12 de mai de 2008

"Fantástico" tem maior audiência do ano e pico de 43 pontos com mãe de Isabella


O varejo das almas


?quanto vale a vida?
?quanto vale a vida na última cena
quando todo mundo pode ser herói?


Engenheiros do Hawaii


O "Fantástico" teve sua maior audiência do ano neste domingo (11) com a exibição de entrevista de Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella Nardoni. O programa registrou 33 pontos de média no Ibope e 50% de participação. O pico foi de 43 pontos no horário da exibição da entrevista. O programa foi ao ar das 20h51 às 23h15. Cada ponto no Ibope representa cerca de 55,5 mil domicílios na região pesquisada (Grande São Paulo).

No Brasil, não há nada mais cinematográfico que a TV Globo. Cinematográfico no sentido de alcançar o objetivo primordial e mais elementar do cinema: fazer crer. Como um gigante desgovernado em meio a um país com uma pré-disposição histórica para o autoritarismo e as mais variadas formas de violência, essa emissora associou o "caso Isabella" e a crise do Fantástico.

A Isabella (esse nome ecoa pelos ouvidos e se propaga pelo ar em todo o Brasil) já está morta e o Fantástico está em coma, em vias de morrer, mas a TV Globo, para salvar o Fantástico, prossegue o martírio televisivo em torno desse crime, assassinando a Isabella diariamente há mais de um mês. É um fabuloso exercício da liberdade de imprensa em nome do ibope, das contas publicitárias. Frente a isso, quanto vale o luto, a dor, o sentimento dos mais próximos à vítima? A desfaçatez é tanta que o show já doou aos milhares uma intimidade tal com a vítima, capaz de dotá-los de uma intromissão afetiva no luto alheio. Há massas inteiras que amam uma Isabella que só conheceram morta. Isso, só um espetáculo cinematográfico dos mais refinados poderia produzir.

Nunca é dito que expor essa morte por mais de um mês é uma violência contra as pessoas envolvidas, pois é inevitável não aparecer no espetáculo global, que dorme em frente à casa das pessoas e carrega atrás de si uma multidão que, órfã da justiça e de deus, quer esfolar o primeiro que as câmeras apontarem. Nesse momento, as câmeras de TV, singelos instrumentos da liberdade de imprensa, se tornam armas de violência. Mas, de uma violência mais sutil e poderosa, disfarçada na curiosidade falsa dos que vendem as almas alheias para que as contas publicitárias dos sabonetes, dos carros e dos bancos tenham consumidores garantidos. No reino da liberdade absoluta da imprensa de violentar a todos, os cidadãos se tornaram consumidores, munidos do seu direito universal de consumir.

O nome "Isabella" não pára de ecoar nos ouvidos. A TV Globo e seus parceiros agradecem.


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