11 de dez. de 2008

"MAL DOS TRÓPICOS" de Apichatpong Weerasethakul

Muito se fala em autorismo, rupturas de paradigmas e até mesmo “revolução” no cinema contemporâneo. No entanto, poucos são os autores que conseguem exprimir com ousadia e virtuosidade, em seus filmes, alguns desses conceitos em voga nas discussões cinéfilas. Um dos principais expoentes desse viés autoral é o tailandês Apichatpong Weerasethakul, ou simplesmente - “Joe” - como é chamado pela crítica internacional. Conhecido através do Festival de Cannes, ganhou notoriedade e rasgados elogios da crítica, além de ser laureado com o Prêmio do Júri em 2004, por um dos filmes mais instigantes da década, Mal dos Trópicos (Sud Pralad ou Tropical Malady, Tailândia/Alemanha/Itália, 2004), desbancando outras produções de repercussão no festival, entre elas o sul-coreano Oldboy de Chan-Wook Park.

Os europeus, por sinal, não só admiram o cinema asiático e oriental por suas estéticas cinematográficas, mas também pelo viés exótico de algumas produções - e esse exotismo volta e meia tem seus momentos no grandes festivais do velho continente. Porém, não cabe aqui discutir sobre o eurocentrismo perante a arte produzida em uma escala global, nem mesmo tecer críticas à postura de admiração pelo que não vivenciam. Iremos logo ao que realmente interessa.

Sud Pralat tem um significado literalmente bestial e, através de uma referência à obra A Besta Selvagem, de Ton Nakajima, Mal dos Trópicos inicia com o seguinte trecho, que desde já deixa o espectador ansioso pelo que virá a ser mostrado na tela:

“Todos nós somos feras selvagens por natureza. Nosso dever como seres humanos é tornarmos adestradores que mantêm seus animais sob controle, até os ensinarem a cumprir tarefas distantes da bestialidade.”
O filme começa com uma estória simples, sem maiores identificações e linearidade entre os personagens, que aparecem aos poucos na trama. Em princípio, há um romance entre um camponês analfabeto e um soldado do exército tailandês. Notam-se as disparidades entre as culturas ocidentais e orientais por intermédio das concepções e aceitações do homossexualismo.

A relação entre o soldado e o camponês é de ingênua e simples sensibilidade, que se dá por meio de toques sutis (contato físico) e uma ousada (e exitosa) cena de intimidade, onde um amante lambe de forma hedonista os dedos de seu companheiro, isso tudo mostrado de uma forma singela e sem provocar maniqueísmos no espectador.

Contudo, a trama ganha contornos de aspectos que fogem da então simplicidade do filme. A estória de amor entre os personagens é contemplada por uma aura mística e metafísica, que será apresentada no meio do filme. Meio, diga-se de passagem, que por sua vez é interrompido quando a tela escurece e nada é apresentado, causando a sensação de que ali seria o final da estória. A partir dessa montagem, surge o segundo momento do filme. Estória distinta, que ganha por sua narrativa elíptica, quase ausente de diálogos, deixando veemente a virtuosidade do autor. Por sinal, nos créditos do filme aparece o termo “concebido” em vez do usual “dirigido”, até pelo fato do próprio diretor também ser o roteirista da fita.

Tal virtuosismo é explicito nos belos e estilosos enquadramentos e longos planos de fotografia (a direção de fotografia é assinada por três profissionais, Jarin Pengpanitch, Vichit Tanapanitch e Jean-Louis Vialard). Nesses planos, o cenário tropical enfatiza um dos pontos-chave para a compreensão do filme: o misticismo oriental, através da representação do imaginário e, depois, no plano real das lendas locais e da magnitude da natureza sobre o homem.

Os personagens da primeira etapa da trama voltam a ter destaque numa segunda etapa. Agora sob um ambiente selvagem, o soldado ouve a notícia sobre uma besta-fera que devorou vacas na região e, a partir desse fato, sai à caça de um misterioso homem camuflado que encontra na floresta e só aparece durante o dia. Somado a isso, faz uma analogia entre um animal místico e sagrado para os asiáticos: o tigre, que fora encarnado por um grande guerreiro xamã que captura os espíritos e se apodera de suas almas. Temos então o conflito entre a relação de afetividade e a possessão entre os personagens sob o apoderamento da alma do ser almejado. Mais que um simples desejo, há uma possessão.

O filme não é fácil de ser classificado em um gênero especifico, entretanto, na sua segunda parte, o “fantástico” pode ser o termo que melhor se adapta a esse conjunto de virtudes que constroem a trama. Espíritos de animais transitam entre o mundo real e o sobrenatural, animais que proferem diálogos enigmáticos, elipses que ressaltam o tom metafísico, transformando-o no fio condutor da trama, diálogos quase ausentes e uma bela direção de fotografia que atinge o clímax da perfeição na cena em que eclode o conflito final entre os personagens da trama. A câmera se afasta no breu da floresta e, sob a luz do luar e os sons da floresta, dá-se o desfecho do filme, que resulta em um das mais belas cenas dos últimos anos.

Todos esses elementos fazem de Mal dos Trópicos um dos resultados mais expressivos da década no cinema atual, evidenciando ainda mais o talento e o autorismo de “Joe”, ou melhor, Apichatpong Weerasethakul.


Mal dos Trópicos - Apichatpong Weerasethakul - Tailândia/Alemanha/Itália - 2004

Um comentário:

Anônimo disse...

Dificil de encontrar esse filme..

 
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