21 de ago de 2006

O Arco e a linguagem do cinema

Abusar da linguagem cinematográfica como uma linguagem artística independente das demais, realizando - de fato - uma sétima arte, é tarefa para poucos cineastas. Não se trata de idealizar tal opção, mas constatar que, assim como nos filmes Antonioni, O Arco de Ki-duk kim realiza um cinema, onde a imagem em movimento é o elemento narrativo central.

As personagens principais - o velho que aluga o seu barco para pescadores e a menina criada por ele - não dizem uma frase sequer ao longo do filme. A movimentação, as ações, os olhares são os únicos responsáveis pelo duelo travado por esses personagens ao longo do filme. A fala parece ser resguardada para os clientes do velho, como um atributo dos homens do mundo moderno que chegam no barco para pescar, mas também para cobiçar, tentar abusar da menina e para caçoar do velho. Este responde com flechadas as provocações modernas e expulsa os clientes mais abusados.

Nesse cotidiano de uma comunicação conflituosa entre os clientes e as flechadas do velho, a menina cresce com o seu protetor, responsável por uma série de tradições e rituais na educação da menina, preparando-a para a vida adulta, momento em que ele se casarão. Esse ambiente da tradição funciona tão harmoniosamente bem que mesmo nos momentos em que o velho é agredido e aprisionado pelos "clientes", a menina também o protege, atacando-os com as flechas. A tradição sustentada pelo velho vive sua harmonia interna e por um longo período sobrevive e se reforça com os contatos cotidianos com os pescadores turistas que visitam o barco.

Até o momento em que o mundo moderno, encapado pelos turistas violentos e agressivos, apresenta-se radicalmente diferente na pele de um rapaz que visita o barco e estabelece um relacionamento amistoso com a menina, ao contrário dos demais. A partir daí, há um estupendo abalo na tradição, manifestado na interferência positiva que recebeu do mundo antes visto como apenas abuso e violência.

Trava-se nesse momento um belo duelo entre a liberdade do mundo moderno liberal e a segurança e harmonia da tradição cultivada pelo ótimo relacionamento entre o velho e a menina. Inicialmente inclinada para a liberdade, a menina compreende a destruição que causa ao mundo que a formou. A complexidade com que o filme trata a questão sem o uso da linguagem falada é surpreendente. O velho duelo entre a liberdade e a tradição nos lembra outros filmes que trataram da mesma questão, tais como Abril Despedaçado e Lavoura Arcaica.

Recheado de atitudes sem palavras, a produção coreana e japonesa lança uma questão para a arte ocidental: o cinema é a arte da representação das diversas linguagens existentes ou do sujeito que discursa, logo existe? No ocidente poucos achariam justa essa questão, a não ser que tenham acabado de ver um filme oriental como O Arco.

8 comentários:

Roberto Vagner disse...

estou sem net, mas eu volto!

JAIR disse...

Pois é, essa necessidade basal de buscar emoção numa estória me levou a procurá-la no filme "O Arco”, película nipo-coreana de 2005 que conta a estória de um homem de sessenta anos que vem criando uma jovem num barco de pesca em alto mar, desde quando esta tinha sete anos. O combinado é que se casariam quando ela completasse 17 anos e faltam poucos meses para que ela complete essa idade. Eles vivem de uma forma simples, tocando um instrumento que é um misto de violino com berimbau e alugando o barco para pescadores esportivos. Começa a trama óbvia do filme, chega um pescador jovem pelo qual a menina se apaixona o que causa ciúme no velho. Daí para frente a atmosfera é uma sucessão de anticlímax, de vazio existencial chocho, sem mérito; em nenhum momento a jovem ou velho falam, não há diálogo, não há palavras, só gestos, olhares, bocas e nada mais. Nada que emocione, nada que injete alguma edorfina no sangue, nada que traga algum suspense, alguma sensação de medo ou expectativa, algum desconforto para quem está assistindo, ou alegria de ver uma boa estória, uma estória bem contada. A única impressão forte que imprime na nossa mente é que o filme deve ser obra de uma genialidade tal que está acima da compreensão de pessoas normais; ou de uma estupidez que beira o insulto a uma inteligência mediana de um ser mediano, como a maioria. Em ambos os casos o sentimento predominante é que sairemos frustrados se o lograrmos assistir até o final: ou não conseguimos captar a mensagem porque esta está acima de nossa capacidade de entendimento; ou está tão abaixo da crítica que estamos perdendo nosso tempo. A frustração e a raiva, ao contrário das emoções de impacto leve, são sensações extremamente negativas. O fato concreto é que, ao invés de proporcionar divertimento, emoção, deleite pela apreciação do belo, da arte criativa, dos finais felizes, o filme traz unicamente frustração, o espectador sai do cinema triste e puto da cara por ter assistido a tão nefando entretenimento. Bolas!! Ainda bem que meu semancol funcionou e saí na metade da fita, poupei-me de maiores chateações. JAIR, Floripa, 18/04/09.

Hero disse...

Não gostei desse filme. Parece uma apologia ao aliciamento de menores e o que vc chama de 'tradição' eu chamo de lavagem cerebral em menores. Ele a afasta da realidade pra que se torne aceitável para ela que uma pessoa como ele, que é a imagem que ela tem de um pai, pois a criou desde os 6 anos, se case com ela e tenha relações com ela.
Se é um filme inovador e sensível, essas qualidades não estão sendo bem usadas.
A frase final do filme, que supostamente é a moral contida nele, algo como "Quero ser o arco sempre retesado que lança a flecha", parece um antigo provérbio que no filme teve seu significado distorcido. O velho estaria 'lançando' a menina para a vida 'iniciando' ela com uma relação sexual em que ela perde a virgindade? Com o homem que deveria ter sido como um pai pra ela?
Detestável.
Parece que tentaram esconder esse fato fazendo ela ter a relação com o espírito do velho, representado pela flecha que cai entre as pernas dela. Uma tentativa de passar uma mensagem subliminar horrível.

Hero disse...

Não gostei desse filme. Parece uma apologia ao aliciamento de menores e o que vc chama de 'tradição' eu chamo de lavagem cerebral em menores. Ele a afasta da realidade pra que se torne aceitável para ela que uma pessoa como ele, que é a imagem que ela tem de um pai, pois a criou desde os 6 anos, se case com ela e tenha relações com ela.
Se é um filme inovador e sensível, essas qualidades não estão sendo bem usadas.
A frase final do filme, que supostamente é a moral contida nele, algo como "Quero ser o arco sempre retesado que lança a flecha", parece um antigo provérbio que no filme teve seu significado distorcido. O velho estaria 'lançando' a menina para a vida 'iniciando' ela com uma relação sexual em que ela perde a virgindade? Com o homem que deveria ter sido como um pai pra ela?
Detestável.
Parece que tentaram esconder esse fato fazendo ela ter a relação com o espírito do velho, representado pela flecha que cai entre as pernas dela. Uma tentativa de passar uma mensagem subliminar horrível.

Mr. Sombra disse...

Aos que não viram, podem ler esta crítica à vontade, pois não contém “Spoiler”.

Vejam “Hwal” sem ler a sinopse, a surpresa será maior.
Kim Ki-duk e seus filmes distintos, estranhos e poéticos. “O Arco” é ousado, corajoso, desconcertante, incômodo, bizarro e a pessoa que assiste sente esse peso nas próprias costas, não pelas cenas fortes (porque não tem momentos pesados), entretanto, pelo tema que é tratado, ainda mais na atualidade que casos do tipo estão ocorrendo com frequência. O grande mérito do longa é a capacidade extrema de provocar essas sensações. Mais uma grande obra do Cinema Oriental, sem dúvida.

Só não é considerado o teor muito controverso porque o Kim sabe fazer filme com muita beleza e sensibilidade, um exercício musical e de poesia, um “cinema-arte” incrível. A trilha sonora, como já foi destacada pelos críticos, tem uma fusão muito harmônica com as cenas, elevando ainda mais os sentimentos.

O desenrolar da história é de um total anticlímax, a gente deseja profundamente uma reconciliação heróica por parte do senhor homem, todavia, percebemos a pura realidade de um filme fora dos arquétipos, que possivelmente isso não aconteça, que possivelmente não nos agrade em termos de ideologia, mas nunca em termos cinematográficos, porque tudo é feito com muita dignidade e com marcante diferencial, pelo menos para os cinéfilos apreciadores do estilo raro, especial; pois não é uma película para qualquer um.

Um filme inesquecível, para ficar na cabeça mesmo. Procurem ver mais trabalhos desse cineasta coreano, ele é ótimo.

Resultado: Maravilhoso!

Blog: http://cinelevesresenhas.blogspot.com/2011/10/o-arco-2005.html

Anônimo disse...

Sr. Hero, que dificuldade é esta em entender uma metáfora ? Não existe apologia alguma, é apenas um símbolo que representa o velho e o novo, a necessidade de não perder os costumes passados ao se encontrar com a modernidade. Os filmes orientais chineses e japoneses também discutem esta dicotomia.

agsilva disse...

mr sombra(?) ..há outros dois filmes do diretor..A casa vazia e As estações

agsilva disse...

Mr. Sombra ..há outros dois bons filmes dele disponíveis ..A CASA VAZIA e AS ESTAÇÔES...

 
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