8 de dez de 2005

"quanto vale ou é por quilo?" – a Tentativa de Assassinato da Retomada




Ironia é pouco. O que basta, agora, é o terror no Brasil.



Que retomada? O cinema no Brasil quer a todo custo impor na cabecinha oca do espectador que passamos por uma retomada. A indústria, por acaso, se consolida, e o cinema ganha seus baba-ovos. Sérgio Bianchi entra no livro da professora Lúcia Nagib, mas não adere muito a essa festa. Quem vê seus filmes sabe exatamente porquê.

O curitibano, em Cronicamente Inviável, tenta nos demonstrar a tese do título a qualquer custo. O Brasil, apesar de tudo, é o tema do diretor – que é paulista por essência. Na hora da metáfora, Bianchi enfia goela abaixo a crueza, uma expressão que fica muito, mas muito próxima do real.

Em uma retomada de não sei o que infelizmente não conseguimos sentir nem o cheiro da fossa da rua sem saneamento básico, nem o calor da favela – até mesmo da prisão, como em Carandiru, de Hector Babenco. Mas os filmes da chamada retomada possuem um ideal em comum, bastante parecido com um ideal do passado mítico da Vera Cruz, ou da Atlântida. As coisas limpas de cineastas burros atuais chutam fora a força que teve o cinema novo. Eles arranjam força pra esse chute lá nos financiamentos estatais e produções embutidas na política do favor.

Bianchi parece estar fora disso, mas querendo entrar a qualquer custo pra cuspir no olho dos idiotas de carteirinha de cineasta. O diretor poderia estar fazendo um cinema marginal, como Carlos Reichenbach faz, ou como a “escola” paulista de filmes sempre esteve fazendo. Mas não. Em
Quanto Vale ou é Por Quilo? quer bater na cara de alguns santinhos de plantão, de alguns esquerdistas da antiga UNE ou de uma atual Política neoliberal petista (vide a estrela vermelhinha no cartaz na interrogação).

Em Quanto Vale ou é Por Quilo?, Sérgio Bianchi não só mostra a favela, como a critica profundamente. Vejamos a cena em que os “empresários” de uma ONG atolam o carro na favela. Logo à frente há um corpo no chão: um assassinato acontecera ainda pouco, os ânimos dos favelados ainda estão no alto. Os engravatados, diríamos nós, agora passariam por uma rapagem. Mas não. Os favelados negros ajudam a tirar o carro da lama.

Falando em negros, o novo filme de Bianchi é direcionado à etnia. O título é pra eles. Com flashbacks históricos, nós percebemos algo que quer passar batido – nossa cultura escravocrata, senhorial. A acidez de Bianchi chega a seu cume. É o filme mais revoltado da história cinematográfica do Brasil, sem dúvida.

Bianchi não quer marginalidade. Ele quer que os brasileiros vejam seus filmes nem que seja pelo menos uma vez naquelas palestirinhas com conotações profundamente políticas, mas aparentemente solidárias. E quem diz que este último filme dele é só cinema? É um tapa na cara dos engomados, e dos falaciosos altruístas. É um filme até profético, em se tratando de caixa dois utilizado para campanhas de gente envolvida com as empresas do terceiro setor.

Depois que saímos de Quanto Vale ou é Por Quilo?, temos a impressão de que o país antes Cronicamente Inviável agora tem uma viabilização política: o terrorismo descarado diante de classes que insistem em dominar oprimindo, discriminando, disseminando a corrupção e a safadeza pelo país, sendo demagógicos até a ponta do fio do cabelo. É um filme panfleto – mas quem diz que em panfleto não há arte, ou sentimento? Somente assim, sendo agudo como Bianchi é, para ele ser ouvido (e visto). Uma ode às intervenções artísticas. Elas devem ser mais presentes hoje em dia na miséria artística, econômica, política, intelectual e cidadã brasileira

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