23 de nov de 2005

O Finado Cinema e a Volta por Cima de Deus

Se não há mais cinema como antes, não culpemos o próprio cinema. Ele morre mas é por assassinato, não por suicídio. Não se trata de uma crítica propriamente, mas uma constatação aterrorizante. Os cinemas se acabam porque eles não bastam para a nossa vida. Godard anuncia a morte do cinema, mas o que se vê é uma intensa tortura do moribundo. Eis o que o francês não viu em seu mundo:

Os atores dão lugar aos pastores – este é o fato no Brasil. As salas de cinema deixam o espaço para as igrejas dos mais diversos ramos protestantes. Antes a pessoa sentava numa poltrona para ser levado por uma narração ilusória, um sonho, uma idéia de mundo que saía seja da cabeça de um autor ou da indústria. A indústria ainda mantém seus sonhos e pesadelos no MULTIPLEX, mas o espaço não é único e a gente quase não entra no estágio profundo do “sono”.

Antes, nas cidades de interior, os domingos eram reservados para aqueles filmes com vaqueiros americanos, outros de diretores que mais pareciam escritores de tanto domínio que tinham em criar seu mundo nas telas como se manipulassem apenas palavras em um papel – os europeus. Antes a transcendência era mais momentânea, mais fugidia ou superficial, pois eram as luzes acendendo e todos voltando à realidade. Esta realidade, apesar do filme, existia. E o filme ajudava alguns a suportar, outros a entender - a maioria a comparar os mundos. Estes não eram os mesmos, mas eram comparáveis. Certas vezes até eram imitados, copiados exageradamente. Músicas eram apreciadas como ambientadoras do universo que dançava à frente do espectador. A poesia existia ainda que pouca para levantá-lo e dar cheiro, dar cor a um mundo estável, constante e sem gosto do real. Um movimento de câmera movia todos bruscamente, um sorriso de seus “eus” lá na tela movia o sentimento de empatia por um mundo desconhecido e ideal. Eram mais que atores: eram senhores e senhoras de seus comportamentos. Mas eram no plural, e não uma só pessoa atuando. Não uma só pessoa comandando...

Os pastores tomam o lugar dos produtores. Hoje são rebanhos de pessoas que montam nas cadeiras para ouvir em estado de êxtase o que é o mundo, o que é a realidade – não é mais momentâneo como antes. Hoje é uma política quase partidária, é um partido quase que político dos protestantes que incitam todos a propagandearem o espaço da igreja e aquilo que ele vem proporcionando aos fiéis. O espaço é único, a transcendência é única, apesar de serem todos os sábados a mesma ladainha, a mesma figura em cima de um palco falando na mesma entonação, criando na cabeça dos espectadores um círculo que não muda, uma ciranda de idéias preestabelecidas por uma moral mais rígida, menos tolerante. Hoje Deus é fiel e o mundo muito mais conservador.

Talvez uma mesma pessoa naquela cidade do interior que comprava um ingresso há mais ou menos 30 anos atrás para compartilhar seu mundo com o de outro país ou de outras mentes, hoje pague um dízimo com uma intenção parecida: mas não fogem do mundo que o transtorna. Ao entrar nas igrejas quadrangulares, presbiterianas e principalmente nas universais ele não salta num abismo do mundo diferente como no filme. Ao passar pela porta o mundo não se vai, o filme não acaba. A igreja faz muito mais parte da terra que ele pisa, pois são as mesmas pessoas, as mesmas palavras, as mesmas promessas, a mesma atuação em todos os momentos em que o espectador respira.

Não há salvação para os cinemas do interior, porque eles viraram igrejas. E mais igrejas são construídas porque a quantidade das antigas salas escuras não é o bastante. Os pastores fazem o papel de diretores. Ao levantarem os braços, todos levantam. Ao insistirem no dinheiro, sempre conseguem. Aquele dinheiro que proporcionava sonhos no escuro e hoje faz o indivíduo sonhar acordado é o mesmo que constrói imensos prédios da Universal de Edir Macedo. Este que, sabiamente, acusa o cinema de perverter a mente dos espectadores. Falta ele completar que o filme hoje é um só, e seus fiéis não cansam de assistí-lo.

Texto originalmente publicado no fanzine Filme Zero - de Aracaju

Um comentário:

Thiago F. disse...

"Hoje Deus é fiel e o mundo muito mais conservador."

Afirmar isso é muito importante. Mas não são apenas as igrejas que atiram contra o cinema. A indústria da religião e a indústria cultural são os dois pontos de apoio do conservadorismo no Brasil. O cinema, como vê Godard, como "uma luz apontada para a nossa escuridão", está ameaçado também pela lógica massificada das televisões que insistem em afirmar que o cinema é hollywood.

E nenhum crítico de hollywood espera que esse verdadeiro "aparelho ideológico de estado" como afirma Slavoj Zizek em seu livro "Bem vindo ao deserto do real" desapareça. Mas é preciso que ele seja visto como ele é, como um aparelho ideológico de estado.

Talvez os envangélicos estejam comprando salas de cinema para professar a sua fé capitalisticamente fanática. Mas talvez hollywood esteja professando sua fé nas nossas salas de televisão, em todos os lares do mundo, enquanto nos achamos donos do nosso controle remoto e da nossa liberdade de escolha, que no fundo é uma só: escolher ver um filme de hollywood na tv OU ver um filme de hollywood na tv.

E muitos optam alegremente, achando que manifestam a sua liberdade frente ao mundo. Eles provalmente já estão convertidos, só falta que os Macedo os ensine mais uma fé destrutiva e capitalistamente bem lucrativa.

Ótimo seu texto, dá horas e horas de debate. Vamos continuar...

 
Free counter and web stats