15 de jul de 2008

O curta por um contista, em cinco tópicos desesperados

As relações entre a tensão narrativa do conto moderno e do curta-metragem já foram muitas vezes objeto de estudo. Entretanto, enquanto o conto já é arte consagrada em si, o curta parece rebaixado ao nível de degrau para novos cineastas, ainda que seja cultuado por grandes nomes. Aqui vão pequenas regras de narração, do ponto de vista de um contista, aplicadas à narrativa de curta-metragem.

1 – Um conto não é novela, um curta não é um longa. São artes próprias, dificilíssimas e com suas próprias regras e estruturas. Se a novela derrota o leitor por pontos, dizia Cortázar, o conto deve ganhar por nocaute.

2 – O eixo de um conto-curta está na trama, não no personagem. Enquanto na novela-longa o personagem deve ter vida, profissão, amores, familia e crises existenciais, no conto-curta é o contrário: só tem o que a história pedir e só faz o que a história mandar. Todo o restante sobra e deve ir para o lixo.

3 – É sobretudo no ritmo que ambas narrativas diferem mais: a novela-longa é como uma cobra que se mete pela janela, se infiltra no quarto, se mistura aos lençóis, vai enroscando o espectador até a asfixia; o conto-curta é uma flecha, já nasce com destino certo, não admite desvios e deve sempre manter a tensão para ter êxito.

4 - Tchecov dizia que se alguém coloca um prego na parede, em um conto, é porque um quadro vai ser pendurado. O tamanho de um conto-curta não é pequeno por falta de espaço, mas por uma necessidade técnica da história que se conta. Quase tudo é supérfluo. Só o que importa é o que compõe a espinha dorsal da história.

5 – O tempo reduzido do conto-curta permite que o espectador mantenha a tensão durante toda a história. Não há altos e baixos. Allan Poe chamava esta característica de efeito único, como a unidade dramática do curta. A falta de tempo, a priori um problema, vira um desafio: impactar da maior maneira possível ao espectador. Para isso, o único abuso que se pode cometer é o da economia narrativa. Tensão! Tensão! Tensão!

Para quem quiser descubrir mais sobre as técnicas do conto e suas relações com a narrativa de curta-metragem, vale a consulta do decálogo do uruguaio Horácio Quiroga e as técnicas de Tchecov, Poe e Cortázar. Disponíveis em qualquer Google de plantão.

2 comentários:

anakan disse...

esse Chejóv ai eh Anton Tchecov, certo?

Alessandro de Paula disse...

Andei pesquisando pra me certificar se era Tchecov mesmo. É.

Já que o texto está em português, devo, já que eu reviso os textos do blog, corrigir de acordo com a grafia utilizada em português.

Afora isto, é um texto bem-vindo. :D

 
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