12 de jan de 2006

O amor segundo Ken Loach


Os filmes de Ken Loach normalmente são vistos como filmes diretamente políticos e históricos ao abordar acontecimentos contemporâneos de grande importância, como a Guerra Civil Espanhola ou o golpe de 73 no Chile. Mas, em Apenas um beijo, ao explorar uma trama de amor, muito comum nas tele-novelas e nos "blockbusters", Loach mostra que seu cinema político não depende de grandes episódios para se realizar. Ele apresenta-se sólido e profundo com a sua proposta de cinema justamente no que parecia ser um desvio.

A construção dos personagens do filme parecem estar de acordo com uma afirmação do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer, afirmando que antes de pertencermos a nós mesmos, pertencemos à história. É esse o ponto de partida do filme ao tratar os problemas pessoais dos personagens, para os quais os atos de vontade individual não garantem o êxito. Nesse sentido,o drama da família de Casim e de seu namoro com Roisin não podem esperar por uma resolução nem simples, nem individual e muito menos passional.

Na cadeia de sofrimento dos seus personagens, o filme põe em xeque a efetivação da tradição muçulmana num mundo de capitalismo globalizado, efêmero e desagregador. Assim como também expõe as respostas cruéis e terroristas do ocidente à cultura oriental. O amor de Casim e Roisin se instala no nosso presente: um mundo obscuro, cindido e cotidianamente ameaçado pelo capitalismo global e pela ilusão - tipicamente ocidental - de que a história não mais determina a vida ou que as tradições são um enfeite necessário e descartável que abre espaço para o reinado do indivíduo mergulhado no SEU amor(!), na SUA carreira(!) e na SUA vida(!).

É contra Roisin que Loach despeja toda a sua capacidade crítica, pois ela que é incapaz de compreender o mundo em que vive. Ela é uma típica cidadã ocidental, católica ocasional, embuída de um espírito individualista que se fecha nas suas realizações de vida. As pressões da irmã de Casim e a radicalização do padre não só demonstram reações cruéis e desumanas de católicos e de muçulmanos, mas escancaram a falta de consciência de Roisin do mundo em que vive. E é ela a personagem mais emblemática do senso comum ocidental que acredita numa vida individualizada e indiferente às questões históricas, sociais e religiosas do mundo. No filme, Ken Loach conduz, pouco a pouco, Roisin para o mundo cindido(do qual ela finge não participar) e só uma coisa precisa efetivamente ser resolvida: as Roisins do mundo necessitam entender que não há espaço na platéia e nem segurança para as individualidades. Em suma, o amor e todas as ações humanas podem ser atos de vontade, mas nunca estarão desprovidas de suas determinações históricas e sociais. E quem ignorar esse fato será não só um amante desavisado, mas também um responsável ingênuo pelos problemas do mundo.

A ausência de um final conclusivo confirma esse peso central na figura de Roisin. Ken Loach não está efetivamente preocupado em resolver o amor de Casim e Roisin. O problema do filme não é com o amor, mas com o indivíduo e a sociedade. A manutenção da família e da tradição frente à liberdade do ocidente é um problema sério e persistente que o filme não pretende resolver definitivamente. O interesse do filme é quebrar a apatia individualista de Roisin e trazê-la ao mundo real, um mundo de cisões e conflitos históricos abertos a serem resolvidos pelos homens que amam, constrõem tradições e fazem política. Mas jamais podem escolher ou separar-se do mundo que realizam.

O atual retrocesso cultural do mundo ocidental é tão crítico que é urgente um filme como esse para demonstrar que os homens psicologizados atuais são homens sociais. Ou mesmo para amparar com o cinema a célebre frase de Marx no 18 de Brumário, "os homens fazem a sua história, mas não a fazem como querem".

3 comentários:

Leonardo Mecchi disse...

Antes de mais nada, parabéns aos quatro pelo blog. Não apenas pela qualidade das análises, mas também pela coragem em optar por textos de fôlego num meio que prioriza as conversas rápidas e rasas. Tenho acompanhado o blog desde seu início (nem lembro como cheguei a ele) e torço por uma longa vida.

Entretanto, o que me motivou ao comentário foi o fato de discordar da análise do último filme de Ken Loach. Principalmente à argumentação que se segue a "é contra Roisin que Loach despeja toda a sua capacidade crítica".

Não vejo isso no filme nem nas intenções do diretor. Pelo contrário, aquilo que mais me admirou em Apenas um Beijo (e sobre o que discuto no meu blog) foi a capacidade de Loach de não tomar partido de nenhum dos lados.

Roisin não está errada em ir atrás de seus desejos e lutar por Casim, e se ela responde à irmã de Casim dizendo que não sabe se vai amá-lo para sempre mas que só pode responder pelo que sente naquele momento, isso não é desprezo pela cultura de Casim ou a revelação de que o que vive com ele é uma mera aventura, mas é antes de tudo uma atitude sincera, não hipócrita, pois como seres humanos estamos sempre passíveis de mudarmos de opinião e desejos.

Da mesma forma a família da Casim não está errada em tentar manter sua tradição, mas tampouco pode fazê-lo em detrimento aos anseios e desenvolvimento de seus membros mais novos (tanto Casim quanto sua irmã mais nova). E Casim, no meio desse dilema, é que tem que encontrar o equilíbrio entre esses dois fatores, que é justamente a busca perpetrada pela Europa hoje.

Enfim, a principal qualidade do filme de Loach e não julgar nenhuma das partes, não tomar partido, e mostrar ao espectador o quão complexa é a situação decorrente dessa globalização que vivemos. E a dificuldade (e urgência) de encontrarmos o equilíbrio entre a tradição e a modernidade, entre o interesse público e o privado.

Thiago F. disse...

leonardo,

primeiramente obrigado por enviar um comentário longo sobre o filme.

Só gostaria de dizer que não discordo inteiramente do que você disse sobre o filme.

Não sei bem se podemos afirmar que é possível algum artista "não tomar posição por qualquer um dos lados" como você disse, principalmente quando estamos falando de Ken Loach. Mas, mesmo assim, se isso quer dizer não uma neutralidade, mas uma crítica que se espalha a todos os lados, eu concordo com você.

Uma das qualidades do filme que, talvez eu não tenha explicitado como deveria, é a opção de Ken Loach por criticar todos os lados: a tradição muçulmana, o fundamentalismo católico, a globalização, etc.

Porém, no texto, minha intenção era destacar que Ken Loach vai além da neutralidade e da busca do equilíbrio. Roisin é a representante da ilusão de que a neutralidade é possível, de que é possível um amor sem conflitos, de uma individualidade sem tradição ou de uma modernidade sem história.

Por fim, o que diferencia o filme de Ken Loach é justamente isso. Entre a tradição e a liberdade não é possível assistir como Roisin queria. O equilíbrio é a incompreensão do que é a tradição e a liberdade. O conflito constante é a marca da vida. E Loach sabe disso, por isso, Roisin é chamada para a briga, para a vida, para o mundo.

também podemos ler Lavoura Arcaica para pensar sobre isso...

mas, podemos continuar discutindo, só queria esclarecer melhor. não sei se consegui.

Abraços, espero que possamos discutir sempre sobre cinema.

Leonardo Mecchi disse...

Thiago,

Sim, quando disse que Loach não tomava partido, é no sentido de que suas críticas se estendem a todos os lados retratados, pois seria fácil colocar a família de Casim apenas como vítima do preconceito da sociedade ocidental, mas ele mostra também o preconceito dentro do seio daquela família, da mesma forma que o mostra na religião católica e assim por diante. Mas essa "crítica a todos os lados" é sempre bem fundamentada e, de certo modo, otimista por acreditar na capacidade do ser humano de se superar e não apenas para causar polêmica de forma niilista, como por exemplo o cinema de Sérgio Bianchi.

Sobre Lavoura Arcaica, ótima lembrança! Sou um grande admirador tanto do romance do Raduan Nassar quanto do filme de Luiz Fernando Carvalho, sobre o qual discorro em meu blog.

Um grande abraço e continuem com as boas análises!

 
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