5 de dez de 2005

O Homem Psicológico em "Durval Discos" e "Adeus, Lênin!"


“No nosso século, o homem racional teve de dar lugar aquela criatura mais rica, mas mais perigosa e inconstante, que é o homem psicológico (...) Ironicamente, em Viena, foi a frustração política que estimulou a descoberta desse homem psicológico hoje onipresente.”
[1]


A onipresença do homem psicológico, alertada por Schorske, não parece um mistério. A análise dos seus usos e desdobramentos está na base da crise da sociedade atual e de seu descolamento do referencial histórico. Podemos analisar a questão partindo de dois filmes que possuem o substrato comum de estarem, conscientemente ou não, fortemente ligados às características do homem psicológico. Trata-se de analisar o filme brasileiro Durval Discos e o filme alemão Adeus, Lênin!

Ambos são marcados pelo conflito privado, essencialmente psicológico. Curiosamente, os dilemas privados são encampados entre duas gerações; no Brasil, o filho se relaciona com a loucura da mãe, que ele não deixa de endossar; na ex-Alemanha Oriental, o filho procura desafiar a história para salvar a psique materna. Em Durval Discos, a relação é intimamente ligada ao desmonte estatal promovido pelo neoliberalismo. Precisamente datado de 1995, a história se desenrola no momento em que, definitivamente, não há mais desenvolvimento possível. Os sonhos das décadas anteriores, do qual Durval é tributário pela via da libertação, tomam, cada vez mais, as formas do ornitorrinco[2]. Esse sentimento, do passado não mais possível e do presente que não mais promete o futuro, direciona a crise psicológica da mãe de Durval. Na impossibilidade de responder politicamente à crise que diagnostica, o filme mergulha no homem psicológico, testando seu perigo e riqueza, aproximando-se da irracionalidade completa, que abandona, em linha crescente, não só a política, a história, mas também as próprias bases do homem racional. A fixação instintiva da mãe de Durval à criança - deixada pela seqüestradora - é capaz de conduzi-la ao assassinato, momento em que o homem não mais consegue medir seus instintos, estando na contramão do desenvolvimento livre de cada um que condiciona o desenvolvimento de todos, se quisermos o auxílio de Marx. Mas o vôo psicológico não é apenas destrutivo, o amor e a felicidade - que antes do aparecimento da criança pareciam resignados – puderam se libertar com o delírio. Daí, percebe-se a aplicação da idéia de homem psicológico no Brasil ornitorrinco, a felicidade e o amor carecem do delírio para se libertar, necessitam do desligamento do mundo, que na periferia do capitalismo aguarda o colapso e não pode mais viver e nem tampouco sonhar. Entretanto, a realização pelo delírio gera destruição, o assassinato do outro humano. O filme, contudo, não consegue escapar desse vazio, talvez seja por isso que ele termina com a demolição da loja de Durval, com o fim. Como constatação, a história de Durval Discos nos diz muito. Como perspectiva, ela silencia.

De modo distinto, porém não ausente do mesmo contexto, o filme Adeus, Lênin! pode ajudar a preencher o vazio deixado por Durval Discos. Com a mesma relação entre mãe e filho, o privado novamente é convocado para versar acerca do público. A queda do muro de Berlim e o fim da Alemanha Oriental orientam a trama. A desagregação do mundo soviético, sucumbido frente à supremacia do capital, conduzem a crise política mundial, que abarca, inclusive, o contexto local do neoliberalismo respirado por Durval Discos. Se, nesse momento, os sonhos socialistas sofrem um abalo decisivo, o capitalismo tardio reina só e sem inimigos, esterilizando todos os campos da vida, do político ao cultural. Na política, as medidas técnicas e econômicas substituem o debate político. Na cultura, o renovamento estético incessante afasta a perspectiva política. Sob esse ponto de vista, não deixa de ser notório que um filme alemão de 2003 pretenda reler a queda do muro, não com o intuito de resolver o público para que o privado possa se desenvolver livremente, mas pela resolução do privado, uma vez que o público encontra-se em decadência. É assim que o filho de uma ativa militante do partido comunista acredita ser mais fácil fantasiar a realidade e criar um mundo não mais existente. O passado, sob esse prisma, vive no presente, mas não o presente coletivo. Na crise política, o passado torna-se apropriável apenas como invenção, numa invenção dupla do presente: a vida coletiva da militante comunista é o passado reinventado e a vida privada é também uma invenção, na medida em que está deslocada do mundo material. Esse tortuoso sistema garante a sobrevivência do homem psicológico, salvando-o da loucura, na medida em que não convive com as contradições e transformações da vida social, pagando o preço de deslocar-se completamente do mundo material, numa terapia que lhe retira da dialética da vida. A criação de uma personagem com essas características é modelar e, desde a queda do muro, suas analogias têm se multiplicado. No entanto, o filme não se prende a não existência da mãe. A grande vitalidade da trama encontra-se no filho, responsável por recriar o passado e viver o presente. É nele que está depositado todo o peso da crise e, por isso, ele é capaz de responder politicamente. Lembremos que é com desprezo que ele trata a irmã estudante de economia que se felicita em trabalhar no Burger King, da mesma forma que conhece e crítica o mundo soviético em desagregação.

Os dois filmes possuem usos emblemáticos do homem psicológico e sua relação com o passado, o presente e o futuro. No brasileiro, o passado é nostálgico, o presente é destrutivo e o futuro inexiste. No alemão, o passado é uma invenção, o presente é uma ilusão e o futuro não mais interessa. Complementado, muito embora, pelo filho que é o elemento dialético. Como agente principal da trama, ele reconhece os valores eternos que o passado possuía, desmontando assim a independência do homem contemporâneo frente ao passado. E como o psicólogo criador de mundo da mãe, ele acaba tornando-se um historiador para ele mesmo, pois “aceita a multiplicidade das coisas em sua singularidade, e revela a unidade em sua inter-relação dinâmica”.
[3]


[1] SCHORSKE, Carl E. “Introdução” e “Política e Psique”. Viena fin de siècle. São Paulo: Companhia da Letras, 1989. p. 26.
[2] Nas palavras de Francisco de Oliveira:”O ornitorrinco é isso: não há possibilidade de permanecer como subdesenvolvido e aproveitar as brechas que a Segunda Revolução Industrial propiciava; não há possibilidade de avançar, no sentido da acumulaçao digital-molecular: as bases internas da acumulação são insuficientes, estão aquém das necessidades para uma ruptura desse porte. Restam apenas as “acumulações primitivas”, tais como as privatizações propiciam: mas agora com o domínio do capital financeiro, elas são apenas transferências de patrimônio, não são, propriamente falando, “acumulação”. In Oliveira, Francisco. O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003
[3] SCHORSKE, Carl E. “Introdução” e “Política e Psique”. Viena fin de siècle. São Paulo: Companhia da Letras, 1989. p. 40.

Um comentário:

Mauro de Araújo disse...

somente com o melodrama no túmulo de nossa mente nós talvez consigamos ver outro tipo de filme - um mais racional, como alerta o texto.

mas quem, hoje,quem quer racionalidade? querem, sim, no dispositivo cinematográfico, se não melodramas, psicodramas, dramas, choros e diplomas de psicologia.

texto massa, Thiago.

 
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