4 de set de 2008

Entrevista: "BÉLA TARR" por Jorge Garcia

Jorge García: Como foram seus começos como realizador?
Bela Tarr: Comecei realizando um filme amador em 8 mm aos 16 anos, que era um filme sobre trabalhadores da construção ciganos. Eles escreveram uma carta ao secretário do Partido Comunista, Janos Kadar, solicitando que les deixara ir a Áustria a trabalhar porque o que ganhavam em Hungria não era suficiente para viver. A carta tinha um estilo parecido ao que os mujiks (camponeses russos) utilizavam quando se dirigiam ao Zar. Esse era o tema de e eu cometi o pecado de projetá-la em acampamentos de trabalhadores. Depois apresentei à faculdade para ingressar na carreira de filosofia, mas ao ver meus antecedentes não me permitiram ingressar, pelo que nunca fui universitario. Quis fazer outro filme, também em 8 mm, sobre uma familia pobre que ocupa um apartamento abandonado do qual são desalojados, mas não pude realizar porque primeiro me detiveram e depois desalojaram a família. Mais tarde ingressei no estudo Béla Balasz e aos 22 anos dirigi meu primero filme. A essa idade pensava que tudo o que se via em cinema era mentira e queria enfaticamente levar à tela a homens verdadeiros.

J.G.: Crê que sua obra tem relação con a de diretores húngaros de certa fama como Miklos Jancsó, Zoltan Fabri ou Ferenc Kosa?
B.T.: Quando era jovem vi bastante películas de Jancsó, que gostei muito. Com os outros diretores não tenho nenhuma relação.

J.G.: Jonathan Rosenbaum disse que seus primeiros filmes estavam influenciadas pelo cinema de John Cassavetes. É certo?
B.T.: Este é um conceito de Jonathan lamentavelmente equivocado já que vi recentemente um filme de John Cassavetes em 1985 e já tinha realizado os três filme que ele relaciona com este diretor.

J.G.: Sua versão fílmica de Macbeth respeita a obra original ou está adaptada à sociedade húngara?
B.T.: A mim sempre me agradaram as tragédias shakespeareanas e esta é uma versão condensada que respeita o texto original.

J.G.: Sua relação com o escritor László Krasznahorkai começou com Sátántangó?
B.T.: Eu li o livro de Krasznahorkai, e como me agradou muito, decidi que iria fazer um filme sobre ele, mas as coisas sucederam de outra maneira já que o estudo onde trabalhava foi clausurado por razões políticas. Isso passou em1985 e durante vários anos tive que me esquecer de Sátántangó; entre esse período dirigi Damnation, baseado em outra novela do escritor. Assim foi que tive que esperar nove anos para poder rodar Sátántangó. O que há que saber é que Krasznahorkai é um escritor muito difícil de transladar ao cinema. A única maneira de fazê-lo é conhecendo-o ao fundo, indo aos lugares onde escreveu suas obras e relacionando-se com a gente sobre a que escreveu. É quase como fazer uma investigação sociológica.

J.G.: Originalmente Sátántangó foi planeijada com essa duração?
B.T.: Tinha planificado com uma duração de seis horas mas depois na rodagem se foi estendendo.

J.G.: Desde Von Stroheim não se faziam filmes tão longos...
B.T.: Não creia, Jacques Rivette fez uma película de treze horas.

J.G.: Em toda sua obra se manifesta, como em Werckmeister Harmonies, esse estilo de poucos planos de grande extensão?
B.T.: Ao princípio da minha obra os planos dos meus filmes eram mais curtos, mas à medida que vou envelhecendo se foram alongando. Este filme há outra característica que é a intemporalidade dos acontecimentos.

J.G.: Isso também ocorre en seus outros filmes?
B.T.: A mim o tempo me preocupa muito. Meus filmes transcorrem em um amanhã, não num momento histórico determinado. Uma coisa que me chamou a atenção em Werckmeister Harmonies é a violência contida que em determinado momento estoura. A violência manifestada desse modo só aparece neste filme. Em todos os meus filmes há algum tipo de violência, mas destas características sé neste.

J.G.: Trabalha com um roteiro minucioso ou improvisando à medida que roda?
B.T.: Nunca utilizei roteiros rigorosos e me encanta improvisar situações durante a rodagem dos meus filmes. Nesta película atua Hanna Schygulla, uma atriz com um estilo interpretativo muito particular.

J.G.: Lhe fue fácil trabalhar com ela?
B.T.: Foi fácil porque nós quando filmamos não estamos trabalhando e sim, tratamos de viver, o ator diante da câmera e nós detrás. O que tratamos de fazer é mostrar a vida sobre a tela. Neste filme é muito importante a utilização da música... A música é para mim tão importante que sempre a trabalho antes da rodagem. A película realmente começa quando o compositor entra ao estudio e decidimos que temas vamos utilizar no filme. Em Werckmeister Harmonies notei certa influência dos pintores flamencos na composição visual. A mim me agrada muito Brueghel. Reconheço mais influências em Brueghel que em outros cineastas.

J.G.: Seu reconhecimento como diretor foi primeiro em Hungria ou fora do seu país?
B.T.: Fora de meu país, já que ganhei com minha primeira película o Grande Prêmio do Festival de Mannheim e em Hungria não era conhecido. Ademais, todas meus filmes foram projetados no exterior antes que em meu país.

J.G.: Lhe agrada o cinema de Angelopoulos?
B.T.: O de relacionar-me com Angelopoulos é outro erro, já que alguns de seus filmes só as conheci faz pouco tempo. Agradaram-me, mas não creio que tenham nada que ver comigo.

J.G.: Finalmente, a que diretores admira?
B.T.: Creia-me que faz muito tempo que não vou ao cinema.


Entrevista realizada por Jorge Garcia para o site http://elamante.com.ar/ em 18/05/2001.

2 comentários:

monica ash disse...

paixão instantanea por blog existe, acabei de descobrir e sofro desse mal!

roberto vagner disse...

bom e importante saber disso.

 
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