7 de nov de 2008

Herzog & Kinski: "AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES"

O plano inicial do filme em uma tomada panorâmica evidencia a magnitude da natureza sobre o homem que almeja desbravá-la. Essa relação homem-natureza é transposta para o cinema por um dos realizadores mais radicais e excêntricos do cinema autoral: o alemão Werner Herzog.

Aguirre, a Cólera dos Deuses (Aguirre, der Zorn Gottes, 1972) é o primeiro e quiçá, o melhor resultado da conturbada e exitosa parceria entre Herzog e o ator Klaus Kinski. A trama é baseada em fatos históricos ocorridos no século XVI, inspirada nas expedições enviadas pelo conquistador espanhol Gonzalo Pizarro em busca de El Dorado, a cidade de ouro, ainda sob o espírito da reconquista (herança ainda medieval das monarquias ibéricas). Egocentrismo, ganância, obsessão e submissão são os aspectos humanos em confronto com a natureza primitiva e desconhecida, paulatinamente permeados pela insanidade do personagem Aguirre (Kinski).

O narrador da expedição é Frei Carvajal, cujo diário foi fonte primária para o embasamento do filme. Don Pedro Ursua (Ruy Guerra) é o comandante da expedição, que configura a hierarquia dos colonizadores em suas conquistas na América Espanhola, um representante da coroa espanhola, nobreza, exército, igreja e os escravos indígenas. E essa exploração colonial sobre o indígena, forçando-o ao trabalho compulsório, remete também à imposição dos costumes europeus aos índios, causando, dessa forma, uma aculturação.

No embate das ações entre homem e natureza, as ambições e efeitos emocionais e mentais vêm à tona quando Aguirre boicota Ursua e, num golpe de tomada da liderança da expedição, causa a degradação estrutural do comboio. A natureza e as condições adversas impostas por ela ganham força, assim como a degradação mental de Aguirre e a submissão de seus comandados. Aguirre, no alto da loucura, rompe com o Estado Espanhol e auto proclama-se o líder e destinado a encontrar o El Dorado.

O mito do El Dorado é uma criação indígena como forma de resistência à exploração imposta pelos conquistadores europeus que, por sua vez, continuam com a mentalidade medieval de conquista e imposição de sua cultura e fé. Os sons da floresta na Amazônia Peruana enfatizam o quanto a natureza ainda reservaria aos europeus: dificuldades extremas, da alimentação a um rumo, aliadas à insanidade de seu líder, Aguirre. Essa relação extrema entre o homem e natureza é vital no cinema de Herzog, o homem é consumido perante o gigantismo dessa natureza e por suas peripécias ambiciosas.

Em meio à degradação mental de Aguirre, a expedição segue cada vez mais desfalcada, o europeu sucumbe ao estranhamento e às deserções dos escravos indígenas, uma balsa de madeira é construída com o intuito de conduzir os desbravadores Rio Amazonas abaixo. E quando parece que não há mais perspectiva de um contato com a humanidade, eis que surge um princípio de civilização indígena. Uma civilização que, assim como a natureza e a insanidade do comandante da expedição, é extrema: o canibalismo. Os desbravadores demonstram fome, medo, aflição, com exceção de Aguirre e sua cólera contra o improvável destino almejado.

Um dos últimos lapsos de contato com indígenas da região acontece quando encontram uma tribo desconhecida que, por sua vez, desconhece o valor da fé cristã imposta pelo Frei Carvajal. No malogro dessa empreitada, cada um dos ocupantes da balsa sucumbe à natureza local ou aos ataques sutis dos índios. Exceto Aguirre que, quase imponente e já mergulhado no ápice de sua insanidade, é consumido por sua cobiça e loucura de enfrentar a natureza primitiva amazônica.

As relações extremas não ficaram somente no campo da ficção onde a expedição foi consumida pela cólera de Aguirre e a magnitude da natureza. Kinski encarnou o personagem em muitos momentos nas locações, chegou a abandonar as filmagens e brigar inúmeras vezes com Herzog, fato que assustou os índios que, por sua vez, ofereceram-se para matar o ator. Tal egocentrismo de ambas as partes (ator-diretor) rendeu um filme memorável sob os aspectos humano e ambientail, retratados com maestria pela lente da câmera do diretor de fotografia Thomas Mauch.

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