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16 de dez. de 2008

O CINEMA DO GÊNIO JODOROWSKY

A primeira lição pra quem pretende conhecer a filmografia do chileno Alejandro Jodorowsky é ver La Cravate. Um curta de 1957 sobre uma loja de cabeças, escrito em parceria com Jean Cocteau e baseado num conto de Thomas Mann. Teatro filmado nos moldes do Movimento Pânico, grupo de arte criado na França por Jodorowsky, Fernando Arrabal e Roland Topor que transcendia ainda mais os conceitos do surrealismo. Como diria Jodorowsky, o extremo do “terror, humor e simultaneidade”.

O choque, a repulsa e a beleza plástica explodem na cara do espectador. A primeira impressão logo no início é de sedução. Cores e imagens tão perfeitas que parecem ter sido feitas ontem. Mas na verdade foram filmadas há 50 anos! O andamento do filme se dá como que orquestrado por música e sons. Os cenários são diferentes de tudo que já vimos. Passeia entre o ousado, o pós-moderno e o grotesco. A obsessão por mutilação de corpos. O misticismo e a idolatria. Um nome a ser comparado com o cinema de Buñuel. Impressões que temos em La Cravate e se repetem por toda a filmografia de Jodorowsky.

No seu primeiro longa, Fando y Lis (1968), abriu mão das cores fortes do curta para apresentar um árido P&B. Num texto feito em parceria com Arrabal, deixa o teatro de lado. Apenas externas e com figuração popular. Uma dimensão mais épica que se repetiu em todos os filmes posteriores. Além de Buñuel, uma influência direta do cinema de Glauber Rocha e Pasolini. Neo-realismo e Fellini também estão presentes. Uma saga surrealista de um casal, ela mutilada, no meio de uma peregrinação desértica pelos seus desejos. Criações de cena impressionantes e diálogos líricos belíssimos. Mas também repleto de personagens grotescos e situações bizarras.

Em El Topo (1970), retoma todos os elementos de Fando y Lis, acrescentando cores e sangue. Um western alegórico sobre um pistoleiro que carrega seu pequeno filho nu na garupa do cavalo. Um matador capaz de abandonar a cria e peregrinar pelo deserto enfrentando inimigos sagrados em troca do martírio. Um homem tentando se provar o escolhido. Crítica religiosa repleta de violência, mutilados e subversão. Tudo é simultaneamente repulsivo e sedutor. Toques de Peckinpah e Leone no universo surrealista. Uma espécie de Deus e o Diabo na Terra do Sol mexicano. Tão maravilhoso quanto.

Dizem que El Topo ficou em cartaz no circuito alternativo de Manhattan por mais de um ano. Um dia saíram da sessão estupefatos John Lennon e Yoko Ono. Maravilhados com o que viram, ligaram para Jodorowsky e se propuseram a bancar o filme seguinte. The Holy Mountain (1973) é mais uma fábula fantástica, surrealista, mística, ultraviolenta e mutiladora. Fala de um bruxo que convoca um grupo de burgueses a abrirem mão de seus bens em troca da resposta para a existência e a imortalidade. Os cenários, cores e figurações ganham destaque especial. Cenas além de qualquer descrição. Só vendo para entender. Torres, salões, indústrias e montanhas, tudo é grandioso e incrivelmente diferente de tudo que já vimos. Quer ter uma idéia de onde pode chegar a cabeça de Jodorowsky? Numa passeata, a milícia descamisada abre fogo contra manifestantes. Os espirros de catchup típicos se intercalam com pétalas de rosa, frutas e vegetais no lugar do sangue e vísceras. Pra chorar de emoção. O que causa controvérsias nesse filme é o final, para muitos, preguiçoso e fanfarrão. Pra mim, bastou. Um dos maiores filmes que já vi.

Em 1989, ainda lançou Santa Sangre. Quase uma versão gótica de Psicose. Recheada de elementos do universo de Jodorowsky, conta a história de um rapaz que empresta seus braços à mãe dominadora e mutilada. Literalmente um circo do bizarro, com uma galeria de personagens estranhos, repulsivos e sensuais. O clima gótico faz com que o filme seja classificado por aí como um terror. É também o filme mais sangrento de Jodorowsky. Mas é o único com um enredo um pouco mais linear. Ao longo da projeção há o tradicional porre de imagens grandiosas, coloridas e estranhas, mas, ao contrário dos filmes anteriores, é narrado com começo, meio e fim. Uma fábula circense do horror.

No ano seguinte, a repercussão internacional de Santa Sangre deu fôlego para que Jodorowsky emendasse outro longa-metragem. The Rainbow Thief é o primeiro filme com elenco célebre. Omar Shariff e Peter O´Toole se embrenham em túneis submersos, esgotos e becos em busca de um pote de ouro que há no final do arco-íris. Um filme arrastado e monótono que vale, como sempre, pela direção de arte e cenografia. Cenas lindas e nada mais. Um filme menor, mas não ruim.

Ruim como Tusk, por exemplo. Filme que fez em 1980 com recursos escassos e que parece coisa de amador. Narra a amizade de uma inglesinha colonizadora com um elefante indiano. As propostas básicas de Jodorowsky estão lá, principalmente o misticismo, mas a vontade de documentar o cotidiano da pobreza indiana fala mais alto. Não se saiu bem como documentário. Parece uma piada de mau gosto. Deixa a gente com um sentimento de "como é que Jodorowsky pôde fazer isso?".

Jodorowsky fez poucos filmes. Também, pudera! Quantas pessoas no mundo podem se dizer diretor de cinema e teatro, ator, produtor, compositor, escritor, teatrólogo, filósofo, humorista, cartunista e, completando, tarólogo? Enfim, com tantos ofícios, é mais do que justo considerá-lo um gênio do cinema por seus 7 filmes, sendo 5 deles obras-primas celebradas e premiadas. Não é todo cineasta que afirma por aí que “o cinema deve ter a força de uma pílula de LSD”.

Curioso é saber que ele comprou os direitos de filmagem da novela Duna em 1977. Tentou durante anos realizar o filme, mas não teve êxito. Acabou repassando os direitos a David Lynch. Sobre a qualidade sempre questionada do filme homônimo, Jodorowsky concorda que é “uma bosta”. Mas diz que se não fosse Lynch poderia ser pior ainda. Em resumo, a proximidade não é coincidência. Além da óbvia influência estética, David Lynch é também produtor de King Shot, primeiro filme de Jodorowsky em 19 anos, com Asia Argento, Marilyn Manson e Nick Nolte no elenco. Aguardamos ansiosos.

14 de nov. de 2008

Herzog & Kinski: Woyzeck

Os créditos de Woyzeck abrem o filme da forma mais direta possível. Herzog mantém a câmera estática diante de um abobalhado e subserviente Kinski. Os únicos movimentos do ator são de continência e preparação para marcha. Em poucos minutos, não nos resta dúvida. Herzog mais uma vez exercerá sua tirania generalesca diante do seu soldado raso cobaia favorito, Klaus Kinski.

O duelo cineasta x protagonista de Woyzeck se repete como em Aguirre, Nosferatu, Fitzcarraldo e Cobra Verde. Herzog mais uma vez explora um texto sobre a influência do natural e do social moldando e perturbando a mentalidade humana. Estamos diante de uma espécie de filme que complementa a obra-prima máxima de Herzog, O Enigma de Kaspar Hauser. Hauser é um personagem selvagem que busca moldar-se ao ambiente socialmente correto, enquanto o pobre Woyzeck é o socialmente enquadrado que se torna selvagem pela influência do mesmo meio.

Baseado na célebre peça de Georg Büchner (já magistralmente encenada no Brasil, com Matheus Nachtergaele no papel de Kinski), Woyzeck é um soldado do exército germânico que beira a patetice. O reflexo direto da opressão oculta do sistema de regras, convenções e morais. Tão oprimido que mal consegue enxergar sua insignificância. É alegre, otimista, patriota e extremamente dedicado à mulher e ao filho bebê.

No entanto, a sombra da dúvida de uma possível traição traz à tona o que os filósofos puristas chamariam de thaumasein. A consciência de se perceber vivo e capaz de reagir e analisar o ambiente que o cerca. Os rumores e olhares de escárnio da população moldam o caráter incorruptível de Woyzeck, desencadeando um processo contínuo de loucura, autocompaixão e, consequentemente, vingança.

A relação opressora de Herzog sobre Kinski se mantém durante toda a projeção de Woyzeck. Algo como se a câmera fosse a força oculta comandando os atos crescentes de insanidade do anti-herói. Criador cadenciando a fúria crescente da sua criatura social. As consequências trágicas dessa relação acabam por promover um dos mais cruéis e arrebatadores desfechos da história do cinema europeu. A fúria de Kinski nos minutos finais se contrapõe de forma assustadora se comparada com o bocó a quem somos apresentados nos minutos iniciais.

Apesar da impressionante simbiose entre esses dois gênios da dramaturgia germânica, o trabalho de Eva Mattes como a esposa também chama atenção. Como uma Capitu machadiana, consegue provocar no espectador pureza e incerteza, numa interpretação que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes. Ainda assim, tudo nesse filme é muito pouco diante do hipnótico Klaus Kinski e sua interpretação, que varia entre o boçal e o monstruoso.

Apesar de quê, do outro lado da câmera tinha um Herzog, o impiedoso cineasta que dedicou boa parte da sua vida a ameaçar (inclusive sob mira de revólver) a verve interpretativa da sua cobaia Klaus Kinski. No final, a dúvida. De onde o ator tirou tanta cólera? Estaria ele esfaqueando o próprio general que o ordenava por trás das câmeras? Irrelevante, já que o resultado foi sublime.

Woyzeck - Werner Herzog - Alemanha - 1979
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13 de nov. de 2008

10 filmes germânicos essenciais

Metropolis
Metropolis, 1927

Direção: Fritz Lang
Com Brigitte Helm, Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Rudolf Klein-Rogge, Theodor Loos
Prêmio especial pela restauração - New York Film Critics 2002



O Enigma de Kaspar Hauser
Jeder für sich und Gott gegen alle, 1975

Direção: Werner Herzog
Com Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira, Willy Semmelrogge, Michael Kroecher
Grande prêmio do Juri, prêmio da imprensa e do júri ecumênico - Festival de Cannes

Asas do Desejo
Der Himmel über Berlin, 1987


Direção: Wim Wenders
Com Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander, Peter Falk, Curt Bois
Melhor direção - Festival de Cannes
Melhor Filme - Mostra Internacional de São Paulo
Melhor Filme Estrangeiro - Los Angeles Film Critics
Melhor Filme Estrangeiro - Independent Spirit Awards

O Gabinete do Dr. Caligari
Das Cabinet des Dr. Caligari, 1919

Direção: Robert Wiene
Com Conrad Veidt, Werner Krauss, Friedrich Feher, Hans Heinrich von Twardowski, Lil Dagover

O Tambor
Die Blechtrommel, 1979

Direção: Volker Schlöndorff
Com David Bennent, Mario Adorf, Angela Winkler, Katharina Thalbach, Daniel Olbrychski
Palma de Ouro - Festival de Cannes
Melhor Filme Estrangeiro - Oscar
Melhor Filme Estrangeiro - Los Angeles Film Critics
Melhor Filme Estrangeiro - National Board of Review

Nosferatu
Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922

Direção: F.W. Murnau
Com Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schröder, Alexander Granach, Georg Schnell

Contra a Parede
Gegen die Wand, 2004


Direção: Fatih Akin
Com Birol Ünel, Sibel Kekilli, Catrin Striebeck, Maltem Cumbul, Stefan Gebelhoff
Urso de Ouro e Prêmio da Imprensa - Festival de Berlim



Olympia
Olympia 1 Teil – Fest der Völker, 1938
Direção: Leni Riefenstahl
Leão de Ouro - Festival de Veneza

O Casamento de Maria Braun
Die Ehe der Maria Braun, 1979


Direção: Rainer Werner Fassbinder
Com Hannah Schygulla, Klaus Löwitsch, Ivan Desny, Gottfried John, Gisela Uhlen
Prêmio especial do Júri e Urso de Prata melhor atriz - Festival de Berlim

O Anjo Azul
Der blaue Engel, 1930

Direção: Josef von Sternberg
Com Marlene Dietrich, Emil Jannings, Kurt Gerron, Rosa Valetti, Hans Albers
 
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