5 de set de 2008

Reeducação - Parte II: "O GAROTO SELVAGEM"



A Civilização contra o Garoto Selvagem


O Garoto Selvagem
(L'Enfant Sauvage; 1970)
conta a história real de um garoto que foi encontrado em uma floresta na França em 1798. O garoto, que tinha entre 10 e 12 anos, não falava, parecia não ouvir e agia como um animal. O Filme, dirigido por François Truffaut, parece narrar a história do ponto de vista do garoto. Ele está presente em quase todas as cenas, o tempo inteiro, e o filme segue sua vida a partir do momento em que ele é encontrado na floresta.

Um médico e professor de crianças surdas-mudas consegue a guarda do garoto e decide ensiná-lo, educá-lo à maneira da nossa civilização. O filme relata muito bem a luta entre a natureza animal de todo ser humano, sempre em busca de liberdade, e a força da civilização, imposta como uma necessidade para a sobrevivência. O que tem início como um interesse antropológico (para o Dr. Jean Itard) se transforma em uma relação afetuosa e necessária para ambos.

O centro da narrativa é o processo de ensinamento do garoto. Aos poucos, o Dr. Itard tenta ensiná-lo a andar ereto, a comer com talheres, a falar, a ler, a escrever, e a ser uma pessoa com um senso de moral, saber distinguir o certo do errado, e ter uma noção de justiça. Ele erra e aprimora seus ensinamentos aos poucos, de acordo com os progressos de Victor (nome dado ao garoto selvagem). Sempre inventando novas formas de ensinar, o Dr. consegue seguir o caminho de aprendizado de todo ser humano, embora aos tropeções, errando e se adaptando às necessidades de uma criança tão especial.

A água tem um papel fundamental, como recompensa para os acertos do garoto, e como elemento simbólico. A vida dele parece sempre ligada de forma inescapável ao seu passado selvagem, e a água parece sempre lembrá-lo desse passado. A luta principal de Itard é tornar Victor um ser humano, um ser com noções humanas, com empatia, com emoções, com moral.

Victor, no entanto, não consegue se desvencilhar de seu passado, talvez por ter passado em branco pelo estágio em que uma criança deve ter acesso à linguagem e ao contato humano civilizatório. Não há como provar a possibilidade de se ensinar uma linguagem a um ser humano que passou a infância inteira vivendo como um animal, mas também não se pode provar o contrário. O que contam os registros do caso é que Victor de l'Aveyron nunca chegou a aprender realmente uma linguagem humana, conseguindo apenas dizer "lait" (leite) e "Oh Dieu" (Ah, Deus). Victor morreu quando tinha por volta de 38 anos. Mas o filme acaba muito antes disso.

A parte final da obra mostra Victor fugindo, voltando à floresta, a seu estado selvagem, mas depois retornando à casa do Dr. Itard. O que o filme tenta passar, acredito, é a vitória da civilização sobre a vida selvagem. Não me acusem de ser seguidor de Rousseau, mas eu prefiro pensar que Victor parece não conseguir mais viver como antes: o pouco de civilização que ele adquiriu impede que ele possa ser feliz como antes, nu, livre, selvagem.

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