4 de nov de 2008

Trilhas Sonoras: "LARANJA MECÂNICA" por Miguel Saial

O primeiro "filme-rock"

Censurado pelos elitistas ingleses, difamado pelos puritanos americanos ou intelectualizado pelos sensíveis franceses (a ponto de terem criado um cartaz para o filme substancialmente diferente do original), o certo é que nos anos setenta os adolescentes iam ao cinema ver Laranja Mecânica como quem ia a um concerto. A magistral trilha sonora que conduz o filme ou o fato de se ter dito que o protagonista, Alex, tinha algo de Mick Jagger são a base para mais uma ramificação do gigantesco culto à volta do filme.

Podem dizer que alguns temas de Celine Dion, Aerosmith ou Coolio “fizeram” alguns filmezecos dos anos 90, mas se quisermos falar, mesmo, de trilhas sonoras, Laranja Mecânica é, mais uma vez, referência obrigatória. Talvez pela presença da música clássica na história original (o autor do livro afirmou que, com isso, pretendia representar a disfunção/imperfeição da sociedade: um delinquente ou uma mente perversa como a de Alex não impossibilita um gosto refinado em áreas consideradas fora do alcance dos marginais), a trilha sonora sobrepõe-se ao habitual conceito de ambiente ou interligação da música num filme, tornando-se um componente tão importante como a imagem, a história ou os diálogos. A conjugação quase perfeita da linguagem audiovisual.

A partitura da produção é da responsabilidade do compositor Walter Carlos (hoje Wendy Carlos, pois submeteu-se a uma operação de mudança de sexo), que compôs o tema principal do filme e conjugou Beethoven com Gene Kelly (Singing in the Rain) ou uma maluquice da época, "I Want to Marry a Lighthouse Keeper", de Erica Eigen.

Cartaz francês de Laranja Mecânica.

Por curiosidade, será importante referir que, quando foi equacionada a primeira tentativa de passagem de Laranja Mecânica para o cinema, o bando de Alex seria interpretado pelos Rolling Stones, sendo o protagonista... Mick Jagger. Isto vem no seguimento do que poderemos considerar mais um capítulo da importância de Laranja Mecânica na cultura mundial. Talvez nem o autor do livro tenha imaginado quando o escreveu e mesmo depois de ter sido publicado, o alcance que este teria. Anthony Burgess ficou estupefato com o impacto da versão cinematográfica de Kubrick em relação ao seu livro, confessando-se mesmo algo enciumado. A morte de Kubrick motivou prestigiadas publicações dos mais variados quadrantes a dedicar várias páginas e artigos ao genial realizador. Mesmo revistas mais voltadas para a cena musical o fizeram. O destaque vai para o número de páginas que os franceses da Les Inrockuptibles dedicaram a Kubrick. Mas, ainda na área musical e, particularmente, no que se refere a Laranja Mecânica, o New Musical Express publicou um interessante artigo intitulado “A Clockwork Orange in Music”, revelando um número surpreendente de bandas cujo nome, estética e atitude se inspiraram no filme de Kubrick. O melhor exemplo são os ingleses do Campag Velocet. O vocalista, Peter Voss, acha que o filme ainda é "o melhor alguma vez feito", e até prefere que este continue proibido na sua terra natal, para manter o culto das coisas que "são melhores enquanto continuam proibidas".

Oriunda da clubing scene, esta banda é bastante considerada no meio musical pelo som que não se insere em nenhum movimento (há quem o descreva como “dançante, obscuro, codificado e comovente”) e pela postura anti-comercial que adotaram. Já tiveram dois semissucessos com os singles “Drencrom Velocet Synthemesc” e “Sauntry Sly Chic”, e a temática das canções são, obviamente, gritos de revolta contra regras e condicionamentos sociais e políticos, não fossem eles inspirados no filme de Kubrick.

Além destas referências diretas, encontramos alusões a Laranja Mecânica por todo o lado, provando que não se trata de um culto restrito, seja no merchandising do Sigue Sigue Sputnik (anos 80), ou na fase Stardust (anos 70) do sempre em voga David Bowie, que em alguns concertos aparecia fantasiado de Alex, algo que não foi de certeza pontual, pois há mesmo músicas em que o termo droog aparece. Mais recentemente, o Blur fez, no video de "The Universal" (do álbum The Great Escape, de 95), uma paródia (ou homenagem?) ao filme. No clipe, os elementos da banda estão vestidos de branco e tocam num local bastante parecido com o bar-leiteria Korova. Damon e os seus droogies fazem um autêntico remake de algumas cenas do filme, com o toque irônico a que a banda londrina já nos habituou. Em Portugal, o ex-Delfim Miguel Angelo também tem, já há algum tempo, o hábito de utilizar alguns signos claramente identificáveis com o filme: o chapéu e as falsas pestanas (no seu caso, pintadas) são um óbvio decalque do visual de Alex.

Mas não posso deixar de fazer um comentário em nível pessoal (que até acaba por não o ser). É que, às vezes, parece-me fixação minha, pois pareço “ver” referências ao filme em tudo quanto é lugar. Aconteceu, por exemplo, quando a música dos franceses Air começou a ser conhecida. Além das claras afinidades da componente eletrônica, as capas do álbum e os videoclipes pareciam-me claras abordagens ao estilo técnico/estético que Kubrick utilizou para filmar Laranja Mecânica, mas... acabei por concluir que era apenas fixação minha e nunca mais pensei nisso. Eis que, algum tempo mais tarde, leio um artigo da revista Page, com o sugestivo título “A Cor do Som”. Falava da relação entre o aspecto gráfico, a “embalagem” do disco e o estilo musical. Já no último parágrafo do extenso artigo, leio algo que me desperta bastante a atenção: “(...) as melodias easy listening, com misturas analógicas e digitais, de grupos como Air, Stereolab ou Curd Duca são aproveitados por criativos que lhes pretendem conferir uma onda nostálgica e talvez um pouco conservadora. Começamos logo a pensar no Yellow Submarine e nos sofás redondos do filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick (...)”.

Reparem que o autor do artigo não escreveu apenas “o filme Laranja Mecânica”. Escreveu “Laranja Mecânica de Stanley Kubrick”. Talvez seja mesmo fixação minha.


Texto de Miguel Saial em http://www.tifonet.it/free/ultra/LM7.htm, sem data. Adaptado por Alessandro de Paula.

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