11 de out de 2006

Que filme? Che? What? ( Roman Polanski, 1972)

Se fosse um filme em que as cenas de sexo estivessem presentes, seria pornográfico como um quadrinho Milo Manara. Nele se vê os cortes oníricos de Fellini, mas algo mais. Foi Carlo Ponti quem se colocou presente no roteiro, produção e assistência de Polanski. Por isso é um filme diferente do diretor, uma obra mais alegre, mais otimista - na medida do possível.

Diferente porque ele deixa o suspense aterrorizante pra uma comédia onírica, que por remeter-se à insegurança de acontecimentos do sonho, também se caracteriza como suspense. Mas nada assusta. Estamos num mundo à beira da praia, umas férias, numa poesia que acalma e excita. A personagem da poetiza não larga seu diário durante todo o filme, e ela, na sua maior parte, fica nua, fazendo-nos ficar extremamente ligados ao filme. Esse erotismo é artifício de narração, como Manara faz: veja a semelhança da atriz Sydne Rome com as mulheres desenhadas por ele. Uma modelo, apenas. Ela é desejada sexualmente até mesmo por cães, e se torna a cobiça da mais nova arte que se desvenda aos nossos olhos.

Uma arte meio vazia, kitsch, carnavalesca, circense e, claro, sacana. A mulher aos olhos dessa arte é um corpo que nos atrai, sua beleza é mais que a forma procurada, desejada – é uma forma divinizada, misteriosa. Não há paródia dentro da publicidade do corpo nu eroticamente explícito - não há mesmo. Nós aceitamos o espetáculo pobre em artifícios racionais e corremos como cachorros tarados atrás de um corpo belíssimo de uma poetiza espontânea, ingênua, juvenil e feliz.

Essa é a felicidade de um sonho bom, de uma passagem à irrealidade do sexo latente. Foi isso que os anos 70 conseguiram levar ao status do Pop, uma arte nova, que novamente usava a sedução para atrair público e nos evidenciar o hedonismo.
Sim, o filme é uma comédia... Mas uma comédia inusitada. Nos lembra algo que no Brasil se costumou chamar de pornochanchada. Óbvio que com mais apuro estético – isso acontece quando a Nobre Arte, personagem do filme que é dono de todo o cenário que vemos, o senhor Noblart, morre e algo novo surge, junto à porcaria que leva a poetiza à Istambul, o lugar do exotismo para o velho mundo. Durante todo o sonho fetichista, um soldado francês conversa com um brigadeiro francês, e a Itália é refúgio ao modo simples de se ver o mundo difundido pelos americanos. A arte nova está lá, no Velho Mundo, onde estava uma velha morta também. Nietzsche que o diga.

Mas o senhor Noblart não morre antes de ver algo que antigamente o dava instigação à vida – a vagina da nova poetiza, da nova arte, que não é mais apenas uma sereia sedutora que desvirtua os heróis, mas a própria heroína que sente prazer em todos os lugares por onde passa, na irresponsabilidade bonita de uma criança adulta cheia de libido. Ela conhece o universo do filme, sabe que ele é filme, libera o dispositivo aos espectadores que babam para a movimentação de seus seios (assim como os personagens masculinos do filme, jovens ou velhos).

Dos presentes à ceia familiar, apenas Alex (Marcelo Mastroiani) sabe que ela, a poetiza é manipulável. Mas à base da violência, somente. Violência que ele, como um bom Autor de realidades fetichizadas, adora dar e receber. Não é o fim dos tempos retratado? Na verdade todos preferem achar que o fim sempre esteve presente – apenas agora ele se mostra. Um fim sem teleologia, sem sentido – sem fim.

2 comentários:

ajay disse...

really sexy photo of naked women...
hey i'm not joking realy good one..
do mail me
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ajaykumar127@gmail.com

Fernando Niero disse...

Belíssimo texto!

 
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