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27 de jun. de 2008

Em Cartaz: "NA NATUREZA SELVAGEM"

Quando pensei em assistir a este filme pela primeira vez, pensei tratar-se de um filme sobre isolamento. Pois bem...

É. E é outras coisas. É também sobre desencanto, sobre a tentativa de purificar-se através de uma longa e solitária jornada.

O personagem principal, vivido por Emile Hirsch, é um: Chris McCandless. Sim, este cercado de família, pais, irmã... toda essa coisa que é tão importante para a maioria, mas com a qual não consegue sentir-se a vontade, apesar da vida confortável de alguém que acaba de se formar na universidade e que dá seus passos para se tornar, digamos assim, uma pessoa produtiva para a sociedade. A fonte de seu desencanto é justamente a família. Tão tipicamente inseridos nos padrões sociais, sr. e sra. McCandless não poupam esforços em se ferir mutuamente com desentendimentos homéricos e, consequentemente, também ferem a prole.

Então o recém-formado moço doa toda a grana que tem pra uma entidade e corta todos os laços. Nosso personagem passa a ser outro, ainda que o mesmo (o mesmo?): Alexander Supertramp, o que se perde na natureza selvagem. Tolstoi, Thoreau e London são seus guias na jornada que empreende, assim como Virgilio foi o guia de Dante na Divina Comédia. Enquanto a narração em off da irmã McCandless revela alguns detalhes da vida familiar e como isso afeta aquele que parte, Supertramp vai descobrindo uma outra vida pelas estradas dos EUA. É isso: da Virginia para o mundo. De um canto qualquer para a vastidão imensurável.

Há esta nova vida, que no filme nos é revelada como se fossem capítulos de um livro: nascimento, adolescência, maturidade e sabedoria. Em sua jornada, Supertramp conhece gente que sempre tem algo a mostrar a ele: o casal hippie; o traficante travestido de homem do campo, que se torna o grande amigo a quem ele endereça cartas; o casal de maluquetes dinamarqueses; a artista adolescente, que se apaixona e está disposta a tê-lo; o velho Ron, a quem procura devolver um pouco de sentido na vida... mas se Supertramp interage com eles por algum tempo, não abandona seu jogo de aparições e despedidas. Da mesma forma que entra, sai da vida de cada um deles. O viajante está com eles, mas está sozinho, porque só é seu caminho de tentativas.

Toda a saga de McCandless/Supertramp não nos é mostrada a partir de uma linha regular de acontecimentos. Tudo começa com uma mãe acordando ao ouvir um estranho chamado e, de repente, presenciamos a chegada de nosso protagonista ao Alaska, tão somente para encontrar o Magic Bus, um ônibus velho e abandonado que ele faria de morada. Apenas depois saberemos quem é Wayne, com quem o andarilho se corresponde, por exemplo.

Somos nós os agraciados com paisagens belíssimas de várias localidades estadosunidenses, de Arizona a Alaska, passando por Colorado, Califórnia... a despeito da beleza das imagens, quase um “Mochilão MTV” destituído do discurso “turístico”. E isso incomoda em alguns momentos – talvez o único senão. Pra bem ou pra mal, culpa de Sean Penn, diretor que paga o preço por seu posicionamento contrário à política externa norte-americana. Culpa, também, de Eric Gautier, diretor de fotografia responsável por um road-movie consagrado como Diários de Motocicleta, onde já exibia sua qualidade como bom “orquestrador” de imagens. Aqui, talvez seja mesmo o caso de dizer, um pouco over.

Mas, falando no diretor, Sean Penn também se diz em Supertramp. Mostra-se desgostoso com sua “família”, o país. Por isso, num dado momento, o noticiário na TV em que Bush pai fala sobre a primeira intervenção no Iraque. É, porque tudo se passa no já longínquo ano de 1990 – nesta época havia mesmo um Chris McCandless cruzando os EUA e renegando os valores familiares. Está tudo no livro de John Krakauer, que deu o nome ao filme. Fidelidade total do filme ao livro? Irrelevante. Vale dizer que há esta figura de um McCandless heróico. Pois bem, não nego que a figura do rapaz me é simpática, porque gostaria de ter a coragem para embarcar em jornada parecida.

No entanto, Supertramp é tão cheio de vontades, tão impulsivo! São seus impulsos, às vezes bem mal-pensados, que o levarão à conclusão de sua jornada. Há quem diga, no Alaska, que o mochileiro não foi mais do que um idiota. Assim ou assado, heróico ou idiota, o que há de mais interessante no filme, como na vida, é o caminho que se trilha – o destino... ora, que importa o destino, quando há tanto chão a seguir e areia a engolir?

Purificar-se... acontece ou não. Mas nós, que estamos longe disto, podemos nos perguntar: vale a pena? Arrisco-me a responder: sim, vale a pena tentar. Principalmente se houver uma trilha sonora como a de Eddie Vedder que, na minha opinião desimportante, não funciona tão bem isoladamente – foi assim que ouvi pela primeira vez – mas que cresce muito em conjunto com o filme.

Boa jornada a quem se habilita!

 
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