19 de out de 2009

"O ANTICRISTO" de Lars von Trier

Por Hudson Nogueira

Ao analisar uma obra cinematográfica, um crítico deve saber lidar com algumas premissas. Como, por exemplo, procurar manter um certo distanciamento do objeto em análise - a fim de não cair em anacronismo, seja por admiração pelo autor ou aversão ao mesmo. Sobre esse preceito, não me considero na condição de crítico. Até por falta de experiência e produção acerca do tema, procuro evidenciar minhas impressões sobre filmes e cineastas de forma simples, mas sem perder o olhar crítico sobre determinado filme ou diretor.

Ao me deparar com o aguardado último trabalho do dinamarquês Lars von Trier, O Anticristo (The Antichrist, 2009), tentei, até onde pude, ingressar na proposta do diretor – uma incursão no gênero de horror. Procurei levar em conta que o filme foi realizado ainda sob longa depressão vivida por Trier, sendo o principal reflexo presente em O Anticristo. A narrativa constituída por Prólogo, três capítulos e Epílogo (método já utilizado em outros filmes do diretor) procura emanar a angústia de um casal traumatizado pela morte do filho. Ele e Ela (pois ambos sequer pronunciam seus nome na trama), o casal formado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, vivem numa linha tênue do extremo à depressão.

O sexo é o ponto de equilíbrio entre o casal. Já no primeiro plano, o do Prólogo, um ato sexual em preto e branco e câmera lenta contrasta com a cena da morte da criança, utilizando a mesma técnica (câmera na mão) e demostrando uma sincronia entre as distintas situações, dos extremos (a penetração explícita dele e o orgasmo dela) à sutileza, neste caso, a ingênua queda da criança pela janela. Aí começa o grande problema de O Anticristo: a pretensão. Um jogo de lucidez e depressão toma conta do filme sem mostrar efetivamente onde quer chegar, se é que a intenção de Trier era chegar a algum lugar.

Outra problemática é a abordagem fantástica e extrema que O Anticristo pretende atingir. Sustos previsíveis, como na cena onde Ele enxerga a raposa que ladra com voz satânica. Ou quando encontra o corvo no interior da árvore. Mutilações e histeria proporcionados através de loucura e sexo extremo, algo que David Cronenberg retratou minuciosamente em Crash – Estranhos Prazeres (1996). Referências do cinema fantástico como Cronenberg, Dario Argento e John Carpenter poderiam ser usadas por Lars von Trier para dar maior vivacidade ao horror que se omite na trama. É claro que não se deve cobrar do diretor um filme de horror à altura dos especialistas citados acima, mas sua abordagem sobre o gênero não fez jus à expectativa criada em torno de seu O Anticristo.

Ao fim e ao cabo, o filme traz consigo uma vaga proposta sobre o cinema de horror, caindo num emaranhado de conflitos psicológicos e atos viscerais, como quando Ela o masturba até que Ele, insconsciente, ejacule sangue. Ou a cena de automutilação, quando Ela corta seu clitóris. Enquanto Trier estiver em depressão, continuará refletindo em seus filmes ideias que estão bem abaixo do que ele já provou saber expor, como em Europa (1991).

Ao escrever um pequeno texto em primeira pessoa (algo que raramente faço) e aqui explicar minhas reservas com Lars von Trier, confesso que tentei ingressar no universo do diretor e nas suas intenções, calcado nas premissas que citei no início do texto, mas não foi desta vez que obtive êxito. Até porque, é bom salientar algo que o próprio diretor sentenciou após ser indagado sobre sua estética cinematográfica e personalidade polêmica: “não me levem à sério, eu apenas faço filmes sem a preocupação do que eles irão representar”.

15 comentários:

Andre Blak disse...

Apesar de tudo negativo que tenho lido, é Lars Von Trier e isso por si só faz de ANTICRISTO um dever cinéfilo. Vou conferir amanhã!

Di Carlo disse...

O blog voltou! Bom texto!

Sil Capistrano disse...

Achei o filme encantador, mas difícil de entender. Tem de haver Visões diferentes, que nem sempre as pessoas tem.

Marcos disse...

Olá Hudson,

Sou leitor do Depois Daquele Filme e sou cinéfilo de carteirinha. Eu estou mandando esse email porque estou trabalhando numa empresa que desenvolveu um portal sobre cinema - o Cinema Total (www.cinematotal.com). Um dos atrativos do site é que você cria uma página dentro do site, podendo escrever textos de blog e críticas de filmes. Então, gostaria de sugerir que vocês também passassem a publicar seus textos no Cinema Total - assim vocês também atingem o público que acessa o Cinema Total e não conhece o Depois Daquele Filme.

Se vocês gostarem do site, também peço que coloquem um link para ele na seção "SITES" do Depois Daquele Filme.

Se vocêe quiserem, me mandem um email quando criarem sua conta que eu verifico se está tudo ok.

Um abraço,
Marcos

leonardo disse...

sustos previsíveis? o gênero ´´horror´´ não significa clichês de sustos do cinema não.
o filme é sim classificado como horror por fazer um terrorismo psicológico, e pelas sensaçôes que causa a quem assiste. e pra mim se encaixa muito mais no gênero do que muito filme dito como horror.

marcela disse...

Olá Hudson, acho que os bons críticos são os que não se esquecem de que são pessoas com emoções expressando suas opiniões. Muito pertinente seu comentário. Compartilho com você, também, a incerteza sobre onde Lars von Trier estava querendo chegar (ou nos levar). Não acredito que esse filme seja uma simples história de terror ou que possa ser visto como um enredo em que literalmente um casal quase se mata em uma cabana - penso que haja muitas metáforas que estão ali e que eu não compreendi completamente. Acredito que são as críticas que nos ajudarão a dar um sentido para esse filme. abraços

marcelo grejio cajui disse...

Blog legal.
informações atuais. gostei da forma como você expôs sua crítica mostrando impessoalidade.

volto mais vezes.

abraço.

Raphael Café disse...

Olá Húdson, tudo bem? Adorei o teu blog de cinema!

Sou colaborador do site cinedica.com.br e gostaríamos de comentar que no dia 17 de janeiro, as 22 horas, iremos agitar um bate papo em nosso site em função da cerimônia do globo de ouro e gostaríamos muito de contar com a presença de vocês e de seus usuários.
Nosso site é feito por amantes e para amantes da sétima arte. Somos contra a pirataria e amamos falar sobre cinema.
Dia 17 é um dia especial pois a cerimônia será mostrada ao vivo via canal TNT e não existe um lugar onde quem curte essa premiação possa debater via mensagens, os acontecimentos, ao vivo, que se seguem.
Gostaríamos de saber se você pode nos ajudar com a divulgação desta nossa iniciativa.
Nós rodamos a internet para encontrar sites interessantes e que fazem parte de nossa filosofia.
Você pode conhecer um pouco desta idéia pelo link: http://www.cinedica.com.br/filmes/cinefest.php
Desde já agradecemos e aguardamos uma resposta.

Atenciosamente, equipe CineDica.

rp@cinedica.com.br
raphaelcamacho@gmail.com

pseudo-autor disse...

Não é o melhor do Trier, mas a atuação da Charlotte Gainsbourg é fantástica. Ontem passou Dogville no Telecine Cult, esse sim um filme impecável. Procure!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

punkyta disse...

adorei

O FALCÃO MALTÊS disse...

Parceiro, belo trabalho! Bravo!
Como parceiro do cinema, convido-o a navegar no blog O Falcão Maltês. Com ele, procuro o deleite cinematográfico.
Abraços,
Antonio Nahud Júnior

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Lucas Jerzy Portela disse...

Também havia escrito sobre o lamentável Anti-Cristo de Trier aqui -> http://ultimobaile.com/?p=1871

Trier, que já foi de meus cineastas favoritos com Europa e Waves, entrou na lista do des-cinema que jamais assisto - lado a lado com o Re-Quentado A-Tarantado (Quentin Tarantino).

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Texto bacana. Gostei.
Cumprimentos cinéfilos.

O Falcão Maltês

Kat disse...

Eh simplesmente magnifico, denso e tenso!

Kat disse...

Eh simplesmente magnifico, denso e tenso!

 
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