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4 de fev. de 2009

O Olhar Estrangeiro: "A ALEMANHA DESCOBRE A ÁFRICA"

As férias acabaram, inclusive aqui. Claro, durante esses períodos muitos de nós viajam. Pois o ano reinicia, agora, com o mote viagem. O Olhar Estrangeiro é a série de posts para fevereiro e trata justamente de obras de diretores que tiveram um olhar diferenciado para determinadas partes do globo. Como Werner Herzog, que já filmou em quase todo canto do planeta. Inclusive, no Brasil, filmou partes de Cobra Verde, filme a ser "dissecado" aqui futuramente.

Se a primeira metade de Cobra Verde se passa no Brasil, a segunda se passa na África, para onde o bandido Cobra Verde é enviado como punição por ter engravidado as filhas do patrão. Lá ele encontra disputas tribais e se vê em luta contra a natureza e os instintos mais primitivos do ser humano. Mas falar de natureza e da ação do homem sobre ela não é novidade na filmografia de Herzog. Em 1969, ele esteve na África do Norte para filmar um dos seus primeiros grandes "delírios", Fata Morgana. Narração em off da origem do mundo, imagens do deserto em que o homem só vai aparecer depois de mais de 20 minutos de filme. Cadáveres de animais que tiraram seu sustento do planeta, para depois tudo devolverem. Restos de aviões, velhos veículos. A criação, o paraíso, a era de ouro. Obsessão por lagartos, futilidades sobre tartarugas. Um duo (horrível) de piano e bateria num salão de festas vazio. Leonard Cohen e tudo isso pra mostrar o fracasso dos deuses. Não se encontram concessões nos filmes de Herzog. E provavelmente não havia mesmo melhor lugar para retratar a miragem (exatamente o significado de Fata Morgana) do ser humano que o deserto norte-africano.

Mais recentes e menos contundentes são duas produçoes alemãs das quais falarei agora. A primeira delas é Lugar Nenhum na África, de Caroline Link. O filme foi o ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2003. Um prêmio estrangeiro sobre um olhar estrangeiro. Seria mais um típico filme de perseguição nazista a judeus, se a família que forma o núcleo do filme não tivesse se instalado no coração da África, mais precisamente, no interior do Quênia. Eis o mote: o desafio da adaptação a uma outra realidade. O pai, antes da chegada de esposa e filha, sofre com a malária e é salvo por um funcionário da fazenda onde vai trabalhar. Este, chamado Owuor, é a figura do africano humilde, servil e amigo. Tanto que "adota" a pequena Regina, filha do casal Redlich. Ela lhe tem tanto apreço que a adaptação torna-se fácil. Na medida em que cresce, é ela quem se torna a ligação dos pais, sobretudo da reticente mãe, com a cultura local, chegando a levar a mãe a uma cerimônia dos nativos.

Linha semelhante segue o filme de Hermine Huntgeburth, A Massai Branca. Neste, a turista suíça Carole, no penúltimo dia de férias no Quênia junto a seu namorado Stefan, conhece Lemalian, guerreiro da tribo Samburu, e se encanta por ele. O encantamento é recíproco e, numa atitude inverossímil (embora o filme seja baseado em fatos reais), ela abandona tudo pra viver com Lemalian. Se nos braços do guerreiro Carole vive grande paixão, a realidade é falsa adaptação. Nascida em berço capitalista, nunca vai se adequar aos costumes do lugar. Todo o tempo ela está tentando remoldar a própria vida e as dos que estão ao seu redor. Ela também pega malária (ah, os clichês...). Há o choque de ver uma mutilação feminina. Há o comércio que ela abre e o hábito local de dar crédito aos amigos. Mas... todos são amigos ali na aldeia. Há o ciúme. Mas não há possibilidade de conciliação.

Pode-se dizer que os filmes de Herzog trazem consigo um olhar fatalista e, no que diz respeito a Fata Morgana, contemplativo e fatalista. Nos filmes de Link e Huntgeburth, o que mais pesa é, além do formato convencional, ora a fascinação pelo diferente ora o conflito. Independente do rótulo que se possa dar a estes filmes, creio que representam bem estes olhares germânicos para a África.

Que venha a próxima viagem!

31 de dez. de 2008

100 Anos de Manoel Oliveira: "O PRINCÍPIO DA INCERTEZA"

"Tudo o que é interessante é fingimento." É o que afirma Vanessa (Leonor Silveira) durante uma conversa com José Luciano/Touro Azul (Ricardo Trepa), na piscina da casa de Antonio Clara/Cravo Roxo (Ivo Canelas) e Camila (Leonor Baldaque).

Vanessa é a cortesã, a mulher que subiu na vida às custas de atividades duvidosas e mantém um night club onde as roletas e a oferta de sexo dão o tom. Ela é amante de Antonio, amigo de infância de José Luciano. Mas o centro em torno de quem todos esses personagens giram é Camila, vinda de família arruinada do Porto, por conta das dívidas de jogo do pai. Camila é quieta, calada, uma típica "boazinha" e, por isso, para a criada Celsa (Isabel Ruth), que criou os dois rapazes juntos, ela é a garota perfeita para se casar com Antonio. Celsa quer livrá-lo da amante através desse casamento que é arranjado sem quase nenhuma interferência. Camila também esteve com Antonio e José Luciano na infância. O segundo nutre uma paixão secreta por ela. Paixão que só é revelada assim que ele sabe do arranjo casamenteiro, mas ela o responde dizendo que, apesar de ter esperado por essa confissão desde muito tempo, o coração dela não será de José Luciano nem de Antonio. Enfim... um casamento de conveniência. A confissão de Touro Azul é a pequena interferência que não será suficiente para que o sacramento deixe de acontecer.

O casamento não é feliz. Sabemos disso desde o primeiro momento, porque a impassibilidade de Camila incomoda. Num jantar oferecido para amigos mais próximos, Vanessa a compara a uma mutante, justamente por tal qualidade da jovem. Noutro momento, Camila conta a Daniel Roper (Luís Miguel Cintra), amigo e admirador, um homem mais velho que, junto ao irmão Torcato (José Manuel Mendes), intermediara o acerto matrimonial, um episódio violento entre ela e o marido, durante férias na Itália, onde Vanessa também estava presente. "As habilidades que as mulheres fazem para saltar por cima do sofrimento são extraordinárias", ela diz. Mais à frente, no mesmo diálogo, Daniel dá mostras de sua perturbação: "Por que é tão invulnerável? Tão nova e tão invulnerável..."

Ainda que tenha a força de um cinema-teatro e a obra se realize como cinema, há uma marca literária importante. Os diálogos são primorosos. Aqui é preciso lembrar que Manoel de Oliveira contou com a presença de Agustina Bessa-Luís, colaboradora fiel, além de autora do livro que deu origem ao filme, Joia de Família, o primeiro da trilogia O Princípio da Incerteza, que dá nome ao filme.

Mas os diálogos são mesmo marcantes quando as duas mulheres, Camila e Vanessa, duelam. Isto se dá na primeira vez em que Camila encontra Vanessa e Antonio sozinhos na casa. E se repete num momento de desespero, próximo à resolução final do filme, quando a cortesã busca a jovem senhora pra pedir-lhe determinada quantia. Voltaremos a este ponto.

A contida e "boazinha" Camila se revela aos poucos. Num diálogo com a criada dos Roper, fala da dualidade de Joana d'Arc, de quem é devota. Sua bondade é inteligência, frialdade perante aqueles que mantêm um certo poder sobre ela. Isto fica mais evidente quando ela narra uma história de família, em que o pai a leva ao cinema pra que ela sofra abuso de um credor de jogo. Então fica claro que a doce e fria Camila é, na verdade, a "deusa da vingança".

Vingança que ela exerce contra Vanessa, quando nega a ajuda financeira e gargalha. Contra Antonio, indiretamente, porque quando os credores da cortesã aparecem no night club para "cobrar sua dívida", é ele quem sofre a pior das consequências. Quando a jovem parece estar livre de todos que a mantiveram sob certo jugo, ainda há tempo de uma revelação aterradora sobre a única mulher nesta história que parecia inocente. Ainda assim, Camila mantém-se invulnerável e colhe para si os louros da vitória. Figura perturbadora essa moça, porque se de Vanessa pode-se esperar tudo, Camila é dissimulada ao extremo. Mas capaz de causar ferimentos mais mortíferos.

Impressionante o domínio de Oliveira sobre os atores. Não há um que não pareça estar à vontade durante a atuação, desde a então estreante Leonor Baldaque - por sinal, neta de Augustina Bessa-Luís; passando pela "atriz-fetiche", Leonor Silveira (atuação e beleza explêndidas) e mesmo pelos discretos (e era necessário que fosse assim - é uma história de mulheres) Ivo Canela e Ricardo Trepa - opa, outro vínculo familiar: Trepa é neto de Oliveira. O Princípio da Incerteza (2002, França/Portugal) é um belíssimo filme em que a complexidade nebulosa dessa figura feminina de Camila é o grande mote, assim como em outros filmes do diretor.

Acreditamos que O Princípio da Incerteza foi uma escolha feliz pra encerrar a homenagem aos 100 anos de Manoel de Oliveira e o ano deste blog. Esperamos que estejam conosco no próximo ano e nos seguintes também, que esta relação entre blog e leitores tenha a longevidade de um Oliveira e o brilho de seu cinema. Entrem com o pé direito em 2009. Sucesso!

A equipe

26 de dez. de 2008

100 Anos de Manoel Oliveira: "PORTO DA MINHA INFÂNCIA"

A memória. Mais uma vez a memória é a matéria-prima de um filme de Manoel de Oliveira: Porto da Minha Infância, de 2001, que foi encomendado pela organização da iniciativa Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, nos traz as reminiscências de Manoel de Oliveira a respeito da cidade onde nasceu.

O filme principia com um maestro que rege uma orquestra invisível - referência a uma cidade que não mais existe? Assim, como narrador em off, Manoel fala de uma Cidade do Porto de outros tempos, mas que o viu nascer. Lá estão as ruínas da casa onde nasceu e cresceu, além de ali ter surgido sua paixão pelo cinema. Sua narração é entrecortada, em vários momentos do filme, por uma canção na voz de sua esposa, Maria Isabel. Canção cuja letra é a poesia de Guerra Junqueiro, Retorno ao Lar.

Passeamos com o diretor pelos cafés, pelos lugares de operetas (ele próprio, junto com Maria de Medeiros, aparece como ator de uma opereta, sendo observado por sua "versão jovem" da plateia), pelas ruas, os marcos que já não existem... num dado momento, quando ele fala de sua confeitaria preferida durante a infância, ouvimos dele: "Foi-se embora a confeitaria e, com ela, os pastéis." Atualmente, no lugar do luxuoso comércio, há uma decadente loja de roupas.

No Palácio de Cristal havia inúmeras exposições, sobretudo de carros e flores. Numa dessas exposições, encontramos duas figuras - serão eles os poetas Fernando Pessoa e José Régio? Fica a suspeita. Depois, Manoel recorda a família e sua paixão de infância, a prima Guilhermina.

Noutro momento, há a participação da escritora Agustina Bessa-Luis lendo trecho de um texto de própria autoria. Também temos Manoel a divagar sobre seus antigos amigos, com quem costumava dar asas à imaginação pelas ruas do Porto. Entre eles está o poeta Adolfo Casais Monteiro, que foi perseguido e preso pelo regime ditatorial português e que veio a morrer no Brasil.

Conhecemos também a primeira sala de cinema do Porto, a High Life, que mais tarde se tornaria o Cinema Batalha.

Mais uma divagação e estamos com Manoel frente à Camisaria Confiança e à Rua Santa Catarina, santa que era a padroeira das costureiras que participaram involuntariamente do primeiro filme realizado em Portugal, por Aurélio Paz dos Reis. Em seguida, uma reprodução do pioneiro do cinema português filmando a movimentação dos operários da Porto 2001. Manoel diz, antes de calar: "A cidade está a ser renovada. Mas por muito que lhe façam, é sempre o meu porto de infância, com um fio d'ouro a correr a seus pés."

Emociona a sequência em que Porto nos é mostrada mais uma vez e que termina em cena que não só remete, porque é igual, com exceção das luzes, à cena de abertura de seu primeiro filme, Douro, Faina Fluvial, de 1931.

O filme é curto, não alcança 60 minutos. Mas é o suficiente para mais uma vez viajarmos pela memória junto ao longevo diretor.

Encerro este texto com trecho da poesia Europa, de Adolfo Casais Monteiro, cuja leitura durante o filme é um dos momentos marcantes:

I

Europa, sonho futuro!
Europa, manhã por vir,
fronteiras sem cães de guarda,
nações com seu riso franco
abertas de par em par!

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,
virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Saberás renascer, Fénix, das cinzas
em que arda enfim, falsa grandeza,
a glória que teus povos se sonharam
— cada um para si te querendo toda?

Europa, sonho futuro,
se algum dia há-se-ser!
Europa que não soubeste
ouvir do fundo dos tempos
a voz na treva clamando
que tua grandeza não era
só do espírito seres pródiga
se do pão eras avara!

Tua grandeza a fizeram
os que nunca perguntaram
a raça por quem serviam.
Tua glória a ganharam
mãos que livres modelaram
teu corpo livre de algemas
num sonho sempre a alcançar!

Europa, ó mundo a criar!

Europa, ó sonho por vir
enquanto à terra não desçam
as vozes que já moldaram
tua figura ideal,
Europa, sonho incriado,
até ao dia em que desça
teu espírito sobre as águas!

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,
virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Saberás renascer, Fénix, das cinzas
do teu corpo dividido?

Europa, tu virás só quando entre as nações
o ódio não tiver a última palavra,
ao ódio não guiar a mão avara,
à mão não der alento o cavo som de enterro
— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,
o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

II

Ó morta civilização!
Teu sangre podre, nunca mais!
Cadáver hirto, ressequido,
á cova, à cova!

Teu canto novo, esse sim!
Purificado,
teu nome, Europa,
o mal que foste, redimido,
o bem que deste,
repartido!

Aí vai o cadáver enfeitado de discursos,
florindo em chaga, em pus, em nojo..
Cadáver enfeitado de guerras de fronteiras,
ficções para servir o sonho de violência,
máscara de ideal cobrindo velhas raivas...
Vai, cadáver de crimes enfeitado,
que os coveiros, sem descanso,
acham pouca toda a terra,
nenhum sangue já lhes chega!

Sobre o cadáver dançam
teus coveiros sua dança.
Corvos de negro augúrio
chupam teu sangue de desgraça.
Haja mais sangue, mais dançam!
E tu levada, tu dançando,
os passos do teu bailado
funerário!

Mas do sangue nascerás,
ou nunca mais, Europa do porvir!

E a mão que te detenha
à beira do abismo?
Do sangue nascerá!

E braços que defendam
teu dia de amanhã?
Do sangue nascerão!

O sangue ensinará
— ou nova escravidão
maior há-de enlutar
teus campos semeados
de forcas e tiranos.

De sangue banharás
teu corpo atormentado
e, Fénix, viverás!

12 de dez. de 2008

100 Anos de Manoel de Oliveira: "CRISTÓVÃO COLOMBO - O ENIGMA"

Hoje, oficialmente, Manoel de Oliveira, completa 100 anos. Oficialmente porque ele nasceu em 11 de dezembro de 1908, mas foi registrado apenas no dia 12. O diretor mais velho em atividade construiu uma obra que não é velha. Atuante desde os anos 30 do século passado, viu e segue vendo o desenvolver de uma arte, boa parte de suas técnicas, os movimentos, os autores, atrizes e atores. Assim como ele, seu cinema permanece lúcido e capaz de atrair algum público, ainda que seleto, em diversas partes do mundo.

Enquanto eu, nesta semana, assistia a Cristóvão Colombo - O Enigma (França/Portugal, 2007), ele estava "em campo" pra filmar seu atual projeto, Singularidades de uma Rapariga Loira, baseado em conto de Eça de Queiroz. Mas voltemos à Cristóvão Colombo, o primeiro que o diretor realizou com tecnologia digital. Tal demonstração de interesse pelas novas tecnologias ajudam a provar sua vitalidade, assim como o fato do próprio diretor e sua esposa terem atuado no filme também o faz.

Cristóvão Colombo - O Enigma é baseado no livro de Manuel Luciano da Silva, Cristovão Colon Era Português. O autor do livro é o personagem principal e a experiência de assistir ao filme nos leva a observar duas trajetórias distintas: a da investigação sobre as navegações lusitanas pelo autor, além de sua própria trajetória de vida.

Assim como toda a carreira do diretor português, o filme atravessa os tempos. Começa na década de 1940, quando os jovens irmãos Manuel Luciano (Ricardo Trêpa) e Hermínio (Jorge Trêpa) embarcam pra Nova Iorque. Lá eles se instalam e Manuel Luciano se torna médico. Mais que isso, torna-se um investigador das navegações portuguesas no período em que a América foi "descoberta" e, sobretudo, de questões que concernem à nacionalidade de Cristóvão Colombo. Defende e investiga a teoria de que Colombo não era genovês e, sim, português e natural de Cuba, cidade alentejana. Não à toa, uma das ilhas que Colombo "descobriu" quando chegou à América foi batizada com o nome da cidade portuguesa.

Já em 1960, Manuel Luciano desposa Silvia (Leonor Baldaque) e, com ela, vai à cidade de Cuba. As investigações são sua grande paixão e, mais tarde, em 2007, quando o casal passa a ser interpretado pelo próprio Manoel de Oliveira e sua esposa, Maria Isabel de Oliveira, Silvia irá conversar com Manuel Luciano sobre o fato de ter de competir com esta grande paixão. Juntos, visitam os monumentos que referenciam a presença de Colombo, tanto na América como em Portugal.

Manoel de Oliveira/Manuel Luciano lamenta a pouca importância que as instituições e o povo dão ao resgate da memória portuguesa das grandes navegações e compara o período das grandes aventuras lusitanas no além-mar com a corrida espacial levada a cabo por EUA e União Soviética durante a Guerra Fria. Num dado momento, o investigador, ainda jovem e recém-casado, pergunta a uma senhora a respeito da casa onde teria nascido Colombo. Como resposta, obtem: "Cristóvão Colombo? Nunca ouvi falar e olha que já moro aqui há muito tempo".

Em toda sua trajetória, o investigador é também acompanhado por uma figura, um signo em forma de mulher jovem e em traje vermelho e verde - a personificação do orgulho lusitano (Lourença Baldaque). Poesias de Fernando Pessoa e de Camões, além de um belíssimo fado, temperam o prato que é a busca do casal Silva.


A busca pela real origem de Colombo torna-se, então, parte desse tema tão particular, a identidade portuguesa. Manoel de Oliveira, desse modo, presenteia-nos com um filme rico, simpático, tão capaz de inspirar uma certa nostalgia, ainda que não sejamos portugueses, mas apenas "filhos" de Portugal. Tudo isso sem deixar de ter um toque de contemporaneidade.

Torna-se vital, a partir disso, que façamos uma busca pela obra do centenário diretor.

Repercussão da pré-estreia de Cristóvão Colombo - O Enigma em Cuba do Alentejo

23 de nov. de 2008

Herzog & Kinski: "NOSFERATU, O FANTASMA DA NOITE"

O terceiro filme a ser abordado na série Herzog/Kinski é nada menos que um clássico do cinema de terror mundial. Mas, de todos os clássicos do gênero, é um dos que mais se notabilizam. Pela personalidade de Herzog, pela presença de Kinski. Pela beleza onírica de Adjani. Pela fotografia de Jörg Schmidt-Reitwein, que é pouco usual e causa sempre a impressão de que acompanhamos um sonho estranho e ruim.

Nosferatu, o Fantasma da Noite (Nosferatu: Phantom der Nacht, 1979) é a ponte entre o Expressionismo e o Novo Cinema germânicos, este último "movimento", encabeçado pelo próprio Herzog, assim como por Fassbinder, Wenders, Kluge e Schlöndorff, entre outros. Conversa - mas pouco - com a versão de F. W. Murnau, Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, de 1922. Há diferenças na estrutura narrativa, que na versão original não se prende a uma única voz. Na versão de Herzog o foco está em Lucy Harker (Isabelle Adjani). E o contemporâneo diretor teve a sorte que faltou a Murnau: pôde usar os nomes originários da lenda do terrível conde.

Kinski no papel de conde Drácula demorará a aparecer. Apenas no 26º minuto do filme, uma silhueta, envolto em sombras. Um personagem repulsivo, um tipo de rato-vampiro com a frustração e tragédia tão humana de não poder se redimir de sua condição grotesca e eterna através do amor.

Antes disso, um impressionante plano que mostra múmias humanas do Guanajuato Mummy Museum, no México. Um morcego que paira no ar. Lucy acordando, as imagens são de um pesadelo. Jonathan Harker (Bruno Ganz, em ótima atuação), o marido, a consola. Um café da manhã frio, que demonstra distanciamento entre o casal, inclusive no sentido sexual. Não por acaso, Lucy está cercada de certa aura virginal, sempre etérea, quase sempre vestida de branco.

Em seguida, Jonathan recebe uma missão: chegar à Transilvânia para encontrar o conde, que deseja tratar da compra de uma casa em Wismar, onde vivem os Harker. Recebe a incumbência sem pesar algum, despede-se da esposa, que tem uma sensação ruim, e parte. O primeiro sinal, durante a viagem, de que as coisas não vão sair bem vem da estupefação dos ciganos que, na estalagem, escutam Jonathan anunciar que vai ao encontro de Drácula. As coisas vão ficando mais sombrias, até o momento em que há o encontro. Quando o Harker se dá conta, já é tarde demais para qualquer atitude.

Como cada personagem de Kinski, esse Drácula tem um objetivo que transcende a realidade. Se o insano Aguirre pretende encontrar o El Dorado e criar uma linhagem superior por meio de um enlace carnal com a filha e se o obstinado Fitzcarraldo pretende montar uma ópera na selva (incluindo a improvável missão de transportar um navio enorme através de uma montanha), há aqui um angustiado conde que vê em Lucy a oportunidade de tornar a eternidade mais tolerável. Curiosamente, temos em Drácula um personagem de natureza puramente maligna, mas contida, enquanto outros personagens de Kinski sob a "batuta" de Herzog são mais "explosivos". Mas uma característica é comum a todos: são horripilantes em suas obsessões.

Firmado o contrato, o conde parte por rio, levando consigo a morte em forma de peste. Quando um barco sem tripulantes cheio de caixões e ratos chega à cidade, é sinal de que o pior destino não está por vir: já chegou. Também um Jonathan desmemoriado e de natureza transformada retorna à cidade, sem se importar se Lucy está a se bater com o vampiro - ela se escorando na fé em seu amor pelo marido; ele, Drácula, implorando por amor, em cena antológica: o monstro se manifesta pela primeira vez ao seu principal alvo através de uma sombra num espelho.

Não demorará muito a ser vista a cena do banquete dos ensandecidos moradores, enquanto os ratos se apropriam da cidade, assim como a cena em que cortejos fúnebres se sucedem e se somam nas ruas de Wismar. Cenas estas que poderiam ser exibidas daqui a 10 mil anos, de forma que algum ser saiba que existiu algo chamado cinema, se é que fará algum sentido.

A seguir, um sacrifício tem lugar, o que não deixa de ser uma entrega e uma certa satisfação sensual; um monstro encontra seu fim, apenas para dar lugar a outro - o mal permanece, ainda que, para o trio Lucy-Jonathan-Drácula, algum objetivo seja alcançado.

Uma clássica história de amor e morte em que Werner Herzog deixa sua marca, mais uma vez auxiliado por seu melhor inimigo, Klaus Kinski.

21 de nov. de 2008

"ROMA" de Federico Fellini

E já era fim de filme, penúltima cena. O narrador nos fala de uma senhora que passa rente ao muro de velhos palácios.

É Anna Magnani. Ela que já fora Mamma Roma na película de Pasolini - um dia talvez fale mais dele. O post, hoje, é de Federico, o Fellini. Ou, melhor dizendo, da Roma que ele viu, talvez absorvendo ludicamente um tanto a obra do colega de atividades - a conferir!

Menos divagações que atrapalham o texto e vamos ao fato. Ou à quimera felliniana que é a cena. O narrador, que é o próprio diretor, questiona se Anna poderia ser a encarnação da cidade: uma vestal, loba, aristocrata, vagabunda. A Magnani manda Federico às picas e bate-lhe a porta na cara.

Ali, naquele instante, naquela Roma, havia os professores sem didática. Os hippies com seu amor livre. Os puteiros de alta e baixa classe. Os cabarés da época da guerra com suas atrações absurdas lotados de pederastas e agitadores. Um povo que se cagava pra tudo e apenas tentava existir.

Também havia o caos das vias, durante a tempestade, enquanto a equipe filmava - e lá estava o diretor dando suas ordens, questionando, fazendo existir a sua Loba particular e essencial. A passeata de motoqueiros como moscas pela cidade e no cenário clássico de A Doce Vida, a Fontana de Trevi. E um absurdo e surreal desfile de "moda eclesiástica" - sarcástica crítica.

Fellini colocou seus olhos sobre a absoluta Loba que recebeu tantos Rômulos e Remos, de tantas partes do mundo. Roma teve Gore Vidal também, a dar seu depoimento de americano que então ali vivia.

Mas aquela cidade estava morrendo, ou tentando existir apesar de lhe faltar fôlego já há 36 anos. A película data de 1972, levemos em conta. Roma cedia à modernidade. As escavações do Metrô revelam obras do período glorioso do império que, ao contato com o ar de nossos tempos, rapidamente se deterioram.

E, como se não bastasse, Anna Magnani morreu no ano seguinte. A batida de porta foi sua última cena.

Perdido o passado, que resta para o presente e o futuro? Se não sobra muito da sede imperial de dois mil anos atrás, o que sobrou da Roma de Fellini, uma vez que os tempos avançam e já não há mais hippies, os velhos cabarés e puteiros não guardam o mesmo espírito?

Não sei. Ao menos, há o exercício deste mestre, um exercício documental delirante, quase sério, um tanto crítico e de certa forma saudosista, mas também um tanto lascivo e moleque, enfim... um exercício tão Fellini.

Tento guardá-lo em minhas pupilas de forma a não esquecer tão cedo - a despeito da péssima qualidade de imagem e de legendagem da cópia que tenho em mãos - tais cenas que me levam a uma série final de questionamentos deste mal-começado e mal-acabado texto:

Que sobra da cultura, esta herança adquirida de qualquer lugar onde haja gente, seja Roma, São Paulo, Joanesburgo ou Bagdá?

E como aqueles que nos sucederão vão lidar com os temas nossos, que serão um dia apenas arquivos acessáveis em qualquer maquininha sobre a história antiga em que seremos nós os personagens mais ou menos desimportantes?

4 de nov. de 2008

Trilhas Sonoras: "LARANJA MECÂNICA" por Miguel Saial

O primeiro "filme-rock"

Censurado pelos elitistas ingleses, difamado pelos puritanos americanos ou intelectualizado pelos sensíveis franceses (a ponto de terem criado um cartaz para o filme substancialmente diferente do original), o certo é que nos anos setenta os adolescentes iam ao cinema ver Laranja Mecânica como quem ia a um concerto. A magistral trilha sonora que conduz o filme ou o fato de se ter dito que o protagonista, Alex, tinha algo de Mick Jagger são a base para mais uma ramificação do gigantesco culto à volta do filme.

Podem dizer que alguns temas de Celine Dion, Aerosmith ou Coolio “fizeram” alguns filmezecos dos anos 90, mas se quisermos falar, mesmo, de trilhas sonoras, Laranja Mecânica é, mais uma vez, referência obrigatória. Talvez pela presença da música clássica na história original (o autor do livro afirmou que, com isso, pretendia representar a disfunção/imperfeição da sociedade: um delinquente ou uma mente perversa como a de Alex não impossibilita um gosto refinado em áreas consideradas fora do alcance dos marginais), a trilha sonora sobrepõe-se ao habitual conceito de ambiente ou interligação da música num filme, tornando-se um componente tão importante como a imagem, a história ou os diálogos. A conjugação quase perfeita da linguagem audiovisual.

A partitura da produção é da responsabilidade do compositor Walter Carlos (hoje Wendy Carlos, pois submeteu-se a uma operação de mudança de sexo), que compôs o tema principal do filme e conjugou Beethoven com Gene Kelly (Singing in the Rain) ou uma maluquice da época, "I Want to Marry a Lighthouse Keeper", de Erica Eigen.

Cartaz francês de Laranja Mecânica.

Por curiosidade, será importante referir que, quando foi equacionada a primeira tentativa de passagem de Laranja Mecânica para o cinema, o bando de Alex seria interpretado pelos Rolling Stones, sendo o protagonista... Mick Jagger. Isto vem no seguimento do que poderemos considerar mais um capítulo da importância de Laranja Mecânica na cultura mundial. Talvez nem o autor do livro tenha imaginado quando o escreveu e mesmo depois de ter sido publicado, o alcance que este teria. Anthony Burgess ficou estupefato com o impacto da versão cinematográfica de Kubrick em relação ao seu livro, confessando-se mesmo algo enciumado. A morte de Kubrick motivou prestigiadas publicações dos mais variados quadrantes a dedicar várias páginas e artigos ao genial realizador. Mesmo revistas mais voltadas para a cena musical o fizeram. O destaque vai para o número de páginas que os franceses da Les Inrockuptibles dedicaram a Kubrick. Mas, ainda na área musical e, particularmente, no que se refere a Laranja Mecânica, o New Musical Express publicou um interessante artigo intitulado “A Clockwork Orange in Music”, revelando um número surpreendente de bandas cujo nome, estética e atitude se inspiraram no filme de Kubrick. O melhor exemplo são os ingleses do Campag Velocet. O vocalista, Peter Voss, acha que o filme ainda é "o melhor alguma vez feito", e até prefere que este continue proibido na sua terra natal, para manter o culto das coisas que "são melhores enquanto continuam proibidas".

Oriunda da clubing scene, esta banda é bastante considerada no meio musical pelo som que não se insere em nenhum movimento (há quem o descreva como “dançante, obscuro, codificado e comovente”) e pela postura anti-comercial que adotaram. Já tiveram dois semissucessos com os singles “Drencrom Velocet Synthemesc” e “Sauntry Sly Chic”, e a temática das canções são, obviamente, gritos de revolta contra regras e condicionamentos sociais e políticos, não fossem eles inspirados no filme de Kubrick.

Além destas referências diretas, encontramos alusões a Laranja Mecânica por todo o lado, provando que não se trata de um culto restrito, seja no merchandising do Sigue Sigue Sputnik (anos 80), ou na fase Stardust (anos 70) do sempre em voga David Bowie, que em alguns concertos aparecia fantasiado de Alex, algo que não foi de certeza pontual, pois há mesmo músicas em que o termo droog aparece. Mais recentemente, o Blur fez, no video de "The Universal" (do álbum The Great Escape, de 95), uma paródia (ou homenagem?) ao filme. No clipe, os elementos da banda estão vestidos de branco e tocam num local bastante parecido com o bar-leiteria Korova. Damon e os seus droogies fazem um autêntico remake de algumas cenas do filme, com o toque irônico a que a banda londrina já nos habituou. Em Portugal, o ex-Delfim Miguel Angelo também tem, já há algum tempo, o hábito de utilizar alguns signos claramente identificáveis com o filme: o chapéu e as falsas pestanas (no seu caso, pintadas) são um óbvio decalque do visual de Alex.

Mas não posso deixar de fazer um comentário em nível pessoal (que até acaba por não o ser). É que, às vezes, parece-me fixação minha, pois pareço “ver” referências ao filme em tudo quanto é lugar. Aconteceu, por exemplo, quando a música dos franceses Air começou a ser conhecida. Além das claras afinidades da componente eletrônica, as capas do álbum e os videoclipes pareciam-me claras abordagens ao estilo técnico/estético que Kubrick utilizou para filmar Laranja Mecânica, mas... acabei por concluir que era apenas fixação minha e nunca mais pensei nisso. Eis que, algum tempo mais tarde, leio um artigo da revista Page, com o sugestivo título “A Cor do Som”. Falava da relação entre o aspecto gráfico, a “embalagem” do disco e o estilo musical. Já no último parágrafo do extenso artigo, leio algo que me desperta bastante a atenção: “(...) as melodias easy listening, com misturas analógicas e digitais, de grupos como Air, Stereolab ou Curd Duca são aproveitados por criativos que lhes pretendem conferir uma onda nostálgica e talvez um pouco conservadora. Começamos logo a pensar no Yellow Submarine e nos sofás redondos do filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick (...)”.

Reparem que o autor do artigo não escreveu apenas “o filme Laranja Mecânica”. Escreveu “Laranja Mecânica de Stanley Kubrick”. Talvez seja mesmo fixação minha.


Texto de Miguel Saial em http://www.tifonet.it/free/ultra/LM7.htm, sem data. Adaptado por Alessandro de Paula.

3 de nov. de 2008

Em Cartaz: "O SILÊNCIO DE LORNA"

No início do filme, ela cuida de empréstimos, vai a um orelhão e fala com alguém que, tudo indica, é seu namorado. Não importa, ela é quase ninguém, um rosto que se perderia na multidão, com seus dramas, com suas pequenas alegrias.

É assim na vida, não? Eu aqui, na megalópole insana, esbarro com uma pessoa na esquina. Não sei de sua história. Não sei de onde ela veio e aonde vai. Não sei de seus anseios, de seus medos, se ela gosta de chocolate ou queijo. Não sei se ela seria capaz de deixar alguém morrer pra poder atingir seus objetivos.

Mas voltemos à distante Bélgica, cenário de nosso drama. É lá que está aquela personagem que poderia perder-se num canto da memória. Ela é Lorna (Arta Dobroshi), imigrante albanesa. Quando chega em casa, há alguém. Rock alto ouve-se da porta. É Claudy (Jérémie Renier, ator-fetiche dos irmãos Dardenne) quem está lá. O marido viciado, que logo se revela disposto a largar as drogas. Lorna o despreza.

O casamento é de conveniência, forjado por mafiosos russos, porque Lorna quer a cidadania belga. Mais que isso, ela quer abrir um negócio de lanches com seu real amor, o também imigrante Sokol (Alban Ukaj). Acontece que o contato de Lorna, Fabio (Fabrizio Rongione), quer que Claudy morra logo, de forma que Lorna fique livre para se casar com um russo e, assim, não haveria prejuízos a ninguém envolvido no negócio.

As coisas acontecem diferente. Como Claudy reafirma querer se tratar, Lorna vai se afeiçoando a ele, ao mesmo tempo que vai tentando arranjar a situação de forma que ela possa ter o divórcio sem ter de sacrificar a vida do rapaz. Pra isso, ela simula ter sido agredida.

Eis que, então, há o conflito entre Lorna e aqueles com quem mantinha negócios. Por fim, Fabio consegue seu intento, Lorna e Sokol procuram o lugar adequado pra lanchonete e um encontro com um certo russo acontece.

A moça não está confortável com a situação. Antes do encontro, recém descobrira-se grávida, o que exames posteriores não confirmam. Então este é o momento de uma fuga para a liberdade. Mas conseguirá ela lidar com a memória de tudo que ocorrera?

O Silêncio de Lorna (2008) recorre ao áspero dia-a-dia dos imigrantes que querem, a todo custo, manter-se em centros mais adiantados na Europa. Tema europeu atualíssimo e recorrente, mas aqui tratado com maestria por esses papa-prêmios de Cannes. Desta vez, levaram o de melhor roteiro. Não à toa.

A grande questão ética é a de passar por cima de tudo e de todos pra conseguir seus objetivos. Lorna vai aceitando ou questionando as situações que se colocam e é apenas gradativamente que ela se torna capaz de ser agente de seu próprio destino, dando, assim, fim ao seu silêncio.

O filme foi exibido no Festival do Rio e na 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e terá sua estreia no próximo dia 7. Quem ficar em silêncio e não ir à sala de cinema mais próxima que esteja exibindo o filme perderá um dos melhores lançamentos do ano.

O Silêncio de Lorna - Jean-Pierre e Luc Dardenne - Bélgica/França/Itália/Alemanha - 2008

30 de out. de 2008

"CINEMA POLÍTICO ITALIANO" por Angela Prudenzi e Elisa Resegotti

Entrevistas Recuperam Cenário Político Italiano dos Anos 60 e 70

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo.Entrevistas inéditas realizadas na Itália com os grandes do cinema político italiano, que conheceu seu período áureo entre os anos 1960 e 1970, compõem o corpo principal do volume lançado em 2006, durante a 30ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, em co-edição do evento com a Cosac Naify.

Trinta anos após a eclosão do gênero na Itália, as autoras italianas Angela Prudenzi e Elisa Resegotti foram buscar os depoimentos surpreendentes – sobretudo pelas lições de ética e de estética que encerram – dos realizadores que, com o seu empenho social e político, denunciaram as mazelas da sociedade de seu país e procuraram ecoar pelo mundo os sonhos embutidos nos grandes movimentos políticos internacionais daquelas décadas. Com sábio olhar de distanciamento, esses criadores analisam os filmes daqueles anos e os confrontam com a atual sociedade globalizada

Entre as 15 personalidades entrevistadas especialmente para o livro, encontram-se Marco Bellocchio, Vittorio Taviani, Bernardo Bertolucci, Damiano Damiani, Ettore Scola, Mario Monicelli, Dino Risi, Giuliano Montaldo, Francesco Rosi e Vittorio de Seta. Há, ainda, uma conversa com a brasileira Florinda Bolkan - protagonista do principal filme do gênero: Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (de 1969, ganhador de Oscar e da Palma de Ouro de Cannes - foto à esquerda), de Elio Petri, o único diretor falecido do grupo focalizado. O roteirista dos principais filmes de Elio Petri, Ugo Pirro, também foi entrevistado pelas autoras.

As autoras focaram suas conversas com os mestres em filmes de empenho social de caráter “coetâneo”, ou seja, com temas contemporâneos à realização, como O Caso Mattei (foto à direita), de Francesco Rosi, ou Antes da Revolução, de Bernardo Bertolucci. Já nos ensaios e na fortuna crítica do volume ampliou-se a abrangência com análises de produções de cunho político que se valeram, porém, de reconstituições de época, os chamados “filmes históricos”, alguns bastante conhecidos do público brasileiro, como O Conformista, de Bertolucci, e A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo.

As 15 entrevistas históricas deverão surpreender, ainda, devido às fortes semelhanças reveladas entre o panorama político e social italiano à época do “boom econômico” e os jogos e vicissitudes do atual momento político-social brasileiro.

Além delas, três ensaios inéditos dão conta de aspectos como as influências recíprocas entre o cinema político italiano dos anos 60 e 70 e os cinemas latino-americanos da época (texto do crítico José Carlos Avellar); as diversas florescências do cinema italiano a partir dos anos 40, que possibilitaram a eclosão do gênero político (por Leon Cakoff); e um panorama do momento social italiano nos anos 60/70, assinado pelas pesquisadoras italianas.

Pai Patrão, de Paolo e Vittorio Taviani.
Na seção final do livro, “Fortuna Crítica”, são reproduzidos 17 textos de crítica e/ou reportagens assinados por Orlando L. Fassoni, José Carlos Avellar, Pola Vartuck, Luiz Zanin Oricchio, Luciano Ramos, Ely Azeredo, Valeria Wally e Leon Cakoff, originalmente publicados nos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Diário de São Paulo (dos Diários Associados).

O volume é fartamente ilustrado com fotogramas de mais de sessenta filmes, além de fotos históricas produzidas pelos jornais italianos da época, em projeto gráfico de Flavia Castanheira.

Feios, Sujos e Malvados,
de Ettore Scola.


SOBRE AS AUTORAS

Angela Prudenzi
Jornalista e crítica cinematográfica, colaboradora da Rivista del Cinematografo, foi por muito tempo membro da direção do Festival de Cinema de Pesaro e responsável pela programação cinematográfica da Cineteca Nazionale do Centro Sperimentale di Cinematografia. É docente de Programação e Organização Cinematográfica na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade La Sapienza, de Roma.

Elisa Resegotti
Organizadora e curadora de retrospectivas e mostras de cinema, fotografia e artes visuais, atua no desenvolvimento, produção, comercialização e distribuição de filmes de arte e de documentários. Contribuiu para a revelação e divulgação, na Itália, de diretores como Abbas Kiarostami, Wong Kar-Wai, Nicolas Philibert, Robert Guédiguian, Bruno Dumont, Alejandro Gonzáles Iñarritu e Edward Yang.

Veja slideshow do livro

Adaptado do site da Editora CosacNaify, outubro de 2006

6 de out. de 2008

Em Cartaz: "ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA"


Quando veio a cegueira branca, ninguém estava preparado. Era início de 2008 e um diretor de cinema trabalhava na montagem de seu filme. Haveria Cannes. Haveria a abertura do festival. E aquele era o filme.

Recepção fria, poucos aplausos. Estranheza. Ensaio sobre a Cegueira (Blindness; 2008) no primeiro mundo. O autor do livro cuja adaptação estava ali nas telas se emocionou, ele mesmo, que era tão reticente quanto ao projeto, anos antes.

Tanta claridade ofuscava o juízo daquela gente toda ou havia algo de errado com o filme? Isso só seria descoberto por aqui quando o filme estreasse. Claro, depois de mais alguns cortes, pra agradar a gregos e troianos - ou seriam gringos e baianos? - de Hollywood.

Setembro, dia 12. Eu não estava lá, mas depois desse dia, os comentários começaram a surgir. Era uma amiga que tinha visto e adorado. Era gente no Orkut, a maioria, entusiastas. Passaram-se uns dias e pude ver. É, o filme funciona! E como funciona!

Não cabe aqui algum tipo de comparação entre filme e livro. Linguagens diferentes salientam mais - ou menos - detalhes de uma história. Como cinema, o filme de Fernando Meirelles convence, tanto como convence o livro de José Saramago. Não digo por mim, que não li o livro, mas uma história tão intensa sobre caos e decadência render um prêmio Nobel a seu autor tem de ser boa mais que o suficiente.

O diretor de O Menino Maluquinho 2 teve um grande desafio em mãos. No blog do filme está toda a saga envolvendo o projeto, toda a construção, cada detalhe, a desconfiança do mundo. Estava tudo ali.

Pra quem não sabe, Ensaio sobre a Cegueira é sobre um grande surto de uma cegueira inédita, em que as pessoas enxergavam apenas uma claridade absoluta. A estranha doença alcançou um, depois outro... quando se pode perceber, era preciso juntar toda essa gente em algum lugar, porque tudo levava a crer que se tratava de algo contagioso. Havia o homem no trânsito (Yusuke Iseya), o outro que rouba seu carro (Don McKellar, que também foi o roteirista do filme), o oftalmologista (Mark Ruffalo), o menino (Mitchell Nye), a garota de programa que só anda de óculos escuros (Alice Braga), a esposa do primeiro homem (Yoshino Kimura), o velho do tapa-olho (Danny Glover)... todos eles confinados numa ala de um sanatório abandonado. Uma exceção: no grupo estava a esposa do oftalmologista (Julianne Moore). A única que enxergava e que, por meio de um subterfúgio, permaneceu ao lado do marido, tornando-se guia dele e de todos do grupo. Nenhum deles tem o nome citado, assim como no livro.

Há outros doentes em outras alas. Não demora a haver o choque. Um se intitula o "rei da ala 3" (Gael García Bernal). Este e seu grupo passam a controlar o repasse de comida para os grupos de outras alas. Primeiro, cediam a comida a troco de objetos pessoais que tivessem algum valor. Depois, por noites de prazer com as mulheres. Eis as cenas que causaram mais problemas para os críticos do filme: as dos grandes estupros levados a cabo pelos cegos da ala 3.


Era possível falar durante horas sobre a moralidade vazia, ou cegueira, de alguns. Claro, a violência choca. Mas algo feito assim, omitindo o que é essencial à compreensão de uma adaptação cinematográfica de um livro em que tudo está lá, principalmente a violência, seria simplesmente mentiroso. Mas o fato é que, a exemplo do que aconteceu em Cannes, Ensaio sobre a Cegueira não tem sido muito bem recebido em alguns países do Hemisfério Norte. As salas de cinema dos EUA que abrigam o filme estão esvaziadas. Uma associação de cegos quis impedir a exibição do filme, alegando que o mesmo criava uma ideia distorcida do que é ser cego. Enfim, muita bullshit. Mas voltemos à história...

Depois de um embate definitivo entre os grupos de cegos no sanatório, os vencedores escapam e dão de cara com um estado de anarquia e desespero. Não há mais governo, as pessoas, nas ruas, cegas, estão em pandemônio. Há pouca comida para tanta gente e é preciso saquear os supermercados. Nossos personagens terão de passar por tudo isso para haver uma chance de redenção.

As cenas se passam no Canadá, em Montevidéu e em São Paulo. No entanto, a ideia do livro foi respeitada e não é dito, em momento algum, o local onde se passa a história. Mas quem é paulistano, como eu, logo reconhece determinados lugares e se espanta, a princípio, quando ouve as personagens nas ruas falando em inglês. Espanto que logo passa, é verdade.

Mais um acerto de Meirelles, que desta vez muito deve à qualidade do texto de Saramago - que nem ouso questionar, pois li outros livros dele e sei do que é capaz o velho. Ainda assim, é um filme de Meirelles, que parece condensar toda sua visão de mundo. O caos de Ensaio sobre a Cegueira não é tão diferente do de Cidade de Deus, por exemplo. Cesar Charlone capricha na fotografia esbranquiçada. A trilha sonora pouco convencional dos mineiros do Uakti é certeira. As atuações estão ótimas. De Julianne Moore, se alguém falar mal, eu juro que parto pra agressão. Tudo isso me faz crer que temos mais um filme pra entrar na lista dos melhores de 2008.

E o cinema parece cada vez mais globalizado. Pode-se dizer que é um filme nacional com elenco internacional, falado no idioma do "grande império". No entanto, é um filme para a humanidade. Um filme que choca, talvez mais porque há muita gente que não quer enxergar o que pode ser o humano colocado em condições extremas. Assim como o livro. Um ensaio sobre a cegueira. Da alma.

19 de set. de 2008

"HEIMA" de Dean DeBlois

Heima. Vem do islandês. Significa, em português, "em casa". É também o documentário de 2007, do canadense Dean DeBlois, que mostra o final da turnê do CD Takk (2005), com diversos trechos de apresentações gratuitas que a banda islandesa Sigur Rós fez, parando em diversas cidades da Islândia, belo e frio país. De ver as imagens já se sentia a temperatura cair.


A fotografia é realmente espantosa de bela - méritos divididos entre a natureza, a arquitetura de cada lugar e o diretor de fotografia, o russo Alan Calzatti. Oito locações, oito cidades em que a banda se apresenta com suas composições recheadas de camadas de sonoridades, das mais singelas às grandiosas.


Tudo é coroado com uma apresentação poderosa em Reykjavik, a capital do país, quando nos é trazido um trecho intenso de Untitled VIII, música que encerra o disco anterior da banda, ( ) (2002). Em seguida, os últimos comentários do vocalista, Jón þór Birgisson, e os créditos finais, ao som de Untitled III. É curioso ver o quão pouco à vontade os músicos falam às câmeras.


Ver Heima é realmente uma experiência interessante. Um belo documento sobre um dos baluartes da cena post-rock. Faz querer que um dia eles retornem às terras tropicais, visto que eles já tocaram por aqui na versão de 2001 do finado Free Jazz.

Palavras definem pouco sobre Heima e Sigur Rós. Melhor que vocês confiram:

Heima - Dean DeBlois - Islândia - 2007

3 de set. de 2008

100 anos sem Machado: "QUANTO VALE OU É POR QUILO? "



Bianchi encontra Machado



Sabemos que o cinema do paranaense Sergio Bianchi é movido pela denúncia, por colocar os que detêm o poder em xeque. Pois bem, em quanto vale ou é por quilo?, seu filme mais recente, de 2005, tem como cerne o conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis.

No conto, Cândido Neves - ou, se preferirem, Candinho - é o cara que se faz capitão do mato, ele captura escravos fugidos e os leva para seu cliente, que o paga conforme a dificuldade da tarefa. É assim quando ele tem que capturar Arminda (Ana Carbatti) - um trabalho-chave para que, assim, seja evitado o triste destino de ter de levar o filho à roda dos enjeitados, uma vez que Candinho e família não têm condições de arcar com a despesa de uma boca a mais na casa.

quanto vale ou é por quilo? também poderia ser chamado de "Arminda de Todos os Tempos". Há a Arminda machadiana, escrava, grávida e fugida, que aborta quando é entregue ao dono; há outra Arminda (vivida por Ana Carbatti, novamente), a de Bianchi, mulher que trabalha para uma ONG que serve como intermediária num grande esquema de corrupção, na qual todos levam vantagem, menos os mal-letrados/iletrados de uma comunidade carente. Ela também está grávida e, ao denunciar todo o esquema, tem de ser caçada pelo jovem-futuro-pai-desempregado Candinho (Silvio Guindane), que se torna matador de aluguel, afinal...

Com a recompensa pela escrava fugida, o capitão-do-mato pode agora criar seu filho, alimentá-lo e educá-lo com dignidade e liberdade.


Mas onde há dignidade em explorar a miséria alheia ao tornar-se mero servidor daqueles que detêm o poder de mandar matar ou deixar viver? O filme, ao fazer uso do texto de Machado, mostra que, mesmo em momentos históricos diferentes, nada mudou. Por isso, Arminda e Candinho em dois tempos - é fácil imaginar. Aqui ou ali, ontem ou hoje, sempre alguém lucra com a escravidão, com a miséria, com a imobilidade social. É o brasileiro das periferias dos grandes centros, dos morros, das roças, feito escravo fugido usando uma máscara de folha de Flandres. O pobre está no tronco. E é necessária uma certa porcentagem de negros, de índios categorizados como "outros" para aparecer no filme da campanha da ONG que vai oferecer inclusão digital - ou o que valha - como "a solução dos problemas dos miseráveis".

Vamos pegar os faveladinhos remelentos, dar a eles alguns brinquedos e posar para a foto. A única a sorrir é a "madrinha". Aquele moleque não serve pro depoimento, não tem orgulho de ser negro. Vamos trocá-lo. Mas, claro, enquanto o garoto ainda carrega o pesado estigma de sua miséria material e moral, o diretor só quer fazer seu trabalho. A máquina tem de funcionar.

Lá no passado e aqui, neste momento, está acontecendo. Há uma Arminda, um Candinho e um sacrifício. Mas Bianchi propõe uma alternativa. Arminda morre. Ou não, tem tempo de propor ao Candinho uma parceria. Não se pode ser pacato sempre e talvez a violência redirecionada pode ser a chave pra mudar tal quadro? No filme há também um sequestro. O ato é tratado como se fosse um negócio que gera lucros, assim como administrar uma ONG. Mas qual é a maior violência? A de quem impõe a podridão e ganha com isso ou a de quem reage a ela?

No conto e no filme, a única possibilidade de mobilidade é acatar o jogo de irmão-contra-irmão, povo-contra-povo. E seguirá sendo assim, pelos séculos e séculos... amém!

Será?

25 de ago. de 2008

Em DVD: "APENAS UMA VEZ"

Apenas uma Vez é um filme indie. Um musical sem toda aquela pompa dos musicais que, por muitas vezes, afastam certo tipo de cinéfilo. As músicas estão inseridas ali de uma forma tão natural e despretenciosa, que nem mesmo dá pra dizer que é um musical.

E o filme se torna interessante por causa das músicas. Também pelo roteiro, muito simples. É quando dois dramas amorosos e pessoais se mesclam e tornam-se uma única história que, neste caso, é permeado de uma musicalidade indie/pop muito interessante.

O cenário é Dublin. Ele é artista de rua, busca ganhar uns trocados com seu violão e sua voz, além de ajudar o pai na loja de conserto de aspiradores de pó. Ela, imigrante da República Tcheca, também está nas ruas, vendendo flores pra sustentar mãe e filha. O marido está no pequeno país do leste europeu - uma relação mal-resolvida. Seus nomes nunca são revelados, mas, no decorrer do filme, se desenvolve uma história de afinidades e é sugerida uma atração.

O interesse pela música e de um pelo outro os leva a se juntarem num processo artístico fundamental para ambos. Ela já conhece as músicas dele de antemão, de ouvir pelas ruas. Cada canção carrega em seu cerne a frustração de uma relação terminada. Ela se encanta. Eles conversam. Ela revela que é pianista e que costuma exercitar-se, de favor, numa loja de instrumentos musicais. Ela o leva até a tal loja e mostra seus talentos. Assim tem início a parceria.

E tem início também uma relação de amor sublimado por meio da música. Em certo ponto, ele compra um piano para ela. Mas não é uma relação doentia, de sofrimento extremo. Tudo isso os faz crescer, assim como o projeto também se desenvolve. Noutro ponto, eles já têm uma banda e estão num estúdio, com um produtor que, a princípio, duvida, mas que depois se torna entusiasta.

Lógico, muitos torcem para que surja aí um casal. Mas não é este o ponto crucial da história. O que importa ali é como eles resolvem suas questões e, isso, de certa forma, acontece.

O maior mérito de John Carney, o diretor, é criar um filme consistente, que não cai num sentimentalismo piegas, e bastante simples. Talvez tão simples que o filme passou quase batido pelas salas de cinema aqui em São Paulo. Deve ganhar mais atenção com o "boca a boca" e as locações em DVD.

A dupla de atores não faz feio. Glen Hansard é vocalista/guitarrista da banda irlandesa The Frames - que teve John Carney como baixista, por uns tempos - e suas composições encaixam-se bem no filme, todo o tempo. Markéta Iglová está presente com sutileza e força, ainda que jamais tenha atuado antes. A canção Falling Slowly ganhou o Oscar merecidamente, embora minha preferida seja outra: When Your Mind's Made Up.

Enfim, um bom filme, dos melhores para se ver dentro de um filão de comédias românticas ou de musicais.

Ah, sim... momento-mexerico pra fechar o post: Glen e Markéta começaram a namorar durante as filmagens. Abaixo, vai o trailer:

Apenas uma Vez - John Carney - Irlanda - 2007

 
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