Sabemos que o cinema do paranaense Sergio Bianchi é movido pela denúncia, por colocar os que detêm o poder em xeque. Pois bem, em quanto vale ou é por quilo?, seu filme mais recente, de 2005, tem como cerne o conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis.
No conto, Cândido Neves - ou, se preferirem, Candinho - é o cara que se faz capitão do mato, ele captura escravos fugidos e os leva para seu cliente, que o paga conforme a dificuldade da tarefa. É assim quando ele tem que capturar Arminda (Ana Carbatti) - um trabalho-chave para que, assim, seja evitado o triste destino de ter de levar o filho à roda dos enjeitados, uma vez que Candinho e família não têm condições de arcar com a despesa de uma boca a mais na casa.
quanto vale ou é por quilo? também poderia ser chamado de "Arminda de Todos os Tempos". Há a Arminda machadiana, escrava, grávida e fugida, que aborta quando é entregue ao dono; há outra Arminda (vivida por Ana Carbatti, novamente), a de Bianchi, mulher que trabalha para uma ONG que serve como intermediária num grande esquema de corrupção, na qual todos levam vantagem, menos os mal-letrados/iletrados de uma comunidade carente. Ela também está grávida e, ao denunciar todo o esquema, tem de ser caçada pelo jovem-futuro-pai-desempregado Candinho (Silvio Guindane), que se torna matador de aluguel, afinal...
Com a recompensa pela escrava fugida, o capitão-do-mato pode agora criar seu filho, alimentá-lo e educá-lo com dignidade e liberdade.

Mas onde há dignidade em explorar a miséria alheia ao tornar-se mero servidor daqueles que detêm o poder de mandar matar ou deixar viver? O filme, ao fazer uso do texto de Machado, mostra que, mesmo em momentos históricos diferentes, nada mudou. Por isso, Arminda e Candinho em dois tempos - é fácil imaginar. Aqui ou ali, ontem ou hoje, sempre alguém lucra com a escravidão, com a miséria, com a imobilidade social. É o brasileiro das periferias dos grandes centros, dos morros, das roças, feito escravo fugido usando uma máscara de folha de Flandres. O pobre está no tronco. E é necessária uma certa porcentagem de negros, de índios categorizados como "outros" para aparecer no filme da campanha da ONG que vai oferecer inclusão digital - ou o que valha - como "a solução dos problemas dos miseráveis".
Vamos pegar os faveladinhos remelentos, dar a eles alguns brinquedos e posar para a foto. A única a sorrir é a "madrinha". Aquele moleque não serve pro depoimento, não tem orgulho de ser negro. Vamos trocá-lo. Mas, claro, enquanto o garoto ainda carrega o pesado estigma de sua miséria material e moral, o diretor só quer fazer seu trabalho. A máquina tem de funcionar.Lá no passado e aqui, neste momento, está acontecendo. Há uma Arminda, um Candinho e um sacrifício. Mas Bianchi propõe uma alternativa. Arminda morre. Ou não, tem tempo de propor ao Candinho uma parceria. Não se pode ser pacato sempre e talvez a violência redirecionada pode ser a chave pra mudar tal quadro? No filme há também um sequestro. O ato é tratado como se fosse um negócio que gera lucros, assim como administrar uma ONG. Mas qual é a maior
violência? A de quem impõe a podridão e ganha com isso ou a de quem reage a ela?No conto e no filme, a única possibilidade de mobilidade é acatar o jogo de irmão-contra-irmão, povo-contra-povo. E seguirá sendo assim, pelos séculos e séculos... amém!
Será?
