3 de mai de 2008

Histórias e Memórias dos Aflitos


A Batalha dos Aflitos é um filme memorável, pois retira da banalidade, do continuum da história, um jogo de futebol. Conclama os espectadores ao refletir, à rememoração de um evento ímpar, que extrapola o campo temático do futebol para detonar todo um conjunto memóravel de sentimentos, de valores, de experiências que, ao se catalisarem no evento futebolístico, relembram o significado do esporte e do futebol como evento social e político, motor das relações humanas entre os homens, em confronto com o tempo.

Esse tempo, narrado por meio da trajetória de superação do time gremista, tem tudo a ver com a história. Com a história que não é um amontoado de fatos e jogos, como deixa transparecer a chata e conservadora cobertura da imprensa futebolística, em meio aos seus devaneios pseudo-técnicos. Esse filme é uma afronta ao futebol técnico, à discussão de especialistas, o que é, na verdade, o triunfo do vazio político dos dias atuais também sobre o futebol, um evento social que, por essas e outras, tem sido esvaziado de sentido, dia a dia, em nome do espetáculo da fama e dos astros particulares.

O triunfo gremista é a resistência futebolística da coletividade, do esforço que não advém da fama dos jogadores de botique, mas sim do abraço apertado em meio ao suor de um ano inteiro de sofrimento e agonia. Por isso um filme é necessário, não para mostrar as jogadas deste ou daquele jogador, mas para mostrar a camisa tricolor numa variedade de corpos, que só são êxitosos se vistos em conjunto, na sua obra construída ao passar dos dias, e não nos instantes de genialidade individual, tão efêmeros quanto à bestialidade dos astros, antes pobres, que adentram vorazes a sociedade de consumo aos olhos de um conjunto de fãs, ora invejosos, ora movidos por um culto doentio à fama.

O tempo do filme é o tempo do discurso, o tempo da narrativa. Um tempo que corre ao mostrar os jogos que levaram o Grêmio à segunda divisão e à fatídica partida contra o Naútico. Durante a Batalha dos Aflitos, o tempo se dilata e dá voz aos depoimentos de figuras como Jorge Furtado, Humberto Gessinger, Gerbase, ao jornalista "exílado" num pub europeu. Duas histórias contidas nos extras do DVD, estranhamente, ou infelizmente, não compuseram o corpo do filme, mas são da maior importância para dimensionar o filme como um documento da história futebolística do país. O médico que lê a batalha do Grêmio no prisma da dor familiar, numa ponte de rendenção da dor de não ter o irmão ao seu lado, pois falecera sem assistir àquele momento. O outro depoimento é o do torcedor que adiou a lua-de-mel para assistir ao jogo, depois da devida autorização da recém esposa, que já, tão logo, deveria se abrir às concessões de âmbito passional.

Essas histórias dão um calor ao episódio e são acaloradas por ele. Há uma via de mão dupla, de modo que a paixão pelo futebol jamais se faz de maneira incondicional. Ao contrário, ela é posta, ora a favor, como no caso do médico, ora contra, no caso da lua-de-mel. Muito ao sabor da crônica esportiva que já se faz escassa na atualidade, o futebol se presta como ponte social, ao estabelecer mediações com uma série de eventos trágicos ou cotidianos, que se relacionam com a sociabilidade esportiva. Sem esse diálogo, o esporte se torna um evento naufrágo em meios aos homens que jogam e assistem, alheio ao comércio e ao espetáculo desprovido de sangue e carne. E como bem mostra o filme, desprovido também de lágrimas.

Por tudo isso, a narrativa audiovisual criada não é um evento gremista, como o torcedor mais fanático poderia se deixar iludir. As imagens são metáforas que nós conclamam a olhar para a diversidade dos sujeitos que compõem a história, seja ela do Grêmio, de outro time ou de qualquer outra situação fora do futebol. Assim como o hino da torcida corintiana "Corinthians minha vida, Corinthians minha história", estamos sempre diante de significados que extrapolam o esporte e se inscrevem de diversas formas na vida social, política e econômica.

Por mais que a mídia televisiva, e até mesmo a escrita, contribua para deslocar o futebol da esfera cultural, social e política da sociedade, não se pode dizer que esta esfera não esteja aí disfarçada em meio da sisudez das tabelas, dos números e, até mesmo, nas falcatruas e robalheiras frequentes. Resta ao olhar astuto e socializante arrancar da frieza dos resultados o calor do fenômeno cultural.

Gremistas, não se enganem. As batalhas não são exclusividade dos que vão "aonde o Grêmio estiver". Elas estão aí, acontecendo a cada jogo, e contuarão acontecendo. Resta saber o que o olhar fará delas. Os cineastas de
A Batalha dos Aflitos fizeram dela um evento histórico. Há os que preferem fazer da cultura futebolística uma bolsa de valores. O jogo ainda não acabou, não podemos desistir agora. Ainda mais depois desse filme.

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