4 de dez de 2005

Lang Muda o Mundo do Mudo

Sem dúvidas, Murnau, (Fritz) Lang e Pabst formam a Santíssima Trindade do Expressionismo. Mas comparar Lang com Murnau, ou com qualquer outro cinema-mudista é uma discrepância. Por quê?

No cinema mudo, nao faltaram diretores geniais - Eisenstein, Griffith, os expressionistas, Buñuel, Keaton, Clair, Vigo, Von Stronheimer, etc. - todos esses eram geniais no que tange a imagem: cada imagem em relaçao a si (metonimia, substituiçao, paradigma, associaçao, aglutinaçao, eixo vertical, ordenadas) e no corte e emenda com a seguinte e a anterior (metafora, deslocamente, sintagma, eixo horizontal, abcissas). Mas Lang consegue ir além disso, principalmente se tratando dos roteiros.

Os roteiros cinema-mudistas pecam, em geral, pela obviedade, simplismo, superficialidade e por serem pouco cinematográficos - com informaçoes demais além da própria imagem, desnecessárias para compreensao da fábula. Isso, mesmo em filmes geniais do expressionismo. Os poucos cineastas de entao que tinham roteiros realmente bons e inteligentes se aproximavam já da linguagem do cinema falado - Clair e Vigo, eminentemente, tanto que nao cito Chaplin, herdeiro direto de Clair, que com A Nós a Liberdade o inspirou a filmar Tempos Modernos, justo porque Chaplin já é um cinema falado, sem som e com pantomina, evitando o diálogo, mas com toda a linguagem do cinema falado. Há, claro, a brilhante exceçao de Buster Keaton, mas porque ele nao tinha roteiro - seus filmes sao uma emendaçao de improvisos, que aliás derivaram no delicioso Jacques Tati de Playtime, talvez o filme fotograficamente mais audacioso da história - filmado em 72mm e também porque em comédia parece que a linguagem falada e a inteligência do roteiro veio antes.

Lang consegue, fazendo só drama, e com linguagem estritamente muda, ter um roteiro de inteligência, economia e cinematografismo extremos até os dias atuais. Dizer isso de M. o Vampiro de Dusseldorf seria obviedade, por que já é um filme sonoro - embora com uma linguagem extremamente muda, mas isso é mais gritante em Metrópolis.

É justo tudo isso que sustenta Metrópolis com uma perene atualidade - fato que nao acontece, por exemplo, com O Gabinete do Dr. Caligari, Aurora e praticamente todos os filmes de entao, a exceçao dos já citados e talvez de Nosferatu de Murnau (mas este por outros motivos - Murnau também já dava um passo adiante no roteiro, nao na criaçao, e sim na adaptaçao. Aliás, o método de adaptar roteiros é praticamente o que marca o devir histórico do cinema - de Murnau a Visconti pelo menos, e talvez a Kubrick).

Só haveria talvez um homem no cinema mudo capaz de em um roteiro e no seu uso, fazer frente a Lang: Eisenstein. Mas isso se nao fosse o fato de ele ter, por medidas estatais, de apelar para o panfletarismo em seus roteiros - o que Metrópolis sempre ameaça apelar e cair (ao panfletarismo ora nazista, ora rosaluxemburguista), mas que sempre se equilibra na corda bamba da problemática.

Por tudo isso, Lang é o maior diretor do cinema mudo. Tanto assim que conseguiu manter carreira numa estética típica do cinema falado, que nada mais é que uma derivaçao do primeiro - o Western. Talvez o "bang-bang" tenha sido o estilo mais autêntico e melhor que o cinema até hoje produziu - é o único, pelo menos, que só existe no cinema, ou alguém já viu algum livro ou obra teatral "bang-bang"?


Lucas Jerzy -
lucasjerzy@gmail.com

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