31 de jul de 2008

"PASSOS" por Federico Luppi

Comentários do famoso ator argentino sobre o seu primeiro filme como diretor: Passos (2005).


"Tinha estado em Espanha até uns dias antes do golpe de Estado do 23-F; voltei a Argentina com a imagem de um país que trabalhosamente se ia inserindo em inovadores caminhos democráticos. As complexisimas idas e vindas entre as diferentes forças políticas pareciam afirmar-se e dar frutos concretos".

"Em meu país, a ditadura não dava sinais de desgaste e Espanha aparecia como um modelo esperançoso para ser imitado no momento oportuno. A notícia do Tejerazo paralisou nosso espírito e nos invadiram um lamentar e uma pena dificilmente descrevível. A história parecia empenhar-se em amargurar Espanha que tentava deixar atrás um cru período de invalidez e quietismo".

"Aos poucos dias renascia a política, e a Coroa e as instituições retomavam seu caminho com vigor e decisão. Sentia-me fazendo parte desse futuro que Espanha procurava com tanta afeição e cada passo positivo repercutia em mim como se fosse um esforço próprio".

"Quando anos mais tarde Susana Fornos me mostrou o material que dramatizava esse dia e o ano subsequente, senti que falava de minhas próprias expectativas, já que tão proximamente o tinha vivido".

"Esses três casais que tinham nascido e crescido sob o franquismo e que recusam abertamente a aventura militar se assomam, conjurado o golpe, a esta Espanha que, agora sim, via livre o caminho para uma estreita integração com Europa e o mundo".

"O horizonte da convivência se povoava de tentadoras possibilidades e as vontades de crescer e viver plenamente esse futuro que já se instalava e que se exibia através de posteriores conquistas: divórcio, possibilidades trabalhistas junto com outros direitos civis para as mulheres, justiça independente, negócios novos, criatividade e imaginação, ausência de censura, tudo isso, afastada já a crispação da militância, ressoa em cada um dos personagens com diferentes diapasões".


"Cada um deles se permite escutar sua própria voz interior e, para bem ou para mau, começam a percorrer caminhos que não sempre coincidem com os sonhos juvenis".

"Por que Passos? Porque, segundo a autora, a despeito de explicações ideológicas ou sociopolíticas, os passos com que se transita na vida são a intransferível responsabilidade de quem os dá. As dores e alegrias das mudanças excedem, sempre, o estreito marco do pensamento seitário, coincidindo com o entranhável Machado: Caminhante não há caminho...".


Federico Luppi

Um comentário:

Di Carlo disse...

Federico Luppi é uma lenda. É difícil assistir um filme argentino sem a presença do ator. Até quando assisti um filme do começo da déc. de 1970, "A Patagônia rebelde", encontrei Luppi no elenco. E, agora, com todos os cabelos brancos, sua marca registrada nos últimos anos, resolve se esconder atrás das câmeras.

 
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