O filme Corpo, dirigido por Rossana Foglia e Rubens Rewald, reflete de maneira interessante sobre o lugar da história e da memória. O filme tem como personagens principais dois médicos legistas e grande parte do enredo se passa dentro do IML cheio de cadáveres. O trabalho do legista – como reforça insistentemente a legista-chefe – é descobrir de que causa (médica) aquele corpo morreu. E só. Contra essa determinação, o personagem Artur (Leonardo Medeiros) especula sobre a condição da causa mortis: sobre o socorro que poderia ter salvo aquele corpo, da bala que poderia ter sido evitada, da bebida excessiva para descontar o desgosto da vida. A perseguição pela situação que leva a morte de um corpo é tanta que, mesmo com os vivos, Artur continua fazendo seus diagnósticos imaginários.A imaginação e a especulação estão presentes de tal maneira no filme, que poderíamos dizer que praticamente toda a narrativa se trata da imaginação e das especulações do médico legista. Pouco de fato acontece no filme, mas as histórias sugeridas são muitas. E esse trabalho imaginativo é o que enriquece o enredo: o que verdadeiramente acontece não é tão significativo quanto o exercício de pensar, de procurar, criando respostas e situações. O importante é que se olhe criticamente para cada corpo que chega à sua mesa.
O ponto central do enredo é uma grande quantidade de ossadas que chega ao IML: todos ossos sem identificação, possivelmente despachados em uma vala comum para que não fossem nunca achados nem identificados. O trabalho dos legistas será, dali para frente, tentar identificar esses ossos e responder pelos anseios dos parentes de desaparecidos políticos.
Esses ossos são de desaparecidos políticos torturados e mortos pela ditadura militar? Será possível identificar todas as ossadas? Junto com esse material, chega o corpo de uma mulher; o corpo que dará título ao filme e sobre o qual Artur irá ansiosamente se debruçar.
O mistério para o personagem de Leonardo Medeiros é se esse corpo é mais um dos possíveis torturados e assassinados na ditadura, que milagrosamente teria se conservado por décadas. O foco da imaginação de Artur e do filme está sobre isso e as possibilidades de como ela teria morrido.
“Eles já estão mortos e não podemos fazer nada por eles”, diz a legista-chefe Lara (Chris Couto). Reconstituir a vida daquele corpo é o que mais perturba o legista e não o fato dela estar morta. Para a história, interessa-nos justamente isso: o que fazer com nossos mortos? Esquecê-los e jogá-los na vala dos “não reclamados” ou narrar sua vida, o que se passou? Relembrá-los?
A história fala dos mortos e não para tentar revivê-los, mas para dar a eles um lugar entre os vivos. Estamos sempre lembrando do passado, dos mortos, portanto. E é a isso que devemos nos dedicar; nas palavras de Jeanne Marie Gagnebin: “Enquanto Homero escrevia para cantar a glória e o nome dos heróis e Heródoto, para não esquecer os grandes feitos deles, o historiador atual se vê confrontado com uma tarefa também essencial, mas sem glória: ele precisa transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados.”
Neste sentido, o personagem de Leonardo Medeiros persegue a história daquele corpo, com a ânsia de um historiador que, perseguindo, narra e relembra o passado que não deve ser esquecido. Não podemos ensacar nosso passado em sacos sem nome e jogá-los na vala comum, dar memória àquele corpo não é um simples delírio; é uma “tarefa altamente política: lutar contra o esquecimento e a denegação é também lutar contra a repetição do horror. (...) as palavras do historiador ajudam a enterrar os mortos do passado e a cavar um túmulo para aqueles que dele foram privados. Trabalho de luto que deve nos ajudar, a nós, os vivos, a lembrar dos mortos para melhor viver hoje. Assim, a preocupação com a verdade do passado se completa na exigência de um presente que, também, possa ser verdadeiro.[1]”
[1] Trechos tirados do texto Verdade e Memória do Passado. Em: Lembrar, escrever, esquecer. SP: Ed. 34, 2006.
