Paula disse...

Assisti semana passada e acho um filme um bocado irregular. Tem momentos ótimos e outros de causar bocejos. Mas é que o que acontece quando alguém ousa se arriscar pelo plano-sequência. Vale pelos momentos realmente bons, mas não vou dar nota... eh eh eh!

 
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