7 de jul de 2008

Em Cartaz: "ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO"


30 minutos no paraíso...

É uma metáfora que o veterano realizador Sidney Lumet apresenta no início da trama de seu filme mais recente, Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (Before the Devil Knows You're Dead, 2007), pois 30 minutos no paraíso é a sensação da família Hanson, antes da tragédia que ocorrerá em um assalto tramado pelos irmãos Andy e Hank, interpretados respectivamente por Phillip Seymour Hoffman e Ethan Hawke, acarretando consequências dolorosas em uma família distante de seus entes e degradada nas suas relações humanas. Lumet, que possui entre alguns títulos na sua filmografia trabalhos como 12 Homens e uma Sentença (1957), Serpico (1973), Assassinato no Expresso Oriente (1974), Um Dia de Cão (1975) e O Veredicto (1982), rege um elenco de 1ª que ainda conta com Albert Finney e Marisa Tomei.

Os irmãos Hanson são independentes dos pais, contudo possuem problemas como dívidas e instabilidade familiar nos seus relacionamentos. O corretor de imóveis Andy (Hoffman) propõe a seu irmão mais novo, Hank (Hawke), uma solução para resolver parte de seus problemas: um assalto. Todavia, não é um simples assalto que sanará suas dívidas – tem que ser algo seguro, algo que eles conheçam, como um negócio familiar. Por isso, o alvo escolhido é: uma joalheria. De propriedade de seus pais, a loja possui seguro e não causaria maiores danos materiais aos proprietários. Mas, quando põem em prática a ação, termina o que seria sua meia-hora no paraíso e os membros da família Hanson conhecerão o inferno, proporcionado pelo fracasso da ação.

A densidade da trama é construída pelo ótimo roteiro assinado por Kelly Masterson, que, por meio de flashbacks, monta um mosaico de situações antes e depois do ato ilícito e da tragédia. O patriarca da família Charles (Finney), inconformado e sem ainda entender o porquê da tragédia, parte em uma dolorosa busca pela verdade e para achar os culpados. Enquanto os irmãos tentam por todos os meios eliminar as evidências que possam ligá-los ao crime, nesse momento as aflições de cada um vêm à tona: casos obscuros, relacionamentos extraconjugais, consumo de drogas e fraudes dão uma dramaticidade ímpar à trama.


As mazelas familiares são expostas, a autoculpa da criação e rejeição por meio de questionamentos fazem de Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto uma forma pela qual Lumet apresenta, via cinema, as consequências da desestruturação familiar e ambições ilícitas do sonho americano. Pois mesmo com os problemas vividos pela família Hanson, os mesmos não tinham noção do paraíso em que viviam. No entanto, a ambição e inconsequência tornariam suas vidas um inferno sem fim. Melhor dizendo, com um fim buscado de forma incessante pelo patriarca Charles Hanson.

Obscuridade é corriqueiro na vida dos personagens, ao longo do filme cada um deles é retratado antes, durante e após a tragédia, as ambições e casos extraconjugais do casal Andy e Gina, a falta de perspectiva de Hank e o aparecimento de alguns personagens que ameaçam sua situação enriquecem o desenrolar do filme. Sem a pretensão de comparar ou mesmo de fazer uma analogia entre Crime e Castigo, de Dostoievski, a fita de Sidney Lumet retrata a agonia, inconformidade, falta de escrúpulo, desintegração familiar e outras intempéries que ocorrem no destino de cada personagem ao longo das semanas que circundam a tragédia.

E são a tragédia e os aspectos citados da trama que fazem da fita de Sidney Lumet um dos melhores filmes da temporada, por fugir do padrão convencional de dramas familiares que Hollywood derrama anualmente nos cinemas. Apreciar os méritos da construção do filme por meio de seus fragmentos dramáticos e, ainda, analisar as relações pessoais, são peças fundamentais para que os 30 minutos no paraíso sejam o apêndice antes que o diabo descubra as peripécias das ambições humanas e julgue-as de forma implacável.

3 comentários:

Santiago disse...

bom texto, hudson. fiquei interessado em ver o filme.

Alessandro de Paula disse...

Ah, esse eu tenho aqui. Qualquer hora dessas, eu confiro!

Tinha dito antes e digo agora: gostei, Hud! :-)

Di Carlo disse...

Sidney Lumet é uma boa pedida. Pelo menos é certeza de um filme correto.

 
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