25 de mai. de 2006

Da culpa à existência: breve comparação entre um filme americano e um filme francês

Caché (de Michael Haneke) e Cabo do Medo (de Martin Scorsese) são filmes bastante próximos se nos determos no tema abordado. Ambos tratam de uma espécie de "terrorismo de privacidade", cuja principal marca é uma violação sistemática dos ambientes privados, criando uma sensação de insegurança e des(controle) nos seus personagens.

Em Cabo do Medo, sabemos quem é o autor desse "terrorismo", como também o sabem os personagens. O medo então é instalado dada a clareza da autoria das intimidações, suas motivações e sua vítima, na pele do advogado que não defendeu adequadamente um réu.

Em Caché, jamais saberemos quem é o autor das gravações que a personagem Georges (apresentador de um programa de televisão) recebe. Em alguns momentos, sua profissão pública é citada como possível motivação das gravações que recebe, mas esse aspecto é logo descartado. No seu caso, não ocorre como no filme de Scorsese, onde a intimidação decorre de sua atividade profissional, pública e por isso restrita a - boa ou má - conduta daquele profissional. Nesse aspecto, em Cabo do Medo restringe-se a incidência desse terror privado aos assuntos particulares, podendo se particularizar em um acidente da perigosa vida de advogado criminal, um ato de loucura de um criminoso liberto ou serem apenas conseqüências de um má exercício de sua profissão. Seja como for, a abrangência do ato está reclusa no que ele possui de incomum e de particular. Nesse filme, há que se procurar a culpa, pois há autores definidos e é isso mesmo que deseja o filme: estabelecer com o cinema de verdade revelada(tipicamente americano) se a culpa é do mal advogado ou do criminoso vingativo.

Caché não pretende dicotomizar a questão como Cabo do Medo. Sua não definição da autoria das fitas - que expõe a vida privada de Georges - demonstra a preocupação do filme em generalizar o problema, tornando-o existencial. A câmera que o filma é ela mesma um personagem que representa muito bem um papel que poderia ser resumido numa questão elementar do filme: caso o nosso passado nos cobrasse, em um determinado momento da vida, suas contradições, o que faríamos?

Essa questão jamais poderia ser feita, com tal poder, ao se personalizar a autoria das fitas. Elas ganham enorme força, pois as filmagens de Caché fazem parte de um atributo artístico para ensejar uma reflexão generalizada e existencial. O que está em jogo não é a culpa de um ou outro personagem humano, não se trata de autoria como em Cabo do Medo. Trata-se da questão existencial do filme - o que faríamos caso nos cobrem o peso do nosso passado? Há nisso não uma restrição, como no filme de Scorsese, fixada entre dois personagens; pelo contrário, há uma metáfora cinematográfica (as fitas) acerca de questões humanas.

E é isso que perturba em Caché, pois quanto mais anônima e despersonalizada se tornam as fitas, mais violentas se tornam as ações de Georges, a suposta vítima. Se há no filme violência explícita, ela é realizada por ele ao pressionar seu "amigo" de infância, provocando o seu suicido.

O interessante é pensar o quanto de Georges teríamos cada um de nós, caso recebêssemos fitas em casa cobrando o nosso passado. Ao proporcionar essa questão por meio da suas filmagens não-autorais, Caché torna pública uma questão particular e deixa o terreno da culpa - típico de uma cultura moralista americana - para passar à existência, uma tradição francesa.

2 comentários:

Anônimo disse...

Thiago, gostei bastante do seu texto crítico sobre os filmes, sobretudo a análise que faz do Caché.
Você deve manter esta qualidade, escrevendo sempre sobre os filmes que assiste!
No entanto, tenho algumas ressalvas sobre as comparações que faz com o "O cabo do medo". Primeiro, porque são abordagens diferentes. O filme de Scorcese não dialoga com a narrativa clássica "tipicamente americana"(eu considero uma generalização meio perigosa), pois não há um herói ou personagem com objetivo bem definido - talvez o bandido querendo vingança. Ambos, advogado e bandido, são contraditórios, principalmente o primeiro, e o sentimento de culpa não salta ao nossos olhos, ao meu ver. O advogado crê ter feito a coisa certa ao negar ajuda a um psicopata(até onde isso é certo e errado, bom ou ruim?), que construirá sua vingança de maneira "legítima" - o ponto forte do roteiro e que foge da narrativa clássica. Eu não acho que há no filme dicotomia, bem e mal...são sutis as diferenças.
Acho que a questão da autoria do terrorismo é a principal diferença entre os filmes, e, como você, prefiro a abordagem do filme francês, que nos faz refletir bastante sobre o mundo em que vivemos.
Mas o filme de Scorcese, principalmente nesta fase de sua filmagem, não pretende(e para mim ele consegue)ser moralista ou apontar culpados. É uma estória interessante, com um roteiro e argumento fechados, mas bem feitos.
Diria que o forte do filme de Scorcese - e de outros dele - são os personagens(o bandido), e o de Caché é a situação em que se encontra, e a consequente reflexão sobre ela.
Bom, apesar de divergir de você neste ponto, gostei muito do seu texto, e acredito que a melhor maneira de pensar e entender um filme é escrever sobre ele, o que pretendo fazer com mais freqüencia.
Até mais!

TV COL disse...

obrigado pela visita e gostaria de dizer que está convidado a escrever aqui.

O objetivo do texto não é exaltar Caché e depreciar Cabo do Medo. Se assim parecer, a falha é toda minha.

Mas, mesmo criticar um filme duramente é uma maneira de cultivá-lo, pela negativa.

Você está totalmente certo quando põe em dúvida o fato de em "cabo do medo" haver uma dicotomia tão "crua" entre bom e mal.

Ao indicá-la aí, só quis ressaltar o quanto ela é diferente de Caché ou mais definida e sugerida em Cabo do Medo.

Uma melhor análise desse aspecto exigiria mais discussão e uma análise mais focada em "Cabo do Medo", o que jamais seria uma perda de tempo ou algo assim. Também é um ótimo filme, que propõe várias reflexões.

A dicotomia era uma hipótese, que contestada, torna-se mais instigante e mais urgente observá-la.. assim que puder, vou ver Cabo do Medo novamente...

abraços
thiago.

 
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