13 de dez de 2005

"Terra de Ninguém": conciliação e divórcio entre a técnica e o homem

Nos seus primórdios, a técnica fora utilizada para superar a fragilidade do corpo humano e, portanto, atuava para garantir a sobrevivência em relação à natureza e entre diferentes grupos humanos. A partir do desenvolvimento do capitalismo e da ciência moderna, a técnica adquire – por meio da razão – uma dupla capacidade de intervenção. Por um lado, as conquistas técnicas são responsáveis – à exemplo do telescópio e do cinema - pela transformação da percepção humana. Por outro, elas ultrapassam a mera instrumentalização funcional, assumindo capacidades de destruição que fogem ao controle humano.

O filme bósnio Terra de Ninguém[1] oferece um auxilio simbólico à discussão quando apresenta como elemento central de seu enredo um soldado bósnio deitado sobre uma mina. Posto sob essa condição por um soldado sérvio, o bósnio não pode levantar-se sob o risco da mina de fragmentação detonar. O drama inicialmente bósnio assume as vestes de humano quando não há possibilidade de desarmamento, ainda que bósnios, sérvios e os soldados da ONU assim desejem. O filme, desse modo, é capaz oferecer elementos para a crítica dos desdobramentos destrutivos da técnica, mas o faz por meio dela através do cinema. Efetiva, portanto, o aprendizado humano frente ao que Walter Benjamin chamou de segunda natureza[2]. Reconhece a emancipação da técnica e, entretanto, procura usá-la à serviço da reflexão humana.

Terra de Ninguém, apesar de ter-se constituído como um produto de uma indústria cinematográfica que não se distingue das outras nos seus aspectos fundamentais como a especialização e exploração do trabalho, resulta numa reflexão artística crucial. Contribui no campo fragmentário da arte contemporânea e da indústria cinematográfica para uma espécie de retorno, onde o ponto de partida são as contingências cotidianas da guerra e suas atribuições inevitáveis – como matar o inimigo antes que ele o mate. Contudo, mesmo esse ponto de partida da guerra tradicional, já apresenta alguns elementos que anunciam o que virá, pois há uma preocupação incessante em demonstrar como os soldados ainda possuem uma essência humana e não se converteram em meros portadores de metralhadoras, daí o senso de humor dos combatentes, a camisa dos Rolling Stones de um soldado e as fotos de mulheres nuas que carregam. Todo esse ambiente paralelo cômico, tão aproximado ao drama, conclama a humanidade resignada e anuncia uma tensão que existirá durante todo o filme. De um lado, o riso quando se pode confirmar os resquícios de humanidade nos participantes da guerra e, então, a esperança de transformação. Do outro lado, a guerra tal qual ela é, onde a técnica emancipada age incontrolavelmente pela destruição. A mina em baixo do combatente vivo anuncia um segundo momento, cujo o desfecho é inevitável, uma vez que não há como salvar o soldado. Esse momento atua como um retorno, quase que um apelo, aos valores humanos. O ambiente cômico paralelo fecha-se e uma reflexão toma intensamente quem assiste o filme: por que o cômico não se sobrepôs? É possível ele se sobrepor? Os horizontes estão definitivamente fechados? Dada a brutalidade e humanidade do filme, a ânsia pelo retorno impossível ao cômico no segundo momento resulta numa crítica profunda à técnica e à guerra. O filme, por fim, atua na contramão da fragmentação cultural atual, uma vez que apela ao coletivo, à reflexão humana, alerta ao fechamento do cômico e usa a mais alta técnica levada à arte, o cinema.

Se colocarmos esse exemplo nos pólos do valor de culto e de exposição de Benjamin, poderemos compreender melhor qual o papel que um filme como Terra de Ninguém exerce nesse confronto elementar da cultura na era da reprodutibilidade técnica. Não resta dúvidas que o valor de exposição atua nesse filme como nos demais, de modo que este filme não representa algo feito fora dos grandes marcos da indústria do cinema, ainda que seu conteúdo esboce uma reflexão que em nada compactua com o capital que o gerou. Esse fenômeno curioso é possível pela lógica amoral do valor de troca e de uso capitalista. As engrenagens da troca não desejam saber o conteúdo em si do filme, o que verdadeiramente importa é a realização dos mecanismos de troca, acumulação e lucro. Se por um lado, a troca – assim como a técnica – não podem realizar-se em meio ao debate moral do que é ou não justo, ela também não podem distinguir moralmente aquilo que as realiza. Por esse aspecto, é no mínimo duvidoso o argumento que incapacita uma utilização politizada e crítica da técnica e do cinema. Não resta dúvida que ela encontra dificuldades monumentais para se desenvolver, mas os horizontes não se fecharam e a técnica levada à arte pelo cinema ainda conserva alguma liberdade de criação. E se não há aura e há reprodutibilidade e massificação, o homem e a teoria crítica ainda existem e possuem novos problemas para resolver. Portanto, os dois pólos de Benjamin ainda parecem se mover. O conteúdo de Terra de Ninguém deve provar sua força num mundo massificado e, frente ao turbilhão de filmes lançados a todo momento no mercado da cultura, a sua existência prolongada e o seu culto no sentido do não esquecimento, do debate e da reflexão é possível, ainda que cresça a força do valor de exposição, onde a razão nunca pára de assistir para pensar.

Danis Tanovic consegue com o filme dar a medida exata do divorcio e da conciliação entre o homem e a técnica. O divórcio está presente no conteúdo do filme e na sua reflexão. A conciliação está medida na própria existência do filme enquanto tal, filho crítico e politizado da técnica.


[1]Filme No Man's Land. Bósnia, Danis Tanovic, 2001.
[2]BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 174.

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