18 de out de 2008

Os Vários Instantes de John Cassavetes - Parte V: "UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA"

Tenho imensa admiração por uma seqüência que ocorre mais ou menos durante a primeira hora de filme. Ela começa com Mabel Longhetti (Gena Rowlands), no meio da rua, esperando os filhos chegarem do colégio. Como o ônibus está demorando muito, a mulher começa a perguntar para os transeuntes sobre a hora certa, mas nenhum responde. O contraste é óbvio: Mabel se veste de modo estranho, murmura – vez ou outra – coisas incompreensíveis e gesticula de forma afetada; os outros que passam pelo local estão bem vestidos, comportados, seguindo as regras sociais. Com o tempo os filhos chegam, e a mãe, alegre, os leva até em casa, onde irão acabar recebendo um casal de amiguinhos trazidos pelo Mr. Jensen (Mario Gallo), homem que, assim como aqueles que transitavam pela rua, vai acabar se sentido imensamente incomodado pelo jeito da Sra. Longhetti, concluindo, tal qual a maioria dos personagens (e dos expectadores do filme) que ela é louca. “Sim, ela é. Mas e daí?”, pergunta Cassavetes.

Uma Mulher sob Influência talvez seja o trabalho mais conhecido de John Cassavetes, o que não quer dizer necessariamente que seja o mais fácil de ser digerido. As manias estão lá, as obsessões também, mas engana-se quem acredita estar vendo apenas um estudo “realista” de uma mulher com problemas mentais e a luta do seu marido Nick (Peter Falk) para superar tudo. O próprio filme acaba por sabotar essa abordagem logo depois de uma hora e meia de projeção, onde descobrimos que, apesar de toda a loucura e maneirismos da personagem principal, o cineasta quer falar da tal influência presente no título. Mas influência de quem, por qual motivo? Bem, ai é que está a graça da obra.

Comecemos por um detalhe: A capa e os pôsteres promocionais do filme. Não é por acaso que, além de Rowlands, temos quase sempre a presença icônica de Peter Falk, que nem sempre surge naquela pose clássica de marido preocupado e carinhoso, mas sim expressando uma espécie de intensidade latente, seja no gesto corporal ou numa expressão facial, que pode ser facilmente interpretada como raiva ou impaciência. Isso quer dizer que ele odeia a mulher? Não, e quem assiste o trabalho sabe do amor que o homem nutre pela esposa, mas que os problemas de Mabel começam a partir do momento em que ela tem de lidar – e seguir as regras – de outros, começando pelo próprio marido e passando pela sogra, pelos amigos de Nick, pelo médico Dr. Zepp, etc.

Sim, Mabel é louca, mas isso não deveria incomodar tanto, e, na verdade, não incomoda. A princípio qualquer um acha graça do seu gestual, do seu modo de falar, interagir, e o tom do filme seria esse caso não começássemos a ser bombardeados com comentários sobre o quão estranha e ruim da cabeça ela é. Tais comentários começam a surgir logo depois das duas primeiras seqüências do filme e, lentamente, o incomodo vai se instalando. Cassavetes trabalha a construção do clima de forma perfeita e, graças aos diálogos entre um ou outro personagem, gestos depreciativos de alguns amigos de Nick, e a postura do próprio marido, entramos na onda de todos e começamos a achar necessário que alguém dê um jeito na mulher.

A cena do espaguete é um exemplo perfeito dessa construção da sensação de incomodo. Em principio o que vemos é uma mulher simpática, tentando, do seu modo peculiar, agradar a todos, mas o que começa com risos e cantoria vai, aos poucos, tornando-se um mal estar generalizado, tão ruim quanto, na vida real, ter de acompanhar forçosamente uma daquelas brigas de casal que não deveriam estar ocorrendo tão publicamente.


Vemos, portanto, durante mais de duas horas de filme, as dificuldades de relacionamento, a instabilidade do “Eu” frente ao “Eles”, a busca pela sinceridade, pelo “poder ser”, tudo isso a partir das relações entre uma mulher “louca” e sua família. Ninguém é tão normal quanto parece, e uma das indagações de Cassavetes é justamente querer entender como vários anormais conseguem criar regras de conduta e bons modos sociais, saindo por ai dizendo o que é certo, errado, feio e bonito.

É necessário ressaltar que, apesar de construir tal clima e indagações, mais uma vez não vemos o diretor julgando seus personagens de forma depreciativa. A câmera está lá, observando, mas não age como juiz nunca. Ela capta os movimentos, os gestos, os detalhes de expressão de todos os envolvidos, mas o faz da mesma forma com todos, seja Mabel, seja um figurante da festa ou um dos meninos que dança no jardim. Nunca o corpo falou tanto como nesse filme.

Ressaltar as atuações é dizer o óbvio. Gena Rowlands está hipnotizante, e muitas vezes fiquei surpreendido com o jeito da sua personagem, pois ela exibe aquela tentativa falha de controlar a falta de controle que, até então, só tinha visto acontecer na vida real. É como observar uma Mabel de verdade, nunca uma criação. Graças a isso, arrisco dizer, junto com vários outros cinéfilos por ai, que a força da parceria Cassavetes/Rowlands, se tivesse de ser resumida em um único filme, está aqui.

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