6 de out de 2008

Em Cartaz: "ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA"


Quando veio a cegueira branca, ninguém estava preparado. Era início de 2008 e um diretor de cinema trabalhava na montagem de seu filme. Haveria Cannes. Haveria a abertura do festival. E aquele era o filme.

Recepção fria, poucos aplausos. Estranheza. Ensaio sobre a Cegueira (Blindness; 2008) no primeiro mundo. O autor do livro cuja adaptação estava ali nas telas se emocionou, ele mesmo, que era tão reticente quanto ao projeto, anos antes.

Tanta claridade ofuscava o juízo daquela gente toda ou havia algo de errado com o filme? Isso só seria descoberto por aqui quando o filme estreasse. Claro, depois de mais alguns cortes, pra agradar a gregos e troianos - ou seriam gringos e baianos? - de Hollywood.

Setembro, dia 12. Eu não estava lá, mas depois desse dia, os comentários começaram a surgir. Era uma amiga que tinha visto e adorado. Era gente no Orkut, a maioria, entusiastas. Passaram-se uns dias e pude ver. É, o filme funciona! E como funciona!

Não cabe aqui algum tipo de comparação entre filme e livro. Linguagens diferentes salientam mais - ou menos - detalhes de uma história. Como cinema, o filme de Fernando Meirelles convence, tanto como convence o livro de José Saramago. Não digo por mim, que não li o livro, mas uma história tão intensa sobre caos e decadência render um prêmio Nobel a seu autor tem de ser boa mais que o suficiente.

O diretor de O Menino Maluquinho 2 teve um grande desafio em mãos. No blog do filme está toda a saga envolvendo o projeto, toda a construção, cada detalhe, a desconfiança do mundo. Estava tudo ali.

Pra quem não sabe, Ensaio sobre a Cegueira é sobre um grande surto de uma cegueira inédita, em que as pessoas enxergavam apenas uma claridade absoluta. A estranha doença alcançou um, depois outro... quando se pode perceber, era preciso juntar toda essa gente em algum lugar, porque tudo levava a crer que se tratava de algo contagioso. Havia o homem no trânsito (Yusuke Iseya), o outro que rouba seu carro (Don McKellar, que também foi o roteirista do filme), o oftalmologista (Mark Ruffalo), o menino (Mitchell Nye), a garota de programa que só anda de óculos escuros (Alice Braga), a esposa do primeiro homem (Yoshino Kimura), o velho do tapa-olho (Danny Glover)... todos eles confinados numa ala de um sanatório abandonado. Uma exceção: no grupo estava a esposa do oftalmologista (Julianne Moore). A única que enxergava e que, por meio de um subterfúgio, permaneceu ao lado do marido, tornando-se guia dele e de todos do grupo. Nenhum deles tem o nome citado, assim como no livro.

Há outros doentes em outras alas. Não demora a haver o choque. Um se intitula o "rei da ala 3" (Gael García Bernal). Este e seu grupo passam a controlar o repasse de comida para os grupos de outras alas. Primeiro, cediam a comida a troco de objetos pessoais que tivessem algum valor. Depois, por noites de prazer com as mulheres. Eis as cenas que causaram mais problemas para os críticos do filme: as dos grandes estupros levados a cabo pelos cegos da ala 3.


Era possível falar durante horas sobre a moralidade vazia, ou cegueira, de alguns. Claro, a violência choca. Mas algo feito assim, omitindo o que é essencial à compreensão de uma adaptação cinematográfica de um livro em que tudo está lá, principalmente a violência, seria simplesmente mentiroso. Mas o fato é que, a exemplo do que aconteceu em Cannes, Ensaio sobre a Cegueira não tem sido muito bem recebido em alguns países do Hemisfério Norte. As salas de cinema dos EUA que abrigam o filme estão esvaziadas. Uma associação de cegos quis impedir a exibição do filme, alegando que o mesmo criava uma ideia distorcida do que é ser cego. Enfim, muita bullshit. Mas voltemos à história...

Depois de um embate definitivo entre os grupos de cegos no sanatório, os vencedores escapam e dão de cara com um estado de anarquia e desespero. Não há mais governo, as pessoas, nas ruas, cegas, estão em pandemônio. Há pouca comida para tanta gente e é preciso saquear os supermercados. Nossos personagens terão de passar por tudo isso para haver uma chance de redenção.

As cenas se passam no Canadá, em Montevidéu e em São Paulo. No entanto, a ideia do livro foi respeitada e não é dito, em momento algum, o local onde se passa a história. Mas quem é paulistano, como eu, logo reconhece determinados lugares e se espanta, a princípio, quando ouve as personagens nas ruas falando em inglês. Espanto que logo passa, é verdade.

Mais um acerto de Meirelles, que desta vez muito deve à qualidade do texto de Saramago - que nem ouso questionar, pois li outros livros dele e sei do que é capaz o velho. Ainda assim, é um filme de Meirelles, que parece condensar toda sua visão de mundo. O caos de Ensaio sobre a Cegueira não é tão diferente do de Cidade de Deus, por exemplo. Cesar Charlone capricha na fotografia esbranquiçada. A trilha sonora pouco convencional dos mineiros do Uakti é certeira. As atuações estão ótimas. De Julianne Moore, se alguém falar mal, eu juro que parto pra agressão. Tudo isso me faz crer que temos mais um filme pra entrar na lista dos melhores de 2008.

E o cinema parece cada vez mais globalizado. Pode-se dizer que é um filme nacional com elenco internacional, falado no idioma do "grande império". No entanto, é um filme para a humanidade. Um filme que choca, talvez mais porque há muita gente que não quer enxergar o que pode ser o humano colocado em condições extremas. Assim como o livro. Um ensaio sobre a cegueira. Da alma.

4 comentários:

Jhésus Tribuzi disse...

O texto está ótimo, mas não sou muito fã do filme, pra falar a verdade. A sensação que ficou é que a sujeira e a degradação humana são de butique, bonitinhos e certinhos demais na sua imperfeição. O estranho é que gosto dos aspectos tecnicos quando os vejo em separado (Só a fotografia, só montagem, etc.), mas juntos...não desce, enjoa e me expulsa da trama.

O ponto alto é a atuação da Moore, de fato. O ponto baixo é a trilha sonora, que não cabe de forma alguma.

Alessandro de Paula disse...

Jhésus, quando você fala em "sujeira e degradação humana de butique", talvez você fale da estética de Meirelles, que já é bem perceptível em Cidade de Deus - no entanto, não sei se você aplica essa sua impressão a toda a obra dele.

Não atentei pra isso no momento do escrever sobre o filme, mas agora, após ler o que você diz, e tendo conversado com o Di pelo MSN, vêm expressões à minha cabeça: "esteta da desgraça", "rímel para a miséria", "um hospital sem cheiro de morte".

Talvez um exagero, talvez não. O cara era publicitário. Maquiar realidades é com ele mesmo. Então temos, na obra de Meirelles, um paradoxo? Alguém que quer mostrar uma visão de mundo, mas um conceito que traz consigo todo um aparato que serve à estética.

Li no blog de Ensaio... sobre as tantas vezes que ele teve de editar o filme (tanto que houve mais edições depois da exibição em Cannes, até o filme chegar aos cinemas daqui). Havia uma preocupação enorme em ser aceito, de que o filme fosse visto pelo máximo de gente possível. Isso é uma coisa, mas há outra: teria pensado ele também nos afagos, nos aplausos, nos prêmios? Vaidade é um problema...

Não sei, não digo que está absolutamente incorreto, que o filme é um lixo, mas é bom ver não só o filme, mas a obra do diretor sob outro prisma.

Aliás, embora tenha pensado em Cidade de Deus como um exercício brilhante em termos técnicos, já havia feito esse tipo de reflexão sobre o filme como algo "vampírico". Afinal, extrai-se da miséria um trabalho artístico, mas aos miseráveis... o que é dado? Não são os profissionais envolvidos no filme que sentem a miséria na pele. Tampouco nós, que vamos às salas de cinema. E não parece que as coisas melhoraram muito a quem sente na pele. Ou talvez esteja sendo muito idealista e "as-coisas-são-assim-mesmo".

Como alguém que pretende seguir a carreira de escritor e, se acreditasse em certas coisas que as pessoas acreditam, eu tenho que dizer: "Deus permita que eu não me torne cego."

E isso remete à preocupação da personagem de Julianne, a de "ser-a-próxima-a-ficar-cega". Por não ter lido o livro, não sei sei ali a personagem funciona como alter-ego do Meirelles ou do Saramago, mas... o risco sempre existe. Sempre!

T A T U disse...

Não vi. Li metade do livro. Não consegui terminar por causa da pós. Mas o livro ainda me espera e eu o espero, na verdade: eu o espero. Ansiosa. Mas quero muito ver o filme, muito mesmo! E acho que verei antes de ler todo o livro, o que eu acho uma pena! Mas irei!

Leandro disse...

não tenho vontade em assistir o filme, li o livro e acho que o filme não seja capaz em mostrar todo aquele intenso sentimento que tive ao ler o livro, sem falar de todo o detalhamento que o livro transmite, quero ter boas lembranças da obra de José Saramago.

cada pessoa que ver essa obra passa por um sentimento único, uma obra perfeita, todo esse caos que aconteceu na obra, acredito que seria verdade, toda a fragilidade que teríamos ao perder a visão, tornaríamos mesmos vulneráveis ao irracional.

não gostei da idéia do autor sobre a necessidade de haver uma liderança para controlar a raça dos cegos, dizendo o que fazer, impondo leis, regras e etc. José Saramago passou a idéia da necessidade do governo, e isso fugiu do meu ponto de vista.

esse meu 1º contato com a obra do autor foi bacana, pretendo conhecer mais obras dele.

 
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